Do
Ambientalismo Utópico ao Ambientalismo Científico
R. Cunha Reis
I
O
título deste texto colhe inspiração no do livro de Engels “Do socialismo utópico ao socialismo científico”.
Nesse
livro, Engels procura demonstrar e chamar a atenção para que o socialismo não
se consegue concretizar só pela vontade dos homens; é preciso que estejam
preenchidas certas condições, como as de o sistema económico capitalista já ter
atingido o seu grau supremo de desenvolvimento, os trabalhadores estarem
devidamente organizados e o socialismo ser instaurado num bom número dos países
mais desenvolvidos.
Foi
importante a publicação deste livro, ainda no século XIX, porque havia nessa
época vários pensadores que, levados embora por um humanismo sincero,
promoveram a organização de comunidades de dimensão limitada que se regiam por
princípios de rigorosa justiça social, supondo que serviriam de exemplo a outras
iniciativas similares, que alastrariam por todo o mundo, tornando o socialismo
universal.
O
insucesso destes projectos verificou-se pouco depois.
O
desenvolvimento da economia nessas comunidades era muito limitado. A sua exígua
dimensão tornava impossível desenvolver a grande indústria e mesmo a exploração
agrícola em grande escala. A sua falta de autonomia política tornava-as
incapazes de impedirem por completo a manutenção de relações económicas com as
sociedades nacionais em que se incrustavam, que continuavam a ser capitalistas.
Estes
insucessos mostraram que Engels tinha razão; era preciso pensar a construção do
socialismo, não de forma idealista, mas, como tudo, seguindo um processo de
pesquisa científica, sob pena de se arriscar o insucesso.
Se
prestarmos atenção à forma como estão a ser encarados os problemas ambientais
um pouco por todo o mundo, depressa concluiremos que o idealismo e a utopia,
quando não a demagogia, dominam a generalidade dos procedimentos; e isto é
grave, por diversos motivos.
Os
problemas ambientais estão directamente ligados à organização económica e
política dos diversos países e, no essencial, são por ela determinados, pelo
menos, no quadro que agora se nos apresenta.
Assim
dizemos, porque é sabido que, por razões cósmicas, o planeta Terra já teve, ao
longo dos milhões de anos da sua existência, grandes alterações do clima.
Tempos houve em que nem tinha atmosfera e camada de ozono.
Mas
do que agora se trata não é disso, mas sim de alterações climáticas que
cientificamente se conclui deverem-se à actividade humana.
A
grande maioria das manifestações que no momento se multiplicam pelo mundo em
defesa do ambiente são feitas por pessoas muito jovens, e as suas palavras de
ordem limitam-se à simples reivindicação de que seja preservado o planeta para
garantir a sobrevivência das novas gerações. A sua formação política é, na
maioria dos casos, muito rudimentar. Muitos convencer-se-ão de que as simples
manifestações, feitas nestes termos, serão suficientes para resolver o
problema.
Mas
a manutenção do sistema económico capitalista é um decisivo entrave a que o
problema se resolva; e esta não é questão que se ultrapasse a curto prazo e com
simples manifestações juvenis.
Há,
assim, um enorme risco de que se gere nos jovens um sentimento de frustração, a
menos que a participação prolongada nestas lutas lhes vá permitindo ganhar uma
mais aprofundada cultura política.
Porém,
a isto opõe-se a propaganda da comunicação social, dominada pelos detentores do
dinheiro/poder.
O
impasse na questão ambiental revela-se claramente nas sucessivas cimeiras
internacionais sobre o clima, cujas metas ficam sistematicamente por alcançar.
II
Não
precisamos de ir muito longe para vermos a relação directa que o capitalismo
tem com a poluição, basta prestarmos atenção ao que se passou e ainda se passa
com os têxteis do Vale do Ave e o rio. Na sua ânsia de lucro, e com a inércia
do poder público, os empresários dispensavam-se e dispensam-se sistematicamente
de criar nas suas fábricas sistemas próprios de recolha de efluentes poluentes;
é muito mais barato lançá-los para o rio.
E
quem salvou parcialmente o rio não foram os empresários têxteis nacionais ou o
Estado, foi a concorrência estrangeira nos têxteis, que levou à falência um
grande número de empresas.
E
como foi poluído o Tejo recentemente?
Foi
também uma empresa que para ele lançou efluentes poluentes, em transgressão à
legislação existente.
