domingo, 28 de julho de 2019

QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL OU REVOLUÇÃO TOTAL?


1.    A Revolução a Todo o Vapor


            A questão que me proponho abordar não é propriamente nova; já por mais de uma vez me debrucei sobre ela em artigos publicados.
            Sucedem-se nos jornais e noutros meios de comunicação social análises quase sempre entusiásticas sobre as novas tecnologias e as virtualidades que terão no futuro. Os seus autores são na sua maioria especialistas na área da informática e falam-nos de coisas há pouco inimagináveis, como robotização, inteligência artificial, impressoras a três dimensões, drones, viagens ao espaço profundo, blockchain, tecnologias de registos distribuídos, internet das coisas, biotecnologias, neurotecnologias, realidades virtual e aumentada, etc. etc.
            Se cada uma destas coisas, só por si, é capaz de confrontar cada um de nós com questões de resposta difícil ou, pelo menos, a exigirem prolongada ponderação, a sua abordagem conjunta tem como consequência gerar-nos um estado de alguma confusão. Pelo menos, para quem se proponha entender em profundidade aonde é que tudo  isto nos vai levar.
            De um modo geral, a que se contrapõem honrosas excepções, os divulgadores destas tecnologias inovadoras apresentam-nas com notória euforia, como coisas prodigiosas, fruto da capacidade de invenção, não menos prodigiosa, de aplicados investigadores, e com a potencialidade de modificarem radicalmente o nosso modo de vivermos no futuro.
            Inspirados nas revoluções industriais que anteriormente ocorreram desde que nos países mais desenvolvidos se estruturou o modo capitalista de produção, prognosticam que a entrada em cena deste número, sem dúvida ilimitado, de novas tecnologias constituirá a «Quarta Revolução Industrial», muito mais transformadora do que as anteriores.
            E, como definem a dita Quarta Revolução apenas como industrial, isto tem implícito que, na sua ideia, esta não alterará o sistema económico capitalista, visto que, tal como as revoluções industriais anteriores, se limitará a catapultar a economia para um patamar de produtividade superior.
            Antes de avançarmos mais, recordemos historicamente em que consistiram as chamadas revoluções industriais anteriores.
            A primeira revolução industrial ocorreu na Grã-Bretanha em meados do séc. XVIII e propagou-se rapidamente a todos os países em que o capitalismo começava a despertar, e foi proporcionada pela mecanização da indústria de fiação e tecelagem, estendendo-se depois a muitos outros sectores, entre eles o fabrico do aço e a locomotiva a vapor, que deu origem ao caminho-de-ferro.
            Esta primeira revolução pode dizer-se que foi a consolidadora do sistema capitalista de produção, com a sociedade a dividir-se cada vez mais entre o patronato e uma classe trabalhadora assalariada cada vez mais numerosa.
            O aumento da produtividade, embora oscilando entre períodos de prosperidade e de depressão, seguiu uma tendência geral consistente, tendo-se a produção multiplicado por dez no espaço de cem anos.
            Quanto à denominada segunda revolução industrial, desenrolou-se entre sensivelmente  1870 e 1930, e proporcionou a vulgarização da produção de automóveis e de aviões, com motores de combustão interna; a produção de energia eléctrica, que permitiu uma nova forma de iluminação, os electrodomésticos, a rádio, a televisão, o telefone, o fabrico de plásticos, entre muitas outras coisas.
            Pelo tipo de produtos que pôs à disposição das pessoas em geral, esta segunda revolução teve já um grande impacto nos hábitos sociais e na forma de viver de cada um. Todavia, isto ocorreu sempre no quadro de uma economia capitalista; ou seja, mantendo-se o mesmo tipo de relações de produção.
            Dito de outro modo, a revolução conteve-se sem dúvida, no âmbito industrial, e determinou substanciais aumentos de produtividade, sublinhando-se que, a par disso, teve consequências notórias nos hábitos sociais.
            Passando à dita terceira revolução industrial, alegadamente gerada pelo aparecimento da informática na segunda metade do séc. XX, não há unanimidade entre os estudiosos do assunto sobre se de facto impulsionou a produção ou se se limitou a dar-nos diferentes formas de trabalhar.
            O que sucederá então com a Quarta Revolução Industrial? Será tão frustre como a terceira? Será tão capaz de trazer a transformação da produtividade industrial, mas nada mais do que isso, como as duas primeiras? Ou será muito mais transformadora do que todas as outras?

2.    Quem promove a “ quarta revolução”?


            Não faltam franco-atiradores deslumbrados com as múltiplas potencialidades das novas tecnologias e seus desenvolvimentos a profetizar os cenários mais inesperados para o mundo do futuro. No seu inebriamento, misturam tecnologias de aplicação a curto prazo e mesmo já em curso (veja-se o caso dos drones) com tecnologias com provável aplicação a médio, longo, longuíssimo prazo, ou até de discutível concretização algum dia. Tudo isto sem sequer se darem ao cuidado de escalonar no tempo a previsibilidade de execução prática de cada uma delas, ou as consequências da sua utilização, assim como sem enquadrarem essas consequências no tipo de sociedade em que ocorram ou venham a ocorrer.
            Isto deve-se indiscutivelmente a insuficiências de formação nas áreas da economia, da história económica, da psicologia, da neurologia, na sua perspectiva evolucionista, da comunicação, e ainda da ecologia, e não só; ou seja, deve-se ao facto de terem a sua formação centrada apenas na informática.
            As suas especulações sobre viagens ao espaço longínquo capazes de demorarem uns meros anos-luz, com congelamento dos viajantes e suspensão das suas funções vitais descambam para os domínios da ficção científica, alienando o público das questões com que temos que nos confrontar no imediato, ou a curto ou médio prazo.
            Espraiam-se em especulações sobre como se poderão alimentar onze biliões de humanos daqui a umas dezenas de anos, mas nada dizem sobre a questão, bastante mais acessível, de impedir um tão grande crescimento populacional, ou sobre as consequências ecológicas e ambientais que daí resultam.
            Mas, a intervir no amplo debate sobre as anunciadas consequências da introdução das novas tecnologia revolucionárias não se encontram apenas franco-atiradores. Também vêm a terreiro instituições de larga dimensão que se presumiria serem capazes de uma análise pluridisciplinar.
            Tal acontece, por exemplo, com o auto-intitulado Forum Económico Mundial – instituição cuja denominação sugere ser de carácter público e internacional, mas que, em vez disso, acaba por assumir-se como privada e promotora de parcerias público-privadas.
            Esta instituição privada merece-nos referência por ter editado no nosso país, em Janeiro do corrente ano de 2019, um livro intitulado Moldando a Quarta Revolução Industrial, da autoria do seu presidente Klaus Schwab, com a co-autoria de outros especialistas na apreciação de alguns temas mais específicos nele tratados.
            Pelo título escolhido, dir-se-á que o seu autor também entende que a revolução será apenas na área industrial, proporcionando um grande aumento na capacidade das forças produtivas, mas não resultando daí qualquer mudança do sistema económico.
            Aliás, em sintonia com esta ideia mais que discutível, ao longo de todo o livro vai pressupondo que tudo na Quarta Revolução deve ser regulado em conjunto pelos governos e pelos empresários, embora muito democraticamente, ou seja, como acontece em qualquer economia de capitalista. E, embora o problema do desemprego seja seguramente a consequência mais grave que se pode esperar em resultado da entrada em cena da inteligência artificial, dos robôs e outros automatismos, em todo o livro nenhum papel se atribui aos sindicatos, nem sequer neles se fala.
            Possivelmente, entende Klaus Schwab que, sendo os trabalhadores substituídos por robôs, não havendo trabalhadores, também não poderá haver sindicatos!...
            Há uma lógica aparente neste raciocínio, mas uma análise mais profunda da realidade revela-nos que esta questão é bastante mais complexa, não se bastando com uma conclusão tão simplista – como oportunamente veremos.
            Salienta-se também que a ideia implícita no título do livro de Klaus Schwab de que, com ele, o autor está a «moldar», ou a contribuir para isso, a quarta revolução industrial subentende que essa modelação, em primeiro lugar, é possível, e, em segundo lugar, é obra, não de um qualquer departamento estatal de planeamento, mas das empresas de produção de tecnologias e das instituições que as apoiam e promovem, entre elas, o Forum Económico Mundial.
            A verdade é que, no actual estado de coisas, as grandes empresas tecnológicas vão produzindo os artefactos com os quais esperam mais lucros, e os Estados assistem sentados à sua entrada no mercado. Não é estranho, por isso, que Klaus Schwab tenha escolhido para prefaciar o seu livro as pessoas que escolheu e seguidamente iremos ver.

3.    O activismo interessado dos fabricantes de tecnologias


            A propósito do livro Moldando a Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab, dissemos já que não se tratou de um acaso o facto de ter escolhido quem escolheu para o prefaciar.
            Vejamos: o livro tem um prefácio à edição original da autoria de Satya Nadella, CEO da Microsoft, e um prefácio à edição portuguesa de Pedro Pina, vice-presidente na Google.
            Antes de nos debruçarmos sobre o seu teor, convém ter presente que ambos os prefaciadores estão comprometidos com os interesses comerciais das empresas para quem trabalham, querem ajudá-las a vender, porque é disso que vivem. E vivem bem. Tantas vezes se fala das desigualdades de rendimento que existem no mundo, onde, segundo uma recente estatística, cerca de 26 capitalistas acumulam tanta fortuna como a metade mais pobre da população mundial, ou seja, uns 3.600 milhões seres humanos. Pois é, mas, entre esses grandes acumuladores de fortuna, encontram-se as empresas tecnológicas gigantes.
            O poder destas superempresas é tal que influenciam os governos, e, mais do que isso, antecipam-se-lhes, elaboram os seus próprios projectos de desenvolvimento de novas tecnologias, produzem-nas, transformando a sua existência num facto consumado. Se tanto se especula, e com razão, sobre a necessidade de testar as novas tecnologias, procurando evitar as suas consequências nefastas, obstando a sequelas irreparáveis, como pode aceitar-se isto?!
            Um exemplo desta incoerência, é o que se passa com os drones; já interferiram com a segurança do tráfego aéreo repetidamente, mas só agora andam as instituições estatais, a reboque da situação, a procurar regulamentar o seu uso.
            No prefácio de Satya Nadella, lê-se a certo passo: «A evolução da saúde global por meio da medicina de precisão – que abrange a variabilidade individual dos genes, os sistemas imunitários, o meio ambiente e o estilo de vida de cada pessoa – só pode ser alcançada pela aprendizagem automática à escala da internet, dos sistemas cognitivos e das redes neuronais profundas».
            Esta questão vem ao encontro da questão que já antes pusemos: porquê chamar ao efeito das novas tecnologias mais propaladas revolução industrial? As repercussões esperáveis não são de âmbito muito mais amplo?
            Diz-nos Satya Nadella noutro passo:
            «As tecnologias inovadoras somadas à força de trabalho treinada para usá-las de modo produtivo, multiplicadas pela intensidade do seu uso, propiciam crescimento económico e oportunidades para todos».
            É certo que estamos perante um simples prefácio do qual não podemos esperar profundas justificações. Porém, é demasiado simplista somar tecnologias inovadoras mais trabalho especializado e concluir sem mais que daí resultará crescimento económico e oportunidades para todos.
            Falarem assim para nos entusiasmarem a todos a adoptá-las, ou seja, a comprar-lhes novos utensílios ou meios de produção tecnológicos, é uma coisa, mas não é verdade também que vão sendo divulgados estudos de probabilidades que nos dizem que, com a entrada extensiva no sistema de produção dos robôs e outros automatismos, o desemprego aumentará drasticamente? E daí resultará crescimento económico, estagnação, ou mesmo redução da produção? Impõe-se apurada ponderação, baseada na ciência económica para responder responsavelmente.
            Importa, entretanto, salientar que o prefácio de Satya Nadella não é merecedor de análise só pelo seu teor, pelo que nele se escreve, mas sobretudo pelo que ele significa de patrocínio, de apoio ao conteúdo do livro prefaciado Moldando a Quarta Revolução Industrial. E o mesmo acontece com o prefácio à edição portuguesa, a que adiante nos referiremos.
            E isto expressa bem a comunhão ideológica e de interesses entre o Forum Económico Mundial, promotor de parcerias público-privadas, e os potentados da produção de novas tecnologias, mas também entre todos eles e os Estados, nas sociedades de mercado, visto que estes se dispõem mesmo a emparceirar com os grandes empórios privados – facto de que temos abundantes exemplos no nosso país, entre os quais sobressai o da participação do Presidente da República e do Primeiro-Ministro nas WEB Summits.
            No caso português, as figuras de proa da nossa estrutura estadual participam mesmo em cimeiras de promoção comercial das empresas produtoras de novos meios tecnológicos, aparentando exultar com o progresso, não se demarcando do seu apelo consumista e omitindo uma reflexão séria sobre as virtualidades ora benéficas ora perigosas que as novas tecnologias possam consigo transportar.

4.    Quem deve planear e regular a adopção de novas tecnologias?


            Como já atrás afirmámos, a palavra «moldando»  incluída no título do livro de Klaus Schwab Moldando a Quarta Revolução Industrial subentende que essa modelação, em primeiro lugar, é possível, e em segundo lugar, é obra, não de um qualquer departamento estatal de planeamento, mas das empresas de produção de tecnologias e das instituições que as apoiam e promovem, entre elas, o Forum Económico Mundial. Dissemos também que, no actual estado de coisas, as grandes empresas tecnológicas vão produzindo os artefactos com os quais esperam bons lucros, e os Estados assistem sentados à sua entrada no mercado. O que se passa com os drones é bem esclarecedor; só muito depois de os vermos por aí em acção é que o governo português se deu conta de que é necessário regular a sua utilização.
            O que Pedro Pina, vice-presidente na Google, nos diz no seu prefácio ao livro de Klaus Schwab é bem revelador de que as grandes empresas tecnológicas se arrogam o poder de definirem elas mesmas as regras de conduta a que devem obedecer, como se os Estados fossem coisas secundárias que não tivessem nada a alvitrar sobre tecnologias que podem determinar mudanças drásticas na vida das sociedades e das pessoas.
            Escreve o autor do prefácio:
            «…a inteligência artificial, por ser tão poderosa, levanta questões igualmente poderosas sobre o seu uso. A Quarta Revolução Industrial… … depende de como ela será desenvolvida e utilizada nos próximos anos. O seu impacto na sociedade será muito significativo e por um tempo muito alargado».
            Se o recurso à inteligência artificial pode ter um tal impacto na sociedade, daí resulta uma grande responsabilidade para os Estados de regularem e controlarem a investigação e a aplicação das tecnologias correspondentes; um Estado que enjeite uma tal responsabilidade estará a enjeitar-se a si mesmo.
            Mas, pelos vistos, a Google não pensa assim, acha que deve ser ela mesma a auto-regular--se.
            É o próprio Pedro Pina quem, ufano, disso nos informa.
            Diz-nos que:
            « …Já em 2018, a Google revelou ao público sete princípios orientadores para o seu trabalho daqui para a frente».
            E acrescenta que o que foi decidido foi que o trabalho da empresa em inteligência artificial terá de:
            « - Ser socialmente positivo ou benéfico…
            « - Evitar criar ou reforçar preconceitos injustos…
            « - Ser seguro…
            «- Reportar a seres humanos: a nossa tecnologia de inteligência artificial estará sujeita à direcção e ao apropriado controlo humano.
            « - Respeitar a privacidade…
            « - Defender altos padrões de excelência científica…
            « - Usar IA ( inteligência artificial ) apenas para aplicações que obedeçam aos princípios acima assinalados ».    
            Pois sim, mas quem vigia, como é preciso vigiar, o cumprimento destes princípios? Ninguém é bom juiz de si próprio. E, se as consequências do seu incumprimento recaem, de forma porventura catastrófica, sobre a generalidade dos cidadãos, como se pode conceber que a fixação de princípios e normas imperativas, bem como a garantia da sua observância, não sejam da competência do próprio Estado?
            A ideia da auto-regulação, descoberta quase invariavelmente por potentados empresariais cuja actividade pode conduzir a malefícios sociais, não é nova, e a sua aplicação prática tem como invariável resultado, o completo insucesso.
            Veja-se o caso das empresas privadas de televisão e dos jornais privados de maior expansão, também hiperarrogantes na defesa daquilo a que chamam liberdade de imprensa, mas  igualmente com a fatal consequência de enviesarem a informação em função dos interesses da classe empresarial, da qual fazem parte as próprias empresas de comunicação social.
            A experiência humana já há muito adquiriu a compreensão de que cada um tende a agir de acordo com o seu interesse. No mundo da justiça, é este saber que subjaz ao princípio do contraditório que permite confrontar as verdades de cada uma das partes.
            Não obstante assumir o poder de se auto-regular autocraticamente, à margem dos poderes estatais instituídos, Pedro Pina obtempera, de forma que se revela dissimulatória, que « estamos ainda nos primeiros anos desta longa viagem, mas sabemos que o seu impacto será determinado pelas escolhas que nós, os seres humanos, decidirmos tomar ». Será que seres humanos são apenas os administradores da Google, ou a empresa pensa de facto convocar uma assembleia mundial para deliberar as escolhas de que fala?        

5.    Vão os Estados planear e controlar a adopção das novas tecnologias?


            Numa perspectiva ingénua, poder-se-á pensar que é tudo muito simples: o Estado é o poder máximo de um país e representa a sociedade civil; poderia, por isso, impor a sua vontade e a sua força e chamar a si a condução regrada da marcha para a sociedade tecnológica do futuro. 
            Uma ponderação mais aturada, somada às lições da história económica, ensina-nos, porém, que um Estado serve sempre a classe que domina economicamente. Veja-se a forma como, em Portugal, o Estado funciona como a “ segurança social “ dos bancos e amamenta empresários da saúde e da exploração de auto-estradas e pontes em regime público-privado.
            Aqui e na maior parte do mundo, imperam sistemas capitalistas. Seguramente não vão durar eternamente, mas quem arrisca um vaticínio quanto à data da sua substituição?
            Numa certa perspectiva, que abordaremos oportunamente, não se exclui mesmo a hipótese de o capitalismo colapsar exactamente como consequência das alterações na produção provocadas pela introdução no processo produtivo de substanciais novas tecnologias como os robôs, os sistemas de inteligência artificial e a impressão a três dimensões.
            Mas também, quanto a estas tecnologias, não é fácil antever qual será o ritmo a que serão adoptadas pelas entidades empresariais, nem sequer quando estará cada uma delas em condições e em que grau de aperfeiçoamento e acessibilidade de preço para poder ser integrada generalizadamente na produção.
            Nestas circunstâncias, enquanto perdurarem os sistemas de economia de mercado e de iniciativa privada, que esconjuram qualquer ideia de planeamento da economia, as disfunções próprias da sua lógica de funcionamento continuarão a conduzir-nos à produção do que se mostrar mais lucrativo em vez daquilo que é mais necessário ao conjunto da sociedade.
            Uma séria contradição emergirá seguramente desta situação, porque é precisamente quando se nos depara a certeza de que poderosas novas tecnologias irão provocar mudanças drásticas nas sociedades humanas, que deveriam ser introduzidas com todas as cautelas e a máxima ponderação de forma a não causarem fracturas sociais, como têm potencialidades de causar, é precisamente nesta altura, dizíamos, que os grandes empórios de produção dessas tecnologias assumem uma dimensão e poder de tal forma grandes que lhes permitem sobreporem-se ao Estado e fabricarem e porem no mercado, livres de quaisquer condicionamentos, toda a espécie de utensílios, artefactos, robôs, de forma indiscriminada, só porque isso lhes dá mais lucro.
            Já nos referimos aos drones, a propósito das interferências no tráfego aéreo, mas eles podem ser usados para muitas outras coisas nefastas, como a violação da intimidade privada, ou mesmo ataques de poder devastador, não só por civis como por forças militares.
            A impressão a três dimensões possibilita a construção, além de muitos outros bens, de armas exactamente iguais às originais armas de fogo, que podem ser usadas por organizações criminosas.
            Dias virão em que armas militares ainda mais poderosas estarão também ao alcance de um qualquer particular, ainda que eventualmente afectado por anomalia psíquica. Como se não bastasse já a ameaça nuclear que sobre o mundo impende!
            Ao que tudo indica, viveremos cada vez mais num estado de anarquia muito original; uma anarquia reservada, privilégio de uma casta de super-ricos, enquanto o Estado se confinará a manter na ordem os que cada vez mais lhe sofrem as consequências.
            E, nessa sua função, é, sem dúvida, muito ajudado pelos super-ricos fabricantes de novas tecnologias, porque não faltam entre elas as mais aptas a manterem os consumidores distraídos, entretidos com jogos de computador, paciências, notícias falsas, coscuvilhices, miríades de informações supérfluas capazes de induzirem uma paralisante dispersão.
            Isto há-de ter um fim, pensamos nós, e a saída não nos será dada de mão beijada nem pelos Estados, tal como actualmente se nos apresentam, nem pela anarquia reinante, apanágio dos mais ricos.

6.    A revolução tecnológica e os investigadores


            É muito vasto o número de investigadores que em universidades, fundações e empresas de todo o mundo vão acumulando conhecimentos que estão na base dos avanços tecnológicos. O seu trabalho dá frutos valiosos, mas pagam-lhes cada vez pior; nada que surpreenda; os sistemas de ensino despejam-nos ano após ano no mercado de trabalho, e quanto maior é a oferta de mão-de-obra, mais os salários baixam e a segurança no emprego diminui.
            Quanto à natureza da investigação que prosseguem, o Estado alheia-se da questão. Cada vez mais, incentiva parcerias entre as instituições de investigação e as grandes empresas. O resultado é que os departamentos de investigação perdem, cada vez mais, a oportunidade de desenvolver projectos com objectivos próprios. Os objectivos fixados são cada vez mais aqueles que correspondam às exigências do mundo empresarial. Isto redunda, antes de mais, no enviesamento dos programas de pesquisa e num leque cada vez mais estreito de opções de investigação, e, por via disso, num empobrecimento de resultados científicos que provoca depreciação na formação dos próprios investigadores.
            Em suma: uma preparação escolar prolongada não corresponde a qualquer valorização profissional, o investimento familiar na formação profissional não é compensado pelas retribuições auferidas – o que leva, a prazo, ao empobrecimento das famílias, que se repercute no seu património.
            A longo prazo, se se atingir uma fase em que a inteligência artificial (IA) alcance níveis de capacidade superiores aos das competências humanas, quem sabe se os cientistas não ficarão também sem trabalho, juntando-se no desemprego aos trabalhadores manuais dispensados pelos robôs…
            Já noutros escritos referi que a taxa média de lucro das empresas tem tendência para diminuir, e que, mesmo para conseguirem obter os lucros proporcionalmente menores que agora auferem, têm sido beneficiadas pelo prático congelamento de salários, desde há décadas, pelo congelamento das rendas de casa, pelo custeio pelas famílias e pelo Estado dos longos cursos de formação, e pela alimentação, vestuário, transportes, manuais escolares, etc., dos formandos.
            Para aqueles que, ardilosamente, propagam por aí que os trabalhadores agora são como empresários individuais, que nem devem ter contratos de trabalho permanentes, convém lembrar-lhes que, a ser assim, estão todos em iminente estado de falência, porque os cada vez mais exíguos salários que auferem só ao fim de muitos anos conseguem, quando conseguem, cobrir o valor despendido ao longo dos anos com a sua criação e formação… E então as famílias não serão nunca compensadas.
Em países como os Estados Unidos, em que um curso superior é muito dispendioso, e os que queiram tirá-lo só têm como solução recorrer a empréstimos bancários vultuosos, acontece que, uma vez formados, os salários que lhes pagam não chegam para amortizar os empréstimos, o que tem como resultado a sua insolvência.
            Isto implica que, mesmo sem estarmos numa fase da história económica em que os robôs, a IA (inteligência artificial), a impressão a três dimensões e todas as demais inovações tecnológicas que as empresas do ramo e os seus caudatários apregoam tenham já uma ampla aplicação prática, o estado actual da economia revela uma séria tendência para uma depressão recorrente que ameaça levar o sistema económico vigente ao descalabro.
            É por isso que a questão fulcral que se nos apresenta hoje em dia é a de saber se as novas tecnologias referidas irão proporcionar o aumento do lucro das empresas, em simultâneo com o aumento do emprego ou, pelo menos, com a manutenção do emprego actual, ou se, em vez disso, irão conduzir à diminuição dos lucros e do emprego, podendo acarretar o próprio colapso do sistema económico.
            Não é questão, portanto, de que qualquer um de nós se possa alhear, e que aprofundaremos mais adiante.
            O autor de Moldando a Quarta Revolução Industrial procura aparentar que acredita que tudo o que se relacione com a aplicação prática das novas tecnologias pode ser controlado de modo a conduzir ao bem comum e à justiça social. Na sua Introdução, diz-nos que “ a inovação e a tecnologia estão centradas na humanidade e na necessidade de servir o interesse público …”, ao mesmo tempo que reconhece no parágrafo 3º da introdução que “…nos últimos 24 meses… …surgiram novas evidências empíricas dos impactos disruptivos das tecnologias emergentes e novos modelos nos negócios, no trabalho, nas relações sociais e nos sistemas políticos”.
            Mas o que é que era de esperar? Estão numa sociedade de mercado, as tecnologias usadas na produção não são mercadorias? Não são usadas na produção privada com objectivos de lucro? Por que estapafúrdia coincidência é que o fim lucrativo iria agora coincidir com o interesse do público, se raramente isso acontece?