A
poluição atmosférica resulta na sua maioria de actividades industriais,
incluindo a indústria agrícola; e a do mar, de todos os efluentes industriais e
domésticos que os rios e esgotos para lá encaminham, mas não só.
Numa
economia capitalista, o empresário individual age de acordo com o seu próprio
interesse e, conforme lhe convém, tende a presumir que as suas infracções
ambientais não são só por si decisivas para gerar uma catástrofe no planeta, e
tudo se consente a si próprio. E o Estado, que é o seu defensor, negligencia,
ou, pelo menos, não intensifica a fiscalização, por recear tornar-se impopular,
infiel à classe que serve.
Age,
aliás, de modo similar ao que acontece no domínio do trabalho, no qual consente
todas as injustiças em termos de salários e regalias, e mantém um sistema de
segurança social em grande parte custeado pelos próprios trabalhadores.
A
política de rédea solta para o capitalismo revela-se, aliás, de forma
evidentíssima, nas políticas económicas adoptadas desde há anos no domínio
deste sistema a nível mundial.
Como
sabemos, durante grande parte do séc. XX, os governos dos países capitalistas,
como forma de atenuar as crises cíclicas do sistema, adoptavam medidas de
intervenção na economia, quer para atenuar as fases de depressão quer para
manter em limites convenientes as fases de prosperidade e a correspondente
inflação.
Não
tardou, porém, que surgissem alguns teóricos da área económica a sustentar que
isso era inconcebível, que isso não correspondia ao normal funcionamento dos
mercados e que condicionava as empresas indevidamente; e, nestes mercados,
incluíam também o mercado do trabalho. Também nessa área, não podiam os
sindicatos intervir, pressionar, impedir que as empresas agissem livremente.
A
esta maneira de pensar a economia se vem chamando neoliberalismo.
E,
por mais absurdo que isto possa parecer, visto que abriria portas à
hiperexploração do trabalho, conduzindo a um retrocesso civilizacional, a
verdade é que estas políticas começaram a fazer o seu caminho nos anos oitenta
do século passado, tanto nos E.U. como na Grã-Bretanha.
Hoje
em dia, tais políticas já são dominantes no mundo capitalista.
Se
o capitalismo continuasse a ser um sistema económico em ascensão, teria
seguramente cada vez melhores condições para beneficiar todos os seres humanos.
Mas não, não tem.
O
que acontece não é porque as mais-valias, resultantes da diferença entre os
salários pagos e o valor produzido pelo trabalho sejam menores, muito pelo
contrário, mas sim porque a taxa média de lucro vai progressivamente
diminuindo.
De
modo que os empresários não vêem melhor forma de aumentar ou, pelo menos,
conservar os seus lucros que não seja congelar salários, desregulamentar os
contratos de trabalho, eliminar regalias.
De
um sistema cada vez mais à deriva, que, arrastado pelo desespero de
sobrevivência da classe capitalista, caninamente se lhe submete e tudo lhe
consente, como podemos esperar que a vá submeter a uma disciplina férrea, com
condicionantes imperativas para o investimento e dispêndios incalculáveis para
salvar o clima?
III
O
neoliberalismo não se caracteriza só pela rédea solta dada às empresas
privadas; defende também que toda a actividade económica seja do domínio
privado.
Em
cumprimento dos dogmas desta teoria económica, assumida também pela União
Europeia, as empresas estatais foram quase totalmente privatizadas, e, por
consequência, na prática, não sobrou para o Estado nem mesmo o poder de planear
a actividade económica do sector empresarial público.
Em
resultado disto, a decisão de criar novas empresas, não poluentes, em
substituição das poluidoras, fica dependente de decisões de empresas privadas
estranhas ao Estado; empresas essas que, programando os seus negócios apenas em
função da sua lucratividade, só investirão nas actividades das quais esperem
ganhos evidentes, e não prioritariamente nas que se mostre necessário criar.
Nos
tempos em que os pensadores da economia concluíam, e os Estados acatavam, que
era de toda a conveniência, por razões sociais e de interesse público, existir
um sector empresarial do Estado, normalmente eram nele incluídas as áreas dos
transportes, dos correios, pelo menos parte da bancária, da rede eléctrica e
telefónica, da rede viária, além de outras que variavam de país para país. Hoje
em dia, culpa do neoliberalismo, mesmo destes sectores, muitos foram total ou
parcialmente privatizados.