7.    A revolução sempre é total, ou não?


            Já chamámos a atenção para a questão de esclarecer se o título do livro de Klaus Schwab corresponde ou não à realidade que ele mesmo nele analisa. Porque, à medida que se vai avançando na sua leitura, vamos tropeçando com frequência em afirmações que parecem evidenciar que o seu autor admite que as consequências da entrada no mercado das novas tecnologias vão muito além de uma revolução industrial. Exemplificando, diz-nos também Klaus Schwab na introdução, na página 17:
            “ A Quarta Revolução Industrial tem o potencial para robotizar a humanidade, e assim comprometer as nossas fontes tradicionais de significado – trabalho, comunidade, família, identidade, ou então podemos usar a Quarta Revolução Industrial para elevar a humanidade a uma nova consciência colectiva e moral baseada num sentido partilhado de destino. Cabe-nos a todos garantir que é a última opção que prevalece”.
            O autor admite, portanto, que a revolução tem o potencial de alterar tudo aquilo que se relacione com a vida em sociedade, e não só o que respeita à indústria; o que nos diz é que aquele sujeito abstracto que somos nós “ todos “ tem capacidade para garantir que isso não acontecerá. Mas isto é uma consideração hipersubjectivista que não concretiza, por ser impossível concretizar.
            Klaus Schwab sabe em que tipo de sociedade vivemos e quais são as lógicas impostas pelos mercados, assim como a dinâmica gerada pela procura voraz do lucro.
            Bom, deixemos por enquanto esta questão em aberto. Klaus Schwab não diz no seu livro apenas coisas que nos mereçam crítica, fornece-nos também informação sobre a natureza das novas tecnologias e em que consistem as suas aptidões.
            Fá-lo em relação à computação em nuvem centralizada, à computação quântica, sequenciadores genéticos, tecnologias vestíveis, drones, dispositivos de realidade virtual e aumentada, plataformas de inteligência artificial, blockchain, tecnologias de registos distribuídos, internet das coisas, inteligência artificial e robótica, impressão multidimensional, biotecnologias, neurotecnologias, captação e armazenamento de energia, geoengenharia.
            Não cabe neste trabalho a definição de cada uma destas tecnologias e das suas potencialidades, assim como avaliar o ritmo de aperfeiçoamento de cada uma delas e prever a sua progressiva entrada em funcionamento.
            A sua diversidade e as suas múltiplas funcionalidades permitem-nos, porém, prever grandes fracturas nas relações sociais em geral e nas relações de produção que implicarão de forma drástica a reestruturação das sociedades em que vivemos.
            Sabemos todos já, porém, o que é um robô, tal como está já muito divulgado o que é a impressão a três dimensões. Quanto à inteligência artificial, não é difícil imaginar o que seja, sendo, contudo, mais complexo antever todas as suas aplicações e consequências.
            Certo é que, na base da organização de uma sociedade, está a sua economia, o seu sistema de produção, daí que nos seja possível antecipar que as tecnologias que interfiram substancialmente com a produção e as relações de produção proporcionem só por si uma forte probabilidade de determinar mudanças decisivas nos sistemas de produção em que ocorram.
            No mundo desenvolvido, a maioria dos países têm um sistema económico capitalista, em que predominam as relações de trabalho assalariado. Além destes, encontramos os países socialistas, com um sistema de produção socializado, mas também países cujos governos apontam como meta essa socialização, mas em que vigoram ainda relações de produção capitalistas.
            A par destes países, outros encontram-se em estádios de desenvolvimento pré-capitalistas ou em transição para o capitalismo.
            Relativamente aos países de sistema económico capitalista, o problema económico que se levanta mais comummente é a questão do emprego, e as implicações que daí decorrem.
            De facto, já a maioria das pessoas terá pensado, por exemplo, no que acontecerá se a substituição na produção de pessoas por robôs se acentuar substancialmente?
Um estudo realizado e publicitado na generalidade da comunicação social recentemente prevê que, em 2030 (daqui a apenas 11 anos) em Portugal, haverá menos 1.200.000 empregos. Nos E. U. prevê-se que estarão em risco de informatização entre 10% e 50% dos postos de trabalho. E não são só os robôs a dispensar mão-de-obra. O mesmo acontece com a tecnologia blockchain, a internet das coisas, a inteligência artificial, a impressão a três dimensões, como refere Klaus Schwab no livro a que nos temos vindo a referir. Refere-o, note-se, não no seu conjunto, mas em análise de cada uma destas tecnologias em particular. Mas impõe-se avaliar o impacto somado de todos estes factores de desemprego, que é assustador.

8.    A inteligência artificial é de esquerda ou de direita?

           
            A maioria dos robôs são maquinismos pré-programados que executam operações sempre do mesmo modo.
              A ideia de dotar de inteligência os robôs ou outros sistemas surgiu com o objectivo de lhes permitir dar respostas alternativas a situações não programadas. E já há sistemas com alguma forma de inteligência artificial (IA), sendo de prever o seu sucessivo aperfeiçoamento, acreditando muitos investigadores que essa inteligência poderá vir a atingir um nível igual ou mesmo superior à dos humanos, mas a longo prazo.
            Diz-nos Arlindo Oliveira, cientista com vasto currículo, actual director do Instituto Superior Técnico, no seu livro Inteligência Artificial, que «existem propostas de impedir o desenvolvimento das tecnologias de IA, com medo das consequências negativas que daí podem advir».
            Pela nossa parte, como resulta do que já antes dissemos, a questão decisiva em relação a todas as novas tecnologias é a do seu planeamento e controlo, não pelas empresas tecnológicas, ou pelas empresas em geral, mas por um poder público responsável, democraticamente controlado, de modo a que, aos interesses lucrativos privados, se sobreponha o interesse geral.
            Cremos, nestas condições, ser possível tirar proveito do recurso a inteligência artificial desde que contido em adequados limites.
            Actualmente, computadores há que são de enorme eficiência em cálculos matemáticos e de probabilidades que só podem ser de bom proveito. Mas, facilmente se percebe que na mente humana os dados de que dispomos para avaliar situações são de muito diversa fiabilidade, dependem, não só de conhecimentos vindos das ciências exactas como das não-exactas, da experiência, do nosso grau de cultura e do peso relativo que dentro dela têm as diferentes áreas do saber científico, com tudo isto interferindo, em sede de ponderação e decisão, as pulsões vitais, os instintos, os efeitos de imitação, a publicidade…
            Como se tudo isto não bastasse, os cérebros humanos não são nada rigorosamente iguais; uns têm melhor inteligência teórica outros inteligência prática; uns, grande poder de memorização, outros, menos; nuns, interferem excessivamente factores emocionais, noutros, insuficientemente; já outros, são mais equânimes; se uns têm um amplo campo de consciência que lhes permite dar resposta a diferentes solicitações em simultâneo, outros têm-no mais reduzido, propício à concentração; e a nossa constituição genética também é diversificada.
            Em suma; não há um padrão absoluto de inteligência humana, e cada um tem a sua mundividência própria.
            Daqui que se pergunte: se um dia viesse a criar-se uma inteligência artificial pretensamente igual à humana, como seria? Iria instituir-se um padrão universal de inteligência?
            Curiosamente, no seu livro supracitado, Arlindo Oliveira sentencia que «é preciso que a investigação para a superinteligência seja regrada para que o superinteligente tenha os seus objectivos alinhados com os da humanidade».
            Bom, será caso para nos interrogarmos: e se a criatura superinteligente, e porque o será, achar que os objectivos da humanidade programados pelos seus criadores não são os mais convenientes e adequados aos interesses e aspirações da espécie humana? Conformar-se-á com agir estupidamente?
            Deixemos, porém, esta questão de parte e prestemos atenção a um outro aspecto que a afirmação de Arlindo Oliveira subentende que é o de pressupor que se pode criar inteligência artificial à medida do interesse de cada um, e mesmo uma IA com objectivos, mais que desalinhados, contrários mesmo aos interesses da humanidade.
            Pela nossa parte, não temos dúvidas de que esta inteligência artificial mais estúpida, porque é meramente funcional e não autónoma e reflexiva, que será eficiente enquanto meio, mas bronca e alarve quanto aos fins que lhe fixarem os seus criadores, é a que vai ser mais promovida nas sociedades classistas, com total desprezo pelos mais desfavorecidos.
            Questão de especial importância é, por conseguinte, saber em que contexto histórico-social surgirá a inteligência artificial avançada. Se intervier na produção numa sociedade de sistema de produção capitalista, a IA (inteligência artificial) será um meio de produção pertencente ao patronato, e só pode favorecer, de forma real ou aparente, os seus interesses. Se assim não acontecer, é evidente que a entidade patronal não vai investir numa tecnologia que a prejudique.
            O livro Inteligência Artificial de Arlindo Oliveira presenteia-nos, de qualquer modo, com uma exposição cuidada da forma como evoluiu o cérebro que hoje é o humano ao longo de milhões de anos. Cérebro que tem enormes capacidades e aptidões, tanto no plano do consciente como no do subconsciente ou do inconsciente, mas que progrediu muito lentamente, num processo moroso. A pesquisa de inteligência artificial significa que o Homem não se conforma com esperar até que o seu próprio cérebro evolua no sentido de adquirir mais competências; mas o desfasamento temporal entre inteligência artificial e inteligência humana, em prejuízo desta, pode ser fonte de consequências nefastas.

     9. Um robô inteligente poderá ser crente?


            São muitas as questões que se podem colocar sobre as reais características e capacidades de um robô ou outro sistema inteligentes.
            O desenvolvimento da inteligência que hoje é a humana ocorreu ao longo de milhões de anos e foi-se concretizando, num processo de selecção natural, de forma a dar resposta às nossas necessidades; primeiro, as necessidades primárias de sobrevivência (alimentação, defesa de outros seres vivos agressivos e dos aspectos agrestes do ambiente), de reprodução e protecção da descendência, mas também as relativas ao carácter eussocial da espécie humana que faz de nós indivíduos que vivem e interagem em sociedade.
            Porém, à medida que os agregados humanos foram ganhando maior dimensão, passando dos clãs às tribos, e destas a sociedades de maior dimensão e complexidade, mostrava-se necessário instituir normas de comportamento individual e de estruturação do poder para assegurar uma determinada ordem social.
            Nessa fase histórica, não passaria pela cabeça de ninguém marcar eleições para eleger uma assembleia constituinte destinada a proclamar soberanamente os princípios fundamentais da organização de um Estado.
            Ainda não tinha chegado a altura de o povo conseguir assumir a soberania para escolher livremente as formas de governo e a legislação reguladora dos direitos e deveres dos cidadãos.
            Era muito mais fácil, ou talvez não, ficcionar a existência de deuses dotados de poderes sobrenaturais, moral e inteligência perfeitas, mesmo etéreas, de modo a convencer os povos a acatarem as regras dos decálogos ou outros normativos que os poderosos do meio escolhiam, por serem condizentes com os seus interesses, mas cuja autoria era imputada à suprema sapiência e clarividência desses seres transcendentes.
            Embora de modelação muito antiga, esta era já uma forma, embora pouco ou nada tecnológica, de inteligência artificial, expressa em oratórias ou mesmo textos “ sagrados”; e o seu objectivo era o de criar uma forma de suposta inteligência superior à dos humanos, à qual se pretendia que estes submetessem a sua, remetendo-se à subserviência.
            Inteligência artificial esta que nada tem de absoluta; foi sendo confeccionada conforme as conveniências impostas pela natureza de cada uma das sociedades cujas relações sociais importava regular.
            Se, como já vimos antes, mesmo relevantes autores admitem, na era actual, que se podem criar, no mundo das novas tecnologias, sistemas de inteligência artificial igualmente ao gosto de cada um, talvez não tenhamos progredido tanto nesta matéria como poderá parecer desde os tempos das sociedades esclavagistas e feudais.
            Nem é de pôr de parte que, nos nossos dias, alguém se lembre de criar um robô com inteligência artificial igual à dos transcendentes seres imaginários, declarados criadores dos princípios reguladores ideais das relações sociais, com o que não avançaríamos um palmo em relação às primitivas inteligências artificiais.
            De qualquer modo, mesmo na hipótese de cientistas da máxima seriedade e despidos de interesses que enviesassem a sua prática científica se proporem criar um sistema de inteligência artificial neutro, apenas visando discernir, com inteligência global e infalível, e decidir em conformidade, isso seria mesmo possível?
            Parece-nos bem que não.
            Uma inteligência absolutamente infalível pressupõe a posse de um número de dados infinito, um conhecimento absolutamente grande, porque uma tal inteligência tem como pressuposto a possibilidade do saber total sobre a essência de todas as coisas. Não havendo, como não há, um conhecimento total do mundo e de todas as coisas, em todos os seus aspectos, não pode haver uma inteligência, artificial ou não, que possa valer-se desse conhecimento para decidir em tudo com todo o rigor.
            No domínio da teoria do conhecimento científico, é comummente aceite que a pesquisa científica não tem fim. É possível alcançar conhecimentos novos verdadeiros e relacioná-los com outros já alcançados, permitindo que vejamos estes a uma nova luz resultante do saber acumulado. Mas há sempre uma vastidão de outras coisas que continuam no desconhecido à espera de a sua descoberta ser alcançada pelo investigador. O processo de pesquisa do conhecimento é infinito, seja natural ou artificial a inteligência que nisso se empregue.
            Isto conduz a que nenhum computador possa ter um conhecimento total da realidade, e, por isso, não possa ter uma inteligência perfeita e inultrapassável.
            Um sistema tecnológico inteligente não consegue também uma boa síntese do conhecimento global já alcançado em todas as áreas e disciplinas do conhecimento; síntese esta que é essencial como plataforma de apoio e ponto de partida para uma filosofia própria do nosso tempo. Assim concluímos, porque não tem capacidade para sintetizar conhecimento na área das tradicionalmente chamadas ciências não exactas, e, no que se refere às chamadas exactas, é comummente aceite que o conhecimento adquirido nunca é completo e definitivo, podendo sempre ser complementado, reconfigurado por influência de novas aquisições cognitivas, ou mesmo ultrapassado.
            E a isto acresce que não há, nem pode aceitar-se que se crie, uma inteligência padrão, que rejeitaria a existência de outras formas de inteligência, e, por isso mesmo, consubstanciaria uma ininteligência.
Atente-se ainda em que, se nos referimos às ciências «chamadas exactas» nestes termos, é porque a sua exactidão é também posta em causa desde há muito, e, antes de mais, quanto à que é tida como a mais exacta de todas elas: a matemática.
A constatação da sua exactidão fundamenta-se nos denominados teoremas de Gödell, enunciados por este matemático já nos anos trinta do século XX que, simplificando, sustentam que a matemática não é dotada de uma exactidão absoluta; a sua certeza só ocorre no contexto dos axiomas e teoremas que assume.
Axiomas e teoremas que não estão delimitados ad aeternum. A matemática também evolui, como as demais ciências, beneficiando de novas aquisições em resultado da investigação.
Esta questão foi muito glosada no decorrer da conhecida «guerra das ciências», polémica que decorreu também em Portugal na primeira década deste século, e em que foram especialmente intervenientes António Manuel Baptista e Boaventura Sousa Santos.
Mas, a ser assim, como parece indiscutível que é, a inteligência artificial absoluta teria que suplantar esta insuficiência da própria matemática criando uma nova matemática de infalível e omnicontextual certeza.
… Sendo os contextos virtuais infinitos.
Daí que, mesmo aos êxitos na criação de computadores com grandes desempenhos na área da matemática, tal como se configura no presente, não podemos confundi-los com a obtenção de resultados e saberes de consistência absoluta e definitiva.

10. A inteligência artificial é de esquerda ou de direita? - II


            Voltando ao livro Inteligência Artificial, de Arlindo Oliveira, vemos que este autor, não obstante ser investigador “ nas áreas de algoritmos, aprendizagem automática, bioinformática e neuroengenharia “ , não resistiu a abordar, ainda que de forma menos profunda, a questão das consequências que as novas tecnologias têm a virtualidade de produzir na vida social, particularmente na economia.
            Diz-nos a páginas 92/93:
            “ As actuais transformações tecnológicas… …irão também produzir profundas transformações na forma como trabalhamos, produzimos e vivemos”.
            E acrescenta:
            “ Os mais optimistas defendem que o resultado final destas transformações será globalmente positivo, não só para a economia mas também para a esmagadora maioria da população…”
            Esta última afirmação, sejamos claros, não é de Arlindo Oliveira, mas dos “ mais optimistas” a que se refere.
            Aliás, este autor, interroga-se, e muito bem, mais adiante (pág. 93):
            “ Será o valor económico criado pelas alterações tecnológicas dividido, de forma adequada, por todos os membros da sociedade?»
            E, sobre esta questão, levanta dúvidas, por não ser óbvio que seja possível dar formação adequada aos trabalhadores para se readaptarem a novos postos de trabalho e também porque entende que «o número de empregos que serão eliminados é, provavelmente, maior que o número de empregos que serão criados».
            O mesmo autor acrescenta que, mesmo na hipótese mais optimista, podem também “…surgir assimetrias cada vez mais significativas na distribuição de rendimentos…” , e chama ainda a atenção para a tendência para a concentração da riqueza em escassas empresas globais, o que gera dúvidas sobre a hipótese de conseguir-se um equilíbrio de rendimentos entre todos os cidadãos.
            Todavia, dispensando-se de nos explicar como, remata as suas preocupações sentenciando que “ quaisquer que sejam os mecanismos, é importante garantir que os ganhos económicos que resultem da adopção destas novas tecnologias serão distribuídos por todos os elementos da sociedade e não contribuirão para criar maiores fossos entre os mais ricos e os mais pobres” (p. 95).
            Esta afirmação, na sua intenção, não é má, só que não explica como é que o problema se ultrapassa, o que nos mantém na estaca zero da sua resolução.
            Em boa verdade, a própria afirmação, nos seus propósitos, não vai muito longe; contenta-se com uma distribuição de rendimentos que não contribua “ para criar maiores fossos entre os mais ricos e os mais pobres” – o que tem implícito que aceita que persistam os enormes fossos já existentes, que são clamorosos.
            Quanto a mecanismos de redistribuição da riqueza, se, passados já séculos de economia capitalista, com empresas de envergadura muito menor, nunca o Estado se atreveu a travestir-se de Robim dos Bosques anti-patronato para tirar aos ricos e dar aos pobres, como iria fazê-lo agora, subjugado até ao sufoco que está, pelas poderosas multinacionais a que Arlindo Oliveira alude?!
            Nesta reflexão que empreendemos sobre os efeitos das diversas novas tecnologias que se vislumbram no nosso horizonte, já nos referimos ao fenómeno exactamente inverso de redistribuição de rendimentos, não em favor das classes desfavorecidas mas do patronato; já falámos da sustentação pelo Estado dos bancos em situação deficitária crónica; das parcerias público-privadas cada vez mais em moda que nutrem as empresas com lucros garantidos; das rendas de casa congeladas, com prejuízo dos senhorios, que permitem aliviar às entidades patronais a pressão de reivindicações salariais; do ensino público que poupa às empresas as despesas com a formação dos futuros profissionais; do custeio cada vez mais alongado e avultado pelas famílias do ensino especializado dos seus estudantes para irem trabalhar por salários cada vez mais baixos e piores regalias contratuais; e poderíamos dar muitos mais exemplos, como a diminuição das indemnizações por despedimento, a caducidade dos contratos colectivos de trabalho; mas fiquemos por aqui.
            E o próprio Arlindo Oliveira, na pág. 94 do seu livro, não reconhece que nos Estados Unidos “ o rendimento da família mediana… (não confundir com média) …deixou de crescer no princípio do séc. XXI e começou a diminuir”, e que tal se deve “…à concentração de rendimentos numa franja cada vez mais reduzida da população, detentora da formação adequada e do capital necessário para investir em novas áreas? Não é isto um fenómeno de mega-redistribuição de rendimentos, em favor da classe empresarial?
            Se a tendência é esta, e há explicação económica para isso, como a seu tempo iremos ver, que consistência tem a mera esperança de que a tendência se inverta?
            Quanto ao rendimento básico incondicional, a que oportunamente nos referiremos mais detalhadamente, não é estranho que, ficando por sistema sem resposta a generalidade das reivindicações dos sindicatos e outras organizações operárias, venham agora governos e outros alheios ao mundo laboral oferecer-lhes este “ rendimento “ extra garantido assim de-mão-beijada?!
            Quando a esmola é grande…

11. A inteligência artificial e a protecção de dados pessoais


            Sobre a questão da inteligência artificial, julgamos ter já evidenciado que é de grande ingenuidade supor que aquela inteligência que venha a ser criada seja uma inteligência neutra e suprema, alheia aos interesses de cada um.
            Tal como, no capitalismo em geral, nada se projecta produzir que não seja aquilo que mais interessa para a obtenção de lucros e satisfação dos interesses dos produtores, e nada se produz com o objectivo primeiro de satisfazer as necessidades dos povos em geral. Daí resulta um sistema disfuncional com constantes desencontros entre o que se produz e impinge à custa de narcóticos meios publicitários e as necessidades sociais referidas.
            No plano interno de uma dada sociedade, como já dissemos, quem propenderá a recorrer a sistemas de inteligência artificial será a classe dos empresários, ambicionando, ao nível da empresa, aumentar a produtividade e dispensar trabalhadores, com o fim de poder baixar o preço dos seus produtos para vencer a concorrência – o que provoca, cada vez mais, a diminuição da taxa média de lucro.
            Mas a corrida à inteligência artificial também ocorre entre os diversos países, nomeadamente para fins militares, o que tem implícito que também aqui se sobrepõem ora ambições de supremacia, ora preocupações de defesa de ataques dos mais fortes – ou seja, também aqui não se procuram soluções tecnológicas para servir todos os Estados, sem distinção, mas sim a inteligência artificial que mais convenha a cada um.
            Continuamos, portanto, não com a produção de inteligência artificial justa e neutra, sobreposta aos interesses em conflito, mas com uma inteligência subserviente destinada a servir os interesses de quem a usa, mas com prejuízo para quem lhe sofre os efeitos.
            O jornal Público de 13 / 4 / 2019 deu à estampa um texto de Karla Pequenino com o título «A Ficar Para Trás na Corrida, UE Quer Inteligência Artificial “ de confiança “», a que se segue o subtítulo «enquanto os EUA e a China competem para dominar na área da inteligência artificial, a União Europeia foca-se em definir princípios para sistemas autónomos justos e imparciais, que um humano pode parar a qualquer momento».
            Decorre do que atrás dissemos que é muito difícil acreditar no que se diz no título do texto em causa. A União Europeia pode querer-nos seduzir com a ideia de que só procura uma inteligência artificial boazinha e não tem quaisquer outros propósitos, mas isso seria acreditar que é indiferente aos avanços alcançados pelos EUA e a China.
            Qualquer destas três potências não procura inteligência artificial como objecto decorativo, mas antes como arma ora económica, ora militar, ora mesmo como instrumento de ordenamento social. E, acima de tudo, são estes objectivos que presidem à sua busca científica.
            É sabido que a hipótese de um sistema de inteligência artificial sobre-humana, que a ficção científica antecipa como iminente, tem muito de assustador; daí que caia bem aos porta-vozes da União sossegar os seus bons povos, falando-lhes de inteligência artificial “ de confiança “ e que se pode desligar carregando num botão “ a qualquer momento”.
            …Só que os sistemas de inteligência artificial que a qualquer das potências convém mais ser capaz de parar, não são aqueles que cada uma delas produz e detém, mas aqueles (sobretudo os de natureza militar) que são propriedade das potências concorrentes.
            Transcrevendo declarações da investigadora Virgínia Dignum, refere a autora do texto jornalístico a que nos vimos referindo:
            «É preciso mostrar que há limites para a inteligência artificial…»
            «…A forma como uma máquina chega a uma conclusão é diferente da de um ser humano, e isto por vezes leva a casos de discriminação, que é algo que a Europa não quer».
            E revela-nos também que a investigadora em causa deu o exemplo da Amazon que, em 2015, terá desistido de um sistema de recrutamento baseado em inteligência artificial “ porque os algoritmos escolhiam recorrentemente contratar homens em vez de mulheres para empregos em informática», pelo facto de as decisões do sistema de inteligência artificial estarem condicionadas por um deficiente conjunto de dados que lhe foram fornecidos.
            Antes de mais, importa salientar que, atenta a natureza do erro referido, a consequência tanto pode ser uma situação de discriminação como outro erro qualquer.
            Mas importa salientar também que o exemplo nos parece inadequado ao fim em vista, porque não consubstancia um caso de verdadeira inteligência artificial, mas sim de decisão automática em função de certos dados. Inteligência artificial é a capacidade tecnológica de ir além desse automatismo, rejeitando eventualmente os dados disponibilizados, por irrelevantes ou deficientemente selecionados, e procurando autonomamente outros processos de atingir o conhecimento e decidir.
            Atendendo ao que, mais adiante, nos é reportado no texto citado, parece-nos que o erro com efeito discriminatório nas decisões do sistema de inteligência artificial é referido para justificar que se ponha em causa a protecção de dados pessoais.
            De facto, lê-se mais adiante que o académico Paulo Novais, ouvido também pelo jornal Público, terá afirmado: «Durante muito tempo, a Europa esteve focada em arranjar formas de proteger os dados pessoais, e isso levou a que a Europa se atrasasse um pouco. Vemos os dados pessoais como um direito nosso», acrescentando que «nos EUA, os dados são um bem transaccionável e na China há pouca regulação…».
            Diz-nos depois a autora do texto que, para este académico, «o novo Regulamento Geral para a Protecção de Dados (RGPD) tem potencial para permitir à União Europeia reconquistar terreno».
            São grandes as probabilidades, para não falar em certezas, de as novas tecnologias virem, cada vez mais, a pôr em causa a privacidade dos seres humanos - o que lhes limitará as possibilidades de afirmarem a sua personalidade e facilitará o condicionamento da sua liberdade.
            É a todos os títulos inadmissível uma tal devassa.
            Pelo contrário, tudo devemos fazer para impedir a facilitação do acesso aos dados pessoais.
                                                                                                                                            