A
crise ambiental que se vive é particularmente grave; há mesmo quem proclame que
deve decretar-se o estado de emergência ambiental, mas, no estado de
privatização e falta extrema de planeamento estadual da actividade económica a
que chegamos, que medidas de emergência é que os Estados podem adoptar? O que é
que está nas suas mãos programar em matéria de iniciativa e empreendedorismo
empresarial amigos do ambiente?
No
estado de crise em que vivemos, são imprescindíveis a iniciativa e o
investimento público; mas, não nos iludamos, o Estado nem dinheiro tem para
isso, porque, como não tem empresas públicas, também não tem as correspondentes
receitas.
Em
suma: se o capitalismo neoliberal, na sua crise sistémica, se agarra, como
tábua de salvação, ao Estado mínimo, com receitas muito limitadas, e à anarquia
de escolhas de investimento pelos privados, em que só se escolhe produzir o que
é de garantido lucro, ainda que de consumo inútil, já a crise ambiental, para
ser superada, exige exactamente o contrário, isto é, economia estatizada e
planificada com o máximo rigor.
Dito
de outro modo: a crise ambiental só terá solução num mundo pós-capitalista, com
a planificação económica eficazmente controlada.
E
este é que é mesmo o grande problema, porque, sé é possível prever com alguma
aproximação o ritmo a que se agravarão os problemas ambientais, já o mesmo não
acontece com o ritmo do declínio do sistema capitalista, muito embora sejam
cada vez mais evidentes os sinais de que se agrava a sua crise sistémica.
E
então, se nos lembrarmos de como a generalidade das pessoas permanece sem tomar
consciência desta questão, mais tenderemos a supor que o fim do capitalismo
ainda vem muito longe. Isto, porque tendemos também a acreditar que o
capitalismo será fatalmente derrubado pela acção das massas populares.
Mas,
pode nem ser bem assim. As crises do capitalismo são muitas vezes gerais e
súbitas e coexistir com um estado de desmobilização popular e de fraca
organização das forças capazes de liderar politicamente a implantação de novas
estruturas políticas e sociais pós-capitalistas. Isto, em consequência do
enfeudamento da comunicação social ao poder capitalista, que não deixará de
patrocinar os seus financiadores até ao fim, fazendo crer que não chegou ainda
a morte do capitalismo.
Do
que vai dito, conclui-se que tudo indica que na luta pelo clima, a prioridade,
muito diferentemente, é a de lutar pela superação do sistema económico que está
na origem das disfunções climáticas. Sem isso, patinaremos numa infindável
frustração.
IV
Do
anteriormente exposto, concluiu-se que, se não se der prioridade aos esforços
para mudar radicalmente o sistema económico de forma a dar ao Estado o poder de
intervir decisivamente na orientação da actividade económica, quer planeando,
quer controlando o seu financiamento, de pouca eficácia serão as acções de rua
em defesa do clima.
Não
queremos desanimar os manifestantes; não queremos com isto dizer que as suas
mobilizações para nada servem. Certamente que algum efeito têm; o que nunca se
consubstanciarão é em resultados suficientes para obstar ao descalabro
ambiental que, a ritmo mais ou menos acelerado, continuará a acentuar-se; as
metas fixadas nas cimeiras do clima (que, aceites com muitas reservas pelas
grandes potências capitalistas, ficam elas mesmas muito aquém do que se mostra
necessário) nunca serão totalmente atingidas, e isso acentuará uma natural
frustração.
Anota-se
também que estes resultados insuficientes de que estamos a falar podem, além
disso, ser contrariados, ou totalmente anulados, por decisões tomadas noutras
áreas das políticas dos Estados ou mesmo de organizações interestaduais, assim
como pelos naturais mecanismos do sistema económico vigente.
Atente-se
no fenómeno publicitário com a sua contínua estratégia de sedução avassaladora
aos consumos supérfluos. O sistema económico vigente não consegue sobreviver
sem a publicidade.
No
dia em que isso fosse decretado, a queda do consumo seria de tal ordem que o
sistema económico se afundaria numa fatal crise de sobreprodução.