12. A certeza do desemprego em crescendo

           
            No seu livro Moldando a Quarta Revolução Industrial, Klaus  Schwab postula, a págs. 288:
            «Os indivíduos, tal como as empresas, têm que estar dispostos a familiarizar-se com as novas tecnologias». Mas porquê? – perguntamos nós - , se ao longo do seu livro nos descreve e analisa um alargado número de novas tecnologias a que aponta aspectos negativos, por que é que não devemos separar o trigo do joio, rejeitando as nocivas? Isto é o mesmo que proclamar que no mercado da fruta tanto devemos comprar a boa como a podre, porque também está lá para ser vendida.
            Estamos, bem se vê, perante uma exortação ao consumo que muito convém aos prefaciadores do seu livro, com altos cargos nas empresas tecnológicas.
            Bem longe desta perspectiva tecnologista, estavam os luditas de que fala Arlindo Oliveira. Diz-nos ele que os luditas, “…temiam que as máquinas viessem substituir os seres humanos em muitas tarefas, criando desemprego e miséria”.
            Os luditas, porém, não eram cientistas, eram operários que, perante o aparecimento das primeiras máquinas que tanto faziam aumentar a produtividade, receavam o desemprego, sem conseguirem fazer uma análise profunda da situação. E é um facto que, localizadamente, o desemprego ocorria em muitas situações, em resultado da introdução de maquinaria. Nessa altura, não faltavam novos mercados a explorar, como veio a acontecer, e isso permitiu que as empresas aumentassem a sua dimensão e que outras novas surgissem, assim se criando mais emprego.
            Hoje em dia, porém, são os investigadores tanto da área científica como da economia a concluir generalizadamente que a simultânea entrada na produção e nos mercados de um número substancial de novas tecnologias, irá, aliás, já está a provocar muito desemprego, e nem o próprio Arlindo Oliveira se demarca claramente desta previsão. Refere mesmo, como já dissemos, a queda do número de empregos nos Estados Unidos que já se regista e projecções que apontam para a acentuação desta tendência no futuro.
            O que simultaneamente acontece tanto com Klaus Schwab como com Arlindo Oliveira é que ambos dizem que vai haver desemprego, como ambos propugnam por que se procure acautelar a distribuição justa da riqueza, mas o que também acontece com ambos é que partem do princípio de que quaisquer que sejam as consequências da entrada em cena das tecnologias de que nos falam, o sistema económico não se alterará, continuará a processar-se com o mesmo tipo de relações de trabalho e sociais que hoje existem, com as mesmas forças produtivas, com o mesmo regime de propriedade privada dos meios de produção, com o mesmo sistema de segurança social.
            Klaus Schwab vai mesmo ao ponto de dizer, na pág. 275, que «os governos têm agora a oportunidade e a responsabilidade de proteger e apoiar os cidadãos mais expostos a mudanças no mercado de trabalho impulsionadas pela tecnologia». Mas não nos explica se os governos, a braços com enormes índices de desemprego, têm meios, e quais, para fazer face a esse flagelo.
            Servindo os objectivos do forum económico a que preside, Klaus Schwab escreve mesmo na pág. 270 que «é necessário o alinhamento e a concordância das partes interessadas para fomentar a confiança nas parcerias público-privadas» - o que corresponde a assumir claramente a perenidade do capitalismo no seu estádio agora vigente.
            O que simplesmente defende é que é preciso «…actuar para mudar a forma como o sistema oferece os seus benefícios e a quem». Afirmação esta que se afigura um tiro no próprio pé, porque, dentro do sistema, para operar a mudança de forma honesta, haveria que acabar com as parcerias público-privadas, que favorecem descaradamente os oligarcas com o apoio público aos seus investimentos, não sobrando fundos nas suas arcas para socorrer os trabalhadores, e sobretudo os desempregados.
            No que se refere à questão concreta de defender uma justiça de rendimentos relativamente aos trabalhadores, é sem dúvida sintomático que tanto Arlindo Oliveira como Klaus Schwab não falem uma única vez nos sindicatos, organizações especialmente vocacionadas para a defesa dos direitos do operariado. Ficaremos à espera de que seja o patronato que, com espírito esmoler, vá solidarizar-se com os que não tenham rendimentos para sobreviver? Claro que não podemos esperá-lo; o patronato nunca agirá em desacordo com os seus interesses, seria um comportamento contranatura.
            Veja-se o que se passa actualmente, quando a onda robótica ainda aqui não entrou, é certo, mas mesmo assim a taxa de desemprego é de mais de 6%: o subsídio de desemprego só é concedido por um período muito limitado e é de valor manifestamente reduzido, e mesmo assim, os gritos de alarme sobre a sustentabilidade do regime de segurança social são uma constante.
            Vozes da esquerda sustentaram mesmo a necessidade de financiar o sistema de segurança social com outras receitas do Estado, mas o resultado foi nulo. Não, o patronato não está pelos ajustes. Pelo contrário, reclama do Estado o apoio ao investimento privado, quem sabe?, para comprar robôs e despedir trabalhadores. Sim, este é um dilema do Estado a breve prazo, sempre que as empresas lhe requeiram financiamento ao investimento: os empresários vão aproveitar os financiamentos para investir na robotização? Mas isso cria desemprego! E, subentendendo-se que é dever do Estado combater o desemprego, como deverá o Estado actuar?!!! Financiando, embora de forma indirecta, os despedimentos?!

     13. O rendimento básico incondicional

           
            Já abordámos de passagem esta temática, mas é de muito interesse voltar a ela, porque estamos perante uma iniciativa ardilosa muito capaz de ludibriar e entusiasmar muita gente à primeira vista.
            A ideia propalada por alguns é a de instituir um rendimento mínimo garantido para todos os cidadãos. Assim, vivendo-se já tempos de desemprego e emprego precário, e anunciando-se para um futuro relativamente próximo o início de uma escalada do desemprego, contínua e sem retorno, tudo ficaria resolvido, porque todos receberiam do Estado incondicionalmente o tal rendimento básico que tudo resolveria.
            É uma ideia aliciante.
            Entre os primeiros que pensaram nela contam-se os finlandeses, mas há muito mais gente a defender esta ideia.
            O que se estranha é que a ideia não partiu das forças do trabalho, mas antes do patronato e seus defensores.
            Espantoso, não é? Então os trabalhadores não ganham coisa que se veja e não querem receber do Estado mais um rendimento assegurado?
            Mas o espanto é muito maior em relação aos representantes e defensores do patronato. Então não regateiam até ao cêntimo as actualizações do ordenado mínimo nacional? E agora, mesmo sem que alguém lhes peça, vêm propor um rendimento mínimo garantido para o povo cumulável com os demais proventos dos trabalhadores? Passou a ser justo isso?
            Aplica-se ao caso com todo o acerto o velho aforismo quando a esmola é grande, o pobre desconfia.
            Pensando melhor, não é mesmo nada estranho que o patronato apoie uma proposta destas, porque o que verdadeiramente sustenta é que sejam os Estados a pagar o rendimento básico, e, quando é outrem que desembolsa, não custa mesmo nada ser generoso.
            Já salientámos em momento oportuno que Klaus Schwab, à semelhança de muitos outros entusiastas da aposta nas novas tecnologias, sustenta no seu livro Moldando a Quarta Revolução Industrial que «os governos têm a oportunidade e a responsabilidade de proteger e apoiar os cidadãos mais desprotegidos expostos a mudanças no mercado do trabalho impulsionadas pela tecnologia» (p. 275).
            Para este autor, é claro que este rendimento básico incondicional corresponde inteiramente aos seus anseios. Todavia, para o interpretarmos bem, temos que ter em conta tanto isto que ele diz, como aquilo que ele sabe, não diz, mas devia dizer.
            Vejamos: actualmente, os trabalhadores que ficam desempregados têm apoios que lhes são dados pelos sistemas de segurança social, os quais, embora sendo instituições estaduais, são financiados, no essencial, pelas contribuições dos trabalhadores que lhes são descontadas nos salários, e pelas contribuições das entidades patronais.
            Dir-se-ia, por isso, que, se a perspectiva futura fosse de um desemprego com taxas semelhantes às actuais, não precisaria Klaus Schwab de exortar “os governos”, como ele diz, a proteger os desempregados; a segurança social encarregar-se-ia disso.
            O mal está em que, quando fala do desemprego, omite uma consequência dele que é a falência virtual dos sistemas de segurança social.
            Repare-se que, ainda na recente crise económica mundial, quando o desemprego se acentuou, mesmo em Portugal se abordou já a hipótese de o Estado vir a proporcionar uma parte do financiamento da segurança social. Mas Klaus Schwab sabe que as taxas de desemprego potenciadas pela aplicação prática das novas tecnologias podem ser muito mais acentuadas, e, a prazo, não haverá sistemas de segurança social financiados por patrões e trabalhadores nos moldes tradicionais que se aguentem e tenham capacidade de subsidiar desempregados.
            O que Klaus Schwab omite também é que provavelmente os Estados não terão capacidade para o fazer. Mas deixemos para mais tarde este aspecto do problema.
            Com propósito meramente especulativo, imaginemos que os Estados terão capacidade para proporcionar um rendimento fixo incondicional a todos. Isso iria, antes de mais nada, favorecer o patronato, porque, a qualquer trabalhador que procurasse emprego, seria fatal que o empregador lhe propusesse salário mais miserável, porque o trabalhador já tinha um rendimento de origem estadual, e, em situação de desemprego grave, isso constituiria certamente motivo para aceitação do salário proposto.
            Concluindo, o rendimento mínimo seria mais uma forma de redistribuição de rendimento, mas em favor dos donos dos meios de produção, e não dos trabalhadores, a somar às diversas que já tivemos oportunidade de enumerar nesta análise, e que, no seu conjunto, nos levam a extremos de exploração do trabalho assalariado. E que são a demonstração prática de que o sistema de produção chegou também a extremos de diminuição da taxa média de lucro. Só se aguenta à custa de salários de miséria que não pagam sequer o valor da força de trabalho, e, portanto, à custa da hiperexploração do trabalho; hiperexploração que tem naturais limites.

     14. Desigualdades no plano nacional e internacional

           
            Numa perspectiva humanista, deveria haver o empenho de todos na luta contra as desigualdades sociais, quer no plano interno de cada Estado quer no plano internacional.
            Começando pelo plano interno, no seu livro que temos vindo a citar, Klaus Schwab ostenta preocupação com o previsível aumento do fosso entre ricos e pobres, em resultado da introdução no processo produtivo de um crescente número de robôs, inteligência artificial, impressão a três dimensões, internet das coisas, etc, etc.
            Este autor fala de desigualdade de rendimentos entre ricos e pobres, mas, em boa verdade, da forma como as coisas podem desde já antever-se, em grande parte o confronto não será propriamente entre gente com mais e gente com menos rendimento, mas entre quem tem um enorme rendimento e quem não tem rendimento nenhum.
            Como já antes dissemos, nem há garantias de que um sistema de segurança social, tal como o conhecemos, se aguente, nem de que os Estados tenham recursos suficientes para assumirem com outros fundos a sua sustentação financeira.
            Se, como um estudo recentemente publicado na generalidade dos órgãos de comunicação social previu, relativamente a Portugal, em 2030 houver mais 1.200.000 desempregados, o resultado será, ou seria, catastrófico.
            Mas, se, no interior dos países mais desenvolvidos poderá ser esta a consequência da introdução de novas tecnologias, adivinham-se igualmente graves implicações nos países subdesenvolvidos, os chamados “ países de mão-de-obra barata”.
            Como sabemos, desde há largos anos, as grandes empresas dos países desenvolvidos, com vista a baixarem os custos da produção, começaram a deslocalizar-se e instalar-se nos países economicamente mais atrasados. Procuravam mão-de-obra mais barata. Isso foi de algum proveito para os países menos desenvolvidos, que, assim, iniciaram um processo de industrialização que lhes permitiu criar mão-de-obra e rendimentos industriais que proporcionaram, e seria bom que continuassem a proporcionar, uma acumulação de capital incipiente.
            O resultado destas deslocalizações foi o agravamento do desemprego nos países desenvolvidos, e, deste modo, a criação de um excesso de mão-de-obra que teve como consequência a tendência para a redução dos salários e a precariedade das relações laborais.
            As deslocalizações foram, para os donos dos meios de produção, o primeiro ensaio para se libertarem de mão-de-obra paga a preço, se não justo, pelo menos, minimamente digno.
            E, se não hesitaram em desprezar os trabalhadores dos seus países ao deslocalizar, ninguém duvidará de que os desprezarão novamente logo que os possam substituir nas empresas ainda existentes nos países mais desenvolvidos, com a ajuda dos robôs, da inteligência artificial, da impressão a três dimensões, etc.
            Só que desta vez, a sua cupidez vibra eufórica, porque o seu desprezo pode estender-se também aos trabalhadores das suas fábricas nos países subdesenvolvidos. Pelo menos, até certo ponto, porque as novas tecnologias apresentam-se-lhes com a potencialidade de poderem dispensar, não só os trabalhadores do país da sede das suas empresas, como os dos países subdesenvolvidos em que se abasteciam de mão-de-obra barata. Estes países poderão assim ver frustrados os seus processos de desenvolvimento. E, se assim acontecer, a desigualdade entre as nações agravar-se-á. Muitos milhões de seres humanos mergulharão ainda mais na miséria.
            A perspectiva de que isso aconteça mesmo alicerça-se em grande parte nas potencialidades da impressão a três dimensões, cada vez mais precisa e aplicável de forma multímoda, e que possibilitaria a produção de bens com escasso recurso a mão-de-obra.
            As indústrias de produção deste utensílio não podem deixar de se agarrar a este filão.
            No ano de 2020, prevê-se que a produção de impressoras a três dimensões ascenda a 6,7 milhões de unidades!
            De nada adiantam as piedosas manifestações da necessidade de acautelar as consequências da introdução desta tecnologia expressas por Klaus Schwab, que coabitam com a sua exultante proclamação de que temos que aceitar as novas tecnologias.
            A mitificação das potencialidades das tecnologias, leva-o ao ponto de escrever que a tecnologia realidade virtual “…é a materialização de um sonho que os artistas tiveram desde os primórdios da história: fazer de Deus – criar mundos inteiros …”
            Entretanto, são muito sombrios os prognósticos sobre as consequências das tecnologias que vão surgindo, pelas mãos das megaempresas que as produzem com pouco ou nenhum controlo dos governos.


15. Estaremos à beira da catástrofe?


            Os problemas que as novas tecnologias arrastam consigo são sem dúvida muito sérios, a própria existência da humanidade e a nossa autonomia enquanto seres com personalidade própria dependem da forma como se desenvolverem e se forem inserindo e interagindo com a sociedade. Por isso, não faltam os que acorrem sobressaltados a intervir neste debate. Não falta quem se interrogue se não iremos um dia acabar subjugados por ditaduras digitais, como acontece com Hariri, citado por Viriato Soromenho Marques num artigo publicado no Jornal de Letras, meses atrás, que intitulou “ O TGV da Inteligência Artificial, Sem Travão Nem Destino”.
            Nesse artigo, questiona o autor, a certo passo: “ Será possível controlar hoje a IA (inteligência artificial)?», e prossegue, mais adiante: «Controlar a IA significa que a desenvolveríamos apenas no quadro dos seus “ impactos benéficos “…, e, um pouco adiante: «Repare-se que, mesmo os “ impactos benéficos, “ implicam um problema para o qual não existe nenhuma solução política hoje. Por exemplo: como absorver as dezenas de milhões de desempregados que vão ser gerados pela substituição de pessoas por algoritmos e robôs inteligentes?»
            Ainda no mesmo texto, opina Viriato Soromenho Marques que somos forçados a reconhecer «…humildemente que não temos qualquer meio disponível, neste momento, para travar ou modelar a marcha da IA (inteligência artificial) rumo à realização de todos os seus possíveis objectivos tecnológicos, incluindo aqueles que se nos poderão revelar como funestos e existencialmente ameaçadores».
            De algum modo, buscando as origens e as causas da promoção contínua das novas tecnologias, o autor do artigo a que vimos aludindo avança um pouco na metodologia que nos parece mais adequada para encontrar respostas para as questões candentes que se nos apresentam. Fala-nos, a tal propósito, da pesquisa para o aperfeiçoamento da IA (inteligência artificial) por parte do Departamento da Defesa dos E U A  e instituições análogas de outros países, e acrescenta que a competição entre os Estados é acompanhada pela competição entre as multinacionais das tecnologias.
            Tudo isso é certo. Porém, afigura-se-nos que fica ainda muito aquém do que deve ser tido em consideração.
            Tal como klaus Schwab, Arlindo Oliveira e muitos outros, Viriato S. Marques não avança na análise do contexto económico em que a corrida às tecnologias se processa. Neste aspecto, Klaus Schwab, embora de forma incipiente, admitiu contudo o que já defendemos num texto publicado na imprensa local *, ou seja, que a tecnologia e os seus feitos irão interferir na economia, tal como a economia neles interfere.
            Vejamos: Diz-nos Viriato Soromenho Marques que vai haver milhões de desempregados, mas quem os vai despedir vão ser as empresas que os substituírem por robôs; e, para isso, as empresas em geral têm que adquirir os robôs às multinacionais do ramo, e estas vendê-las-ão com muito gosto e proveito, e, com esse fim, farão publicidade adequada. Isto é assim, porque vivemos num mundo em que o sistema dominante é o capitalista, e o capitalismo tem as suas lógicas e molas reais de funcionamento.
            O capitalista recorre ao trabalho assalariado para garantir os seus lucros, e, seduzido pelos robôs, acalenta a esperança de aumentar a produtividade e obter lucros mesmo sem trabalhadores, que implicam salários, contribuições para a segurança social, prémios de seguros de acidentes de trabalho, etc.
            Enquanto os empresários se deixarem seduzir por esta ilusão, que sentem como uma libertação não só de custos de produção como da tensão classista resultante da contradição de interesses que os opõem aos trabalhadores, sem dúvida que as megaempresas de fabrico de novas tecnologias vão prosperar.
            Mas essa prosperidade depende da procura dos bens que as megaempresas tecnológicas produzem, tanto de consumo como de produção; e o desemprego determinará a queda da procura de bens de consumo (telemóveis, tablets e o mais que por aí virá), mas também de bens de capital, como os robôs, porque o desemprego determina também a redução do consumo da generalidade dos bens produzidos pela generalidade das empresas – o que fará com que estas precisem de menos robôs  e a procura de robôs diminua também.
            O trabalho humano não é, por isso, facilmente descartável. Os despedimentos têm um efeito de boomerang que vai atingir precisamente os dispensadores da mão-de-obra.
            Mas o efeito dos despedimentos não tem só estas consequências, que já são muito graves; tem muitas outras de igual e maior gravidade, como veremos a seu tempo.
            Por agora, fiquemos com a ideia seguinte:
            Ao longo da história, as sociedades humanas viveram sob sistemas de produção diversos. Os mais recentes foram o esclavagista e o feudal, aos quais sucedeu o capitalismo.
            As relações de produção que caracterizam e definem o capitalismo são as do trabalho assalariado, em que o capitalista paga ao trabalhador a sua força de trabalho através de um salário, e o trabalhador lhe entrega em troca um valor maior, que é o daquilo que produz. Daí resultando uma mais-valia.
            Facilmente se conclui a partir daqui que a robotização, levada até às últimas consequências, ao eliminar a intervenção de trabalhadores na produção, eliminaria o próprio capitalismo, tal como sempre foi concebido.
            Como bem se vê, as conjecturas sobre as novas tecnologias e as suas sequelas, não podem deixar de fora as consequências económicas, inclusive sistémicas, e tudo o que com elas se relaciona.
                                                                                         

16. Finalmente, alguém que pensa no impacto no sistema económico


            A tendência maioritária de quem escreve sobre a previsível revolução tecnológica é a de omitir na análise o seu virtual impacto na economia e as suas consequências no próprio sistema económico.
            Como em tudo, há honrosas excepções, e entre elas emerge Michael Roberts, autor de um conjunto de três artigos publicados em 2015 no seu blog, em que a abordagem económica está bem presente.
            Diz-nos este autor, no primeiro dos seus artigos, que começou a prestar atenção à questão das consequências da interferência das novas tecnologias na economia motivado por um livro de Paul Mason com o título Postcapitalism, que o determinou a elaborar um comentário sobre ele. No livro referido, Mason sustenta que novas forças estão a trabalhar para substituir a luta de classes entre o capital e o proletariado como Marx a via, por uma rede de comunidades; e prossegue afirmando que a tecnologia e a rede conduziriam a um mundo post-capitalista (eventualmente socialista) num movimento que não poderia ser sustido.
            Michael Roberts demarca-se desta interpretação das coisas e propõe-se, por isso, analisar em detalhe «quais são as implicações destas novas tecnologias para o capitalismo»; particularmente, interroga-se sobre se «os robôs e a inteligência artificial vão ultrapassar o mundo do trabalho, e bem assim a economia na próxima geração, e o que é que isto significa para os empregos e padrões de vida para o povo».
            Questiona, nomeadamente:
            «Isto significará a utopia socialista no nosso tempo (o fim do trabalho humano e uma sociedade humana superabundante e harmoniosa) ou uma distopia capitalista (mais crises intensas e conflito de classes)?»
            Mais adiante, interroga-se ainda:
            «Qual destas tecnologias emergentes tem o grande potencial de proporcionar melhorias na produtividade?»
            Cita, a propósito, o Mckiney Global Institut que reconhece que tecnologias que importam «…são aquelas que têm o potencial de proporcionar substancial impacto económico e fractura na próxima década.» E entre elas inclui os robôs.
            Refere também Brynjolfsson e McAfee que afirmam que «estamos no limiar de uma nova revolução industrial, uma que terá tanto impacto como a primeira».
            Posto isto, sustenta Michael Roberts: «se os robôs e a IA (inteligência artificial) forem rápidos, isto significará enorme perda de empregos ou, em alternativa, novos sectores de emprego e a necessidade de trabalhar menos horas?»
            Alude depois a um trabalho de pesquisa de Graetz e Michaels no qual se conclui que, «no essencial, os robôs não reduzem o horário de trabalho, para aqueles que tinham trabalho; pelo contrário. Mas eles conduziram a uma perda de empregos para os menos habilitados, e mesmo para aqueles com algumas habilitações.»
            Dá conta também de um estudo de Carl Benedikt e Michael Osborne, economistas de Oxford, com a pesquisa a incidir sobre 702 ocupações de variada natureza, no qual estes concluíram que cerca de 47% do total dos empregos nos EUA estão em risco, e também que os empregos mais substituídos por novas tecnologias serão os dos menos habilitados e com baixos salários no futuro próximo.
            Invoca depois um ensaio de Lanchester em que este alvitra que a robótica poderia levar, não a uma utopia post-capitalista, mas, em vez disso, a um mundo no qual o capital é progressivamente triunfante sobre o trabalho.
            Mais adiante, Michael Roberts interroga-se, a este propósito:
            «O capitalismo está a ter um novo fôlego em resultado disso? Além do mais, o crescimento do investimento global é muito baixo na longa depressão que ocorre e o crescimento da produtividade também, em resultado disso».
            E acrescenta:
            «A essência da acumulação capitalista é a de aumentar os lucros e acumular mais capital, os capitalistas querem introduzir máquinas que podem acelerar a produtividade de cada trabalhador e reduzir os custos comparados com os da concorrência».
            Adversamente, afirma então em seguida:
            «Mas aí existe uma contradição. Ao tentar subir a produtividade do trabalho com a introdução de tecnologia, isso implica um processo de perda do trabalho. A nova tecnologia substitui o trabalho… …a perda de trabalho significa que menos valor novo é criado». Esta afirmação de Michael Roberts apoia-se na análise marxista que postula que o trabalho é a única forma de valor; e o mesmo acontece com a que se lhe segue: «há uma tendência para a rendabilidade cair à medida que a produtividade sobe».
            Encerrando o seu primeiro artigo, conclui assim este autor: «uma economia progressivamente dominada pela internet das coisas e os robôs no domínio do capitalismo significará crises mais intensas e maiores desigualdades, em vez de superabundância e prosperidade».
            Concordamos que assim seja, por estas, mas também por outras razões que expenderemos mais adiante.

17. O apoio de Michael Roberts no marxismo


            No segundo dos seus artigos, diz este autor expressamente, ao introduzi-lo:
            «Neste segundo texto, quero focar-me no impacto dos robôs e IA visto através da perspectiva da lei do valor de Marx, no domínio do capitalismo». E começa por invocar as «duas proposições chave que Marx sustenta com vista a explicar as leis do movimento sob o capitalismo: 1) que só o trabalho humano cria valor, e 2) que, a longo prazo, o investimento do capitalista em tecnologia e meios de produção retirará investimento em força de trabalho humano»; isto, porque ocorrerá «uma subida na composição orgânica do capital com o decorrer do tempo».
            Acrescenta, mais adiante, que, na opinião de Marx, «a composição orgânica do capital (a quantidade de maquinaria e capital fixo em relação ao número de trabalhadores) crescerá permanentemente», tendo como objectivo uma maior produtividade.
            «Isto – prossegue Michael Roberts – coloca a chave da contradição da produção capitalista: a subida da produtividade leva à queda dos lucros». Posto o que conclui:
            «…No nosso hipotético mundo fechado robô/IA, a produtividade (de valores de uso) tenderá para infinito, enquanto a rendabilidade (a mais-valia em função do valor de capital) tenderá para zero», rematando:
            «Isto já não é capitalismo».
            Ficcionando a existência de uma sociedade já não capitalista, onde o trabalho humano já não interviria na produção, mas apenas os robôs e outras tecnologias, conclui que já não haveria em tal hipótese um mercado de bens, os humanos não teriam meios para comprar o que quer que fosse. E cita Jeffrey Sachs: «Onde eu vejo o problema num nível generalizado para a sociedade como um todo é se os humanos se tornarem supérfluos numa escala industrial (47% calculados nos EUA). Então onde está o mercado para os bens?», e também Martin Ford, que sustenta a tal respeito: «Não há maneira de prever como é que o sector privado possa resolver este problema».
            Michael Roberts transcreve-nos também a opinião de John Lanchester, que nos diz que «é também importante anotar o que vai sendo dito acerca deste futuro robotizado. O cenário que nos dão – para que se sinta como inevitável – é o de uma distopia capitalista. Aí está o capital fazendo melhor que nunca; os robôs fazendo todo o trabalho; e a grande massa da humanidade não fazendo grande coisa; mas divertindo-se com os novos utensílios tecnológicos…Há, contudo, uma alternativa possível na qual a propriedade e o controlo dos robôs libertam muita da humanidade do trabalho e toda a gente beneficia dos proventos… …Parece-me que o único caminho que o mundo deveria trabalhar é com formas alternativas de propriedade…».
            Michael Roberts acolhe ainda neste artigo uma conclusão de Martin Ford: «quanto mais as máquinas começam a trabalhar elas mesmas, o valor que o conjunto do trabalho acrescenta começa a declinar», posto o que conclui o autor do artigo que, «portanto, a acumulação sob o capitalismo cessaria muito antes que os robôs dominassem completamente, porque a produtividade desapareceria sob o peso do enviesamento do capital».
            De acordo com Marx, Michael Roberts assevera que estaria em acção «a tendência para a diminuição da taxa média de lucro», resultante do aumento da composição orgânica do capital.
            Concluindo este segundo artigo, afirma o autor:
            «Nós nunca chegaremos a uma sociedade robótica».
            No terceiro e último artigo de Michael Roberts em análise, este começa por reafirmar que nunca chegaremos a uma sociedade robótica sem trabalho humano, e apela, entretanto, para um estudo de William Nordhaus, do Departamento de Economia da Universidade de Yale, no qual este, projectando tendências da última década ou mais, sustenta que o surgimento de uma sociedade completamente robotizada levará talvez um século - o que é contraditório!
            Michael Roberts afirma que, não obstante o optimismo dos defensores da IA e dos robôs, isso não vai acontecer tão cedo, porque há sectores em que a intervenção humana é preferível; porque o investimento dos Estados Unidos vai antes para os drones.
            Conclui ainda que um mundo robô está ainda longe, porque a tecnologia IA não é dirigida pelo capital para as áreas mais produtivas, mas para as mais lucrativas ( o que não é a mesma coisa); e que uma sociedade superabundante, em que o horário de trabalho seja reduzido ao mínimo e a pobreza seja eliminada não acontecerá, a menos que a propriedade dos meios de produção mude do controlo privado (a oligarquia capitalista) para propriedade em comum (socialismo democrático).
            Estes artigos de Michael Roberts contribuem substancialmente para o aprofundamento da nossa análise do fenómeno tecnológico. Todavia, parece-nos que é possível ir um pouco mais longe – o que tentaremos fazer de seguida.

18. O que acontecerá ao Estado? - I


            Ao longo deste estudo, julgamos que fomos cada vez mais demonstrando que qualquer vaticínio sobre a evolução das sociedades provocada pelas novas tecnologias que não tenha em conta a natureza do sistema económico e a compreensão da sua lógica interna só por mero acaso poderá levar-nos a previsões plausíveis. Os artigos da autoria de Michael Roberts a que aludimos contribuem muito para essa demonstração.
            Contudo, embora tendo avançado de modo significativo no esclarecimento das questões que se nos levantam, deixam-nos algumas ainda incompletamente resolvidas. Questões estas que é de grande utilidade prática aprofundar.
            Repare-se, por exemplo, no que nos diz John Lanchester, citado por Michael Roberts, quando afirma que o mundo deveria trabalhar com formas alternativas de propriedade dos meios de produção.
            Estamos de acordo, mas, embora poucos, existem no mundo países com sistema de produção socialista, em que a propriedade dos meios de produção é comum, e não privada.
            Nesses, é perfeitamente possível instituir uma economia robótica, com horários de trabalho bem reduzidos e sem despedimentos. A utopia socialista poderia deixar de o ser, e tornar-se um exemplo para o mundo, catalisador de lutas sociais progressistas nos demais países. Mas esta realidade não foi abordada.
            Por outro lado, repare-se que Michael Roberts acaba por concluir, apoiado em Nordhaus, que será da ordem de um século o tempo que decorrerá até que o crescimento das variáveis alcance o nível de uma sociedade absolutamente robótica, sem intervenção de trabalho humano; mas, simultaneamente, garante (e nesta parte concordamos com ele) que as sociedades nunca chegarão a esse ponto num sistema capitalista, porque, neste sistema económico, à medida que se investe no aumento da produtividade com maquinaria, robôs, etc. e o trabalho humano é reduzido, decaindo a taxa média de lucro, chega-se a um ponto de ruptura.
            Mas, sendo assim, temos que concluir, em primeiro lugar, que a previsão de Nordhaus para daqui a cem anos de chegarmos a uma sociedade totalmente robotizada é absolutamente errada, e não teve em conta as mais decisivas das variáveis; e, em segundo lugar, que, sendo muito mais importante para o mundo saber quando se atingirá o ponto de ruptura na produção capitalista, e questionando-se mesmo se a ruptura financeira na superestrutura estadual do sistema não poderá antecipar-se em relação ao ponto de ruptura da produção, impõe-se afinar os mecanismos de quantificação que nos possam localizar no tempo, ou, pelo menos, na trajectória de evolução do sistema económico, o colapso esperado.
            Para este efeito, impõem-se estudos quantificativos do ritmo de progressão dos despedimentos; do sistema fiscal e da repercussão nas suas receitas; do evoluir do número de insolvências; do sistema de segurança social e da sua sustentação financeira; bem como da análise da forma como reagiram às crises sistémicas passadas os diversos sistemas de segurança social nacionais e das fragilidades que revelaram, dos encargos do Estado com parcerias público-privadas, com a formação profissional e os seus demais serviços, e, claro, com o conjunto das forças de segurança.
            Expliquemo-nos melhor: o estudo de Michael Roberts incidiu de forma circunscrita, sobre o declínio da taxa média de lucro, não conexa com uma situação de desemprego acentuado e crescente, que é a situação que, como hipótese, temos sob análise.
            O declínio da taxa média de lucro, não contextualizado no quadro de um fenómeno de desemprego avassalador, tem consequências na avaliação do ritmo a que esse declínio se processa; um panorama de desemprego progressivo e tendencialmente ilimitado bole muito contundentemente com toda a sociedade e, antes do mais, com o Estado, de forma a pô-lo em causa financeiramente.
            Uma sociedade com um sistema de produção capitalista tem como natural superestrutura um aparelho de estado, que, como primacial função, tem a de garantir a supremacia da classe economicamente dominante sobre a classe trabalhadora.
            Os clássicos do marxismo classificam mesmo o Estado como um poder especial de repressão de uma classe sobre outra, no que foram antecedidos por Aristóteles, Platão e muitos outros.
            Mas, a esse poder repressivo, o Estado moderno, em resultado das lutas populares, foi adicionando outras funções que visam garantir direitos sociais mínimos aos mais desfavorecidos, entre os desempregados, os reformados, os diminuídos físicos; como também, e em maior medida, em resultado do seu conluio sistémico com a classe que defende, a vai beneficiando redistribuindo-lhe rendimentos muito variados que já neste estudo referimos, e celebrando parcerias público-privadas, apoiando o investimento, etc, etc, etc.
            Tudo isto tem que ser financiado, é preciso dispor de recursos.
            Uma situação de desemprego a crescer consistente e continuamente, vai  interferir com tudo isso. Em primeiro lugar, vai pôr em causa a sustentabilidade financeira da segurança social, por duas vias: a primeira é a da redução das suas receitas de contribuições; e a segunda é a do aumento das despesas a subsidiar um maior número de beneficiários.
            Não esqueçamos que, mesmo na mais recente crise cíclica do capitalismo, em que o desemprego em Portugal ascendeu a cerca de 16%, tal foi suficiente para que se questionasse a sustentabilidade da segurança social. E, para a conseguir, reduziu-se o prazo da concessão do subsídio de desemprego.
            Uma crise cíclica é, por natureza, temporária, seguindo-se-lhe no ciclo um período de crescimento e reabsorção da mão-de-obra pela produção.
            No caso dos despedimentos por motivos tecnológicos reportados à robotização crescente, que não se devem, portanto, a meras razões cíclicas, os despedimentos não podem ser concebidos como temporários, o índice do desemprego é virtualmente crescente e sem retorno, e subsídios temporários por um ano, ou pouco mais, acarretam infindáveis restos de vida em plena miséria, e sem que ocorram contribuições para a segurança social.

19.   O que acontecerá ao Estado? – II


            Concretizando as perdas de receitas e o aumento de despesas do Estado, começámos por referir a diminuição das contribuições para a segurança social e o aumento do número de subsídios de desemprego a pagar resultantes da perda de postos de trabalho por motivos tecnológicos, mas é evidente que o desemprego também vai gerar-se em simultâneo por motivo do acréscimo das insolvências.
            Como nos diz, e bem, Michael Roberts, o investimento do capitalista em novas tecnologias tem em vista aumentar a produtividade para sobreviver entre a concorrência, mas nesta refrega concorrencial há muitos que perecem.
            E, neste caso, a concorrência é feroz, porque vai ocorrer num contexto de subconsumo, motivado pelo desemprego acentuado e inerente falta de poder de compra. Ou seja, estaremos numa situação de procura reduzida face à oferta, em que só os empresários mais ágeis e empreendedores lograrão sobreviver.
            Se, nos ciclos de prosperidade/depressão característicos do capitalismo ao longo de muito tempo, o desemprego da fase de depressão era reabsorvido na fase de prosperidade, a situação com que agora nos defrontamos trazida pela revolução tecnológica é a de um desemprego que não recua na sua progressão. Do que resulta que o subconsumo se acentuará em função dele, e que as insolvências daí derivadas crescerão com ele. E como a fuga à insolvência, nesta era tecnológica, tenderá a ser o recurso a tecnologias mais avançadas, que geram mais desemprego e maior redução da procura…
            Prossigamos então com a questão da sustentação do Estado.
            O desemprego e a falta de meios de subsistência não afectam só o financiamento da segurança social. Cada cidadão nessas circunstâncias não tem rendimento que lhe permita pagar impostos. Não paga impostos sobre o rendimento, mas, porque não consome, ou consome pouco, também não paga, ou paga menos, IVA, tal como dificilmente pagará impostos sobre veículos e sobre os combustíveis.
            Mas, não são só os desempregados a fazer diminuir as receitas fiscais, porque todos nós aprendemos com a última crise cíclica que um grande número de desempregados faz com que o valor dos salários diminua, por excesso de mão-de-obra, e os contratos se tornem precários, por igual motivo. E isto tem como resultado que os impostos e as contribuições para a segurança social pagos pelos trabalhadores empregados diminuam de valor.
            E o mesmo acontece com os impostos sobre o rendimento, o IVA, as contribuições para a segurança social, os impostos sobre os combustíveis das próprias empresas, com menores receitas, em função da diminuição da procura dos seus produtos.
            Isto repercutir-se-á mesmo nas empresas gigantes de produção de tecnologia, quer pela redução da procura dos seus produtos de utilização pessoal pela generalidade dos cidadãos, quer dos produtos que constituam bens de produção, a começar pelos próprios robôs.
            …E também estas megaempresas reduzirão os seus impostos.
            Entretanto, diga-se de passagem, nem tudo é negativo para o patronato, porque em contexto de desemprego estrutural acentuado, gerador de uma enorme oferta de mão-de-obra, tem condições para esmagar ao máximo o preço de mercado da força de trabalho, o que lhe permite, nalguma medida, reduzir as perdas de mais-valias, mas sem motivos para festejar o que quer que seja.
            As perdas de receitas por parte do Estado no domínio fiscal serão de uma tal grandeza que lhe limitarão em grande medida a acção e arriscarão a sua insolvência.
            No plano da acção, dada a sua natureza classista, seguramente procurará assegurar as funções inerentes a essa natureza, mas, mesmo que concentre os recursos financeiros na salvaguarda das forças militares e de segurança, na manutenção de uma comunicação social consonante com a ideologia dominante e no financiamento da própria organização estatal e seu funcionamento, pouco lhe sobrará para o apoio da iniciativa privada, sendo que o apoio à modernização tecnológica das empresas conduzirá a mais desemprego.
            Nessa fase dos acontecimentos, já uma larga porção da população estaria desempregada e sem rendimentos. Dizemos estaria, porque, antes disso, sérias mudanças terão que ser introduzidas na natureza do Estado, no modo de produção e no tipo de relações de produção.
            Já não vivemos (nós e os países desenvolvidos) em economias de subsistência, de produção para consumo próprio. Num mundo maioritariamente urbano, é já inconcebível a existência e a conservação de um sistema de produção que não consiga integrar toda a sua população, garantindo rendimentos a todos que lhes assegurem a satisfação de todas as necessidades. Não é crível que mesmo a população activa possa viver sem serviços de saúde e que as empresas modernas possam desenvolver as suas actividades sem profissionais devidamente formados ao longo de um ensino consistente e que lhes proporcione uma sólida aprendizagem geral.

20.   O que acontecerá ao Estado? – III


            O que mais surpreende é que na era dos robôs e outros sistemas inteligentes não se descubra um que, fornecidas as variáveis necessárias, nos responda à questão de saber quando é que o sistema económico e a sua superestrutura estatal entrarão em colapso, por se terem avolumado e tornado insanáveis as contradições e disfuncionalizações de que padece. Porque, ao que parece, há previsões dadas como certas em relação a alguns dos dados de que necessitamos.
            Então não há previsões de que nos EUA haverá 47% da actual população activa que será excluída da produção? E, ainda com mais precisão, não há uma previsão para Portugal que sustenta que em 2030 (daqui por apenas 11 anos) haverá mais 1.200.000 desempregados? Não será possível aos especialistas em econometria, com a ajuda dos meios disponíveis referentes à sustentação financeira da segurança social, aos constrangimentos manifestados quando da última crise cíclica do capitalismo, às limitações das receitas fiscais resultantes da diminuição do consumo conexa com o aumento do desemprego, etc, fazerem uma previsão razoável sobre o momento em que ocorrerá a ruptura, em que se operará a transição de estado, se nos é permitido recorrer a uma noção da física; o momento, em suma, em que o sistema económico, nele incluída a sua superestrutura estadual, claudicarão, forçando a adopção de novas relações de produção?
            Ninguém inventa um robô dotado de inteligência para isso?! Teremos que fazer as contas à mão?!
            É verdade que, como já vimos, parece que há inteligências artificiais inteligentes e inteligências artificiais estúpidas, conforme o gosto de quem as fabrica. Tal como foi preciso muito tempo para que se passasse do homo sapiens para o homo sapiens sapiens para que se adquirissem as aptidões intelectuais dos homens de hoje, porventura também teremos que esperar até que a inteligência artificial inteligente dê lugar a inteligência artificial inteligente inteligente para que o nosso problema de previsão da ruptura do sistema seja resolvido? Porque está visto que há pouco quem se disponha, lá pelos meandros das megaprodutoras de tecnologias, a programar uma inteligência própria para o efeito, porque seria coisa que não lhes daria jeito nenhum, sobretudo porque lhes faria desmentir o mito que alimentam de que tudo o que é tecnologia é bom e para aceitar sem olhar para trás.
            Ainda que não tenham sido divulgados estudos sobre as consequências do desemprego resultantes do recurso aos robôs na produção em Portugal, não é difícil arriscar que isso nos levará ao caos social, porque, sendo actualmente a população activa do país de cerca de 5.200.000 trabalhadores, e tendo em conta que o número de desempregados é de cerca de 365.000, (e estamos em valores mínimos), então, em 2030, os desempregados serão 1.565.00, o que corresponderá a 30 % dessa população.
            A confirmar-se isto, a segurança social não vai aguentar, nem o Estado conseguirá supri-la com os montantes necessários, sob pena de arriscar também a insolvência. Já pela mente dos governantes deverá ter passado a consciência das consequências que isto irá ter. Ou não? Por que esperam para fazerem os cálculos adequados, pelo menos para aquilatar se é rigorosa ou não a previsão do desemprego para 2030?
            Repare-se que o número de perdas de empregos previsto é de tal modo catastrófico, que os problemas podem mesmo atingir apreciável volume e deploráveis consequências muito antes de chegarmos a 2030. A meio do caminho, tendo em conta os 365.000 desempregados já existentes neste momento, poderemos estar com cerca de um milhão de desempregados – o que corresponderá a 18,5% % da população activa e ultrapassará em cerca de 110.000 os que havia no pico da última crise (855.200).
            Observa-se, aliás, que o sistema de segurança social português se vê já hoje confrontado com outros factores de insustentabilidade, com destaque para a redução da população activa e o aumento do número de idosos pensionistas.
            Com base sobretudo nestes dois factores, no estudo agora publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o título Sustentabilidade do Sistema de Pensões Português, de que é coordenador Amílcar Moreira, prevê-se que a segurança social passe a ter défices crónicos a partir de 2027, daqui a escassos oito anos.
            Se somarmos aos factores referidos o desemprego anunciado gerado pela robótica, a inteligência artificial, a impressão a três dimensões e demais novas tecnologias, facilmente poderemos imaginar quanto isso pode abalar o sistema financeiro.
            A propósito, recorda-se que a colagem das grandes empresas ao Estado, nomeadamente em parcerias público-privadas e no apoio aos bancos privados falidos, que é típica desta fase adiantada do capitalismo, como já Marx previu que viria a acontecer, tenderá a acentuar-se, à medida que nos formos aproximando do ponto de ruptura do sistema, sugando-o de recursos e beneficiando de isenções fiscais e outras, depauperando-o também por essa forma, e incapacitando-o, assim, de suprir os défices da segurança social.
            Para quem analise este problema de um ponto de vista idealista, parece fácil a resposta ao problema: o Estado deveria assumir o controlo da entrada dos robôs na produção, se não mesmo arrogar-se a produção exclusiva dos robôs e demais tecnologias fracturantes.
            A planificação apresenta-se aqui como uma medida mais que aconselhável, mas falar em planificação em tempos de leviana e desbragada euforia neoliberal será provavelmente tido como má criação pior que cuspir na sopa. Por isso, arriscámo-nos a continuar esta alegre corrida para o abismo, com a bonomia dos puros e a espessa obtusidade dos tansos.
            E, perante isto, resta-nos esperar pelas trapalhonas e desesperadas medidas e intervenções de conjuntura quando deflagrarem as previsíveis rupturas no tecido económico-social e na superestrutura estadual.
            Será que a União Europeia nos irá ajudar numa tal circunstância? Claro que não. Quando a procura interna de bens começar a baixar, seria bom aumentar as exportações. Mas a União Monetária não nos permite fomentá-las desvalorizando a moeda – como faríamos, se tivéssemos moeda própria.
            Permitir-nos-á proibir ou taxar acentuadamente a importação de robôs ou outras tecnologias afins? Claro que não, o comércio é livre. De modo que, dando vivas ao euro, iremos alegre e livremente para o Inferno.

21.   Que hão-de fazer os trabalhadores?


            De tudo o que fomos escrevendo neste trabalho, resulta claro que os trabalhadores, não só os braçais como todos os outros, são quem mais arrisca neste jogo de interesses que o patronato joga como um privilégio seu, presumindo que os criadores da riqueza são dele simples espectadores. São eles quem mais arrisca, não por vontade própria, mas porque não têm outro meio de sobrevivência, salvo o seu salário, ou seja, o produto da venda da sua força de trabalho.
            A classe empresarial corre atrás do lucro, e nesse ímpeto recorre ora a mão-de-obra ora a robôs, conforme conclui, bem ou mal, o que é que lhe dá mais vantagem.
            Tudo indica que propende agora para a adopção de novas tecnologias, propensão que promete manter-se, mas não se sabe até quando.
            O desemprego vai alastrar, e fatalmente as forças do trabalho vão reagir, e cada vez mais, à medida que as condições de trabalho se deteriorarem e a segurança social se mostrar mais e mais incapaz de apoiar financeiramente os despejados dos seus postos de trabalho.
            É uma luta inevitável, porque o desemprego terá como fatal consequência a miséria, mas é uma luta difícil, e que, por isso, exige inteligência e experiência, e que, obviamente, não pode prescindir de uma sólida organização tanto das formações sindicais como dos partidos operários.
            Mas, essa sólida organização não pode prescindir de recursos financeiros.
            Neste aspecto, porém, o alastrar do desemprego é um factor negativo. Operários desempregados têm dificuldade em pagar quotas aos organismos que os defendem, e daí decorre que, quanto mais desemprego houver, mais depauperadas estarão as organizações do trabalho e a sua capacidade de defenderem os direitos dos trabalhadores.
            Significa isto que não é só o Estado a perder receitas, a crescente desorganização social criada pelo desemprego vai atingir todos os escaninhos da vida social.
            Mas a verdade é que, neste confronto a prazo que se adivinha, as organizações patronais também não estarão de melhor saúde. As margens de lucro irão declinando.
            Dir-se-á que, apesar de tudo, as forças do trabalho estarão em melhor posição, porque, se, pelo lado do patronato, a economia lhe demonstrar, pela mais evidente das formas, que o sistema económico esgotou as suas virtualidades, não terá motivo nem forças para recusar a entrada numa nova experiência histórica, com a propriedade em comum dos meios de produção, incluindo os robôs e outras tecnologias que se mostrem de bom proveito.
            Não sejamos optimistas, não julguemos que isto se passará como que numa amena conversa entre cavalheiros; ninguém abdica dos seus interesses sem mais. Certamente que as lutas se prolongarão. Mas de que forma?
            O problema complica-se, porque uma intrincada rede de conexões interliga as economias dos diferentes países, e também porque o grau do recurso à robotização é diverso de uns países para os outros.
            No último dos artigos da autoria de Michael Roberts que aqui referimos, este oferece-nos alguma informação útil a este respeito. Diz-nos ele que no Japão e na Coreia do Sul, o número de robôs por empregado de manufactura é de mais de 300 por 10.000 empregados; na Alemanha, de mais de 250 por 10.000 empregados; os EUA têm menos de metade dos robôs do Japão e da Coreia do Sul. Acrescenta que, na década de 2005 a 2015, a adopção de robôs no Brasil subiu 40%; na China, 210%; na Alemanha 11%; na República da Coreia, 57%; e nos EUA 41%.
            O que importa reter, de qualquer modo, é que os trabalhadores não têm outra alternativa senão lutar, e seguramente lutarão.
            Todavia, não faltam exemplos de lutas desorganizadas, sem um programa de acção bem definido e como que destituídas de uma ideologia assumida. Lutas que se diluem em acções desgarradas por que frequentemente enveredam, por iniciativa própria ou incitamento de agentes provocadores infiltrados, e que desmotivam o povo, em vez de o mobilizarem para as acções organizadas que se mostrem necessárias.
            As acções dos coletes amarelos em França, e não só, são um claro exemplo disso.
            Inclinámo-nos a crer que o sistema económico claudicará não só muito antes da robotização total da produção, como também ainda antes de se registar a impossibilidade absoluta de sustentação dos sistemas de segurança social e fiscal.
            Isto, porque foi bem evidente na crise mundial iniciada em 2008 a fragilidade que o sistema revelou, apenas porque o Lehman Broders, banco ainda na véspera dado como estando em boas condições financeiras, colapsou estrondosamente, gerando um efeito de carambola por todo o planeta.
            Nos tempos que correm, as debilidades da economia transparecem mesmo nas fases de prosperidade dos ciclos económicos, de tal modo que estes já nem verdadeiramente se configuram como tal.

22.   Conclusão

            Como dissemos no início desta reflexão, com ela temos o propósito de assumir uma atitude crítica sobre a forma como um grande número de autores avalia e vaticina sobre os progressos das novas tecnologias e a sua influência na evolução da sociedade humana.
            O pensamento dominante vai no sentido de ignorar os efeitos imediatos e a longo prazo no domínio económico que, no limite, implicariam o colapso do sistema capitalista, o fim do trabalho humano assalariado.
            Mas são muitas outras as consequências das novas tecnologias interferindo com muitos outros aspectos da vida social e individual, como a medicina, a engenharia, o desporto, o ensino, assim como na ecologia, não só por motivo da poluição como por intervenções directas da geoengenharia capazes de provocar alterações climáticas.
            Mesmo autores como Klaus Schwab, que admitem a interferência «disruptiva» - como preferem dizer – das tecnologias ora na indústria, ora no comércio, ora na administração pública, ora na saúde, no clima, nas relações sociais, abstêm-se de assumir que as consequências são globais, são em todas as áreas, e denominam esta realidade como simples revolução industrial, deixando na sombra tudo o resto.
            Este é, sem dúvida, o discurso que mais convém às megaempresas produtoras das novas tecnologias e das suas concretizações práticas, discurso que, associado à ideia de modernidade e a imagens geradas pela chamada ficção científica de mundos extraterrenos e viagens intergalácticas, bem potenciadas pela publicidade, garantem vultuosas vendas.
            É indiscutível que, ainda que a revolução tecnológica fosse meramente circunscrita à área industrial, teria inevitáveis consequências sérias na economia.
            Aqueles que consideram esta revolução a quarta revolução industrial, tudo indica que a querem identificar como apenas mais uma revolução dentro do modo de produção capitalista; eventualmente, apenas com um pouco mais de potencialidades produtivas, até a comparam por vezes com a primeira - como se o capitalismo fosse eterno e se mantivesse igual a si mesmo desde o início. Mas não é esse o caso.
            É absolutamente inadequado comparar a primeira revolução industrial, que se confunde com o próprio capitalismo nascente na sua afirmação, com recursos de mercados potenciais ilimitados, com esta quarta revolução na produção, e não só, a ocorrer no contexto do declínio do sistema económico, agora global, com taxas médias de lucro a tender persistentemente para o zero, com medidas de cuidados intensivos no controlo da inflação e da dívida pública, na gestão do crédito, com debilidades tais que o colapso de um só empório económico (quem sabe se de uma megaempresa tecnológica?) é bastante para disfuncionalizar a economia do mundo inteiro.
            Uma revolução tecnológica com as potencialidades das novas tecnologias pode provocar a própria mudança do sistema económico, por aumentar substancialmente as forças produtivas, exigindo, em consequência, a mudança das relações de produção.
            Os mergulhos longos e cada vez mais arrastados da economia nos seus períodos depressivos são cada vez menos intervalados por breves emersões que mal lhe permitem recuperar o fôlego.
            Mas não convém subestimar a força que os detentores do poder ainda possuem, nem os desvarios de que são capazes para a conservar.
            Os arsenais que detêm são imensos, a comunicação social que os defende é esmagadoramente maioritária, os serviços secretos são constituídos por milhares de agentes.
            Entretanto, a diferença de rendimentos per capita entre ricos e pobres vai-se avolumando.
            Nos EUA, desde os anos oitenta, quando governava Reagan, os rendimentos das classes trabalhadoras praticamente não evoluíram, enquanto os rendimentos dos mais ricos têm subido continuamente.
            O próprio Klaus Schwab nos diz, na pág. 50 do seu livro já citado, que «cerca de 80% da redução da participação do trabalho no rendimento nacional nos países da OCDE tem sido atribuída aos efeitos da tecnologia…».
            Mas a riqueza concentra-se cada vez mais; os muito ricos são cada vez em menor número.
            Entretanto, a economia, que tem as suas leis próprias, segue o seu próprio roteiro de evolução.
            Ainda nos EUA, abundam já as cadeias de supermercados de mercadorias baratas (e qualidade correspondente), ao estilo das velhas lojas dos trezentos, aos quais acorre invariavelmente toda a sorte de cidadãos de baixos rendimentos. Mas sondagens às opções políticas dos mais jovens registam crescimento notório dos que optam pelo socialismo ou pelo comunismo.
            A história não corre à velocidade que mais nos agradaria, mas acabará por se impor e ultrapassar os desvios ocasionais que os mais poderosos vão, por vezes, conseguindo impor-lhe.

Referências Bibliográficas

Oliveira, Arlindo (2019). Inteligência Artificial. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Schwab, Klaus (2019). Moldando a Quarta Revolução Industrial. Edição Levoir.
Marques, V. Soromenho (2018). O TGV da Inteligência Artificial, Sem Travões nem Destino. In: Jornal das Letras de 21/11.
Nadella, Satya (2019). Prefácio. In: Moldando a Quarta Revolução Industrial. Edição Levoir.
Pina, Pedro (2019). Prefácio. In: Moldando a Quarta Revolução Industrial. Edição Levoir.