Repare-se
que, nos dias que correm, quando se apela ao empreendedorismo, e este é mesmo
promovido, a única condicionante que se lhe exige é que gere empresas
lucrativas para promoverem a sustentação da economia. Ninguém se preocupa com
saber se vão produzir bens de consumo humano necessário, ou bens supérfluos, ou
mesmo prejudiciais ao ambiente, na medida que aumentem a delapidação de
recursos naturais, a multiplicação de materiais descartáveis ou de emissões de
gases com efeito de estufa gerados pela sua produção.
Uma
economia sustentável não pode, por conseguinte, produzir bens sem critério, nem
promover a sobreprodução e o sobreconsumo; tem que abdicar da publicidade.
Mas
vejamos também o que se passa no âmbito demográfico, raramente invocado pelos
ambientalistas. A população mundial está continuamente a aumentar. E isto é um
factor que, provocando a necessidade de alargar a actividade industrial e
agrícola, a concentração humana nas cidades, o aumento da circulação automóvel,
etc., etc. contribui para o aumento acentuado dos desequilíbrios ambientais. A
Terra tem limites para a resposta a dar a estes desequilíbrios, e é evidente
que as medidas propugnadas e mesmo postas em prática destinadas a salvar o
planeta são reduzidas no seu alcance pelo acentuado crescimento populacional.
Não seria mais lógico actuar prioritariamente no âmbito da incentivação dos
programas de planeamento familiar?
Recorde-se,
entretanto, que, sendo a tendência para o crescimento da população muito mais
acentuada nos países subdesenvolvidos, em que a população, presa de
preconceitos ancestrais, nos quais os respectivos governos não querem tocar, só
com muita aculturação e persuasão se dispõe ao controlo dos nascimentos, quem
tem vindo a praticar acções nesse sentido são os organismos internacionais,
entre eles a ONU. Porém, a ONU depende
dos financiamentos dos Estados membros, mas tais Estados, a começar por alguns
dos mais ricos, como os E.U.A., não se dispõem a dotá-la dos meios necessários.
Passemos
a outro exemplo de decisões dos governos que actuam em sentido contrário ao das
chamadas políticas ambientais: a guerra e as indústrias que a servem.
No
mundo em que vivemos, a triste realidade que se constata é que, ao contrário
dos diferendos entre indivíduos, continua a não haver um poder supranacional
que imponha a resolução de conflitos internacionais por meios judiciais.
E
o que a par disto ocorre também é que o mundo vive ainda num estado de
beligerância, ora efectiva ora latente, tão selvagem como em tempos de outrora,
mas com meios bélicos moderníssimos e com potencial apocalíptico.
Países
inteiros vão sendo devastados, totalmente arrasados, remetidos para a
necessidade de recomeçarem o seu desenvolvimento a partir de estádios muito
primários. O uso de armas nucleares, nunca em absoluto descartado, tem
potencial para, além de arrasar cidades ou regiões inteiras, contaminar o ar,
os solos, os cursos de água. Isto, para além de garantir o domínio dos Estados
seus detentores sobre os que as não possuem.
Se,
já em 1945, as duas armas nucleares despejadas pelos E.U.A. sobre Hiroxima e
Nagasaki foram suficientes para destruir completamente estas duas cidades, no
tempo presente, os arsenais nucleares acumulados pelas grandes potências são
suficientes, se usados, para tornarem inabitável todo o planeta; mas, mesmo o
seu uso em muito menor medida, ou o uso de meios bélicos não nucleares, mas com
muito mais poder destrutivo do que os de outrora, têm poder de causar danos
muito graves ao ambiente.
Sintetizando,
a luta em defesa do ambiente e contra a degradação climática é absolutamente
necessária, exigindo a correcção de todas as práticas que ponham em causa a boa
habitabilidade do planeta Terra, mas o
seu sucesso só será garantido no dia em que os sistemas económicos baseados na
iniciativa privada, e com os Estados reduzidos ao mínimo, derem lugar a uma
economia de iniciativa maioritariamente pública e planificação rigorosa em
todos os domínios, incluindo o da questão demográfica, assim como a uma ordem
internacional pacífica, em que não haja lugar para as indústrias da guerra ou
os arsenais monstruosos que ainda hoje existem e tendem a aumentar.
Daí
que, quem julgar que isto é uma utopia, terá que concluir também que a vitória
na luta pelo ambiente também o é, para mal de todos nós.
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com o título Do Ambientalismo Utópico ao
Ambientalismo Científico pode ser consultado no blog: https://ensaios-romeucunhareis.blogspot.com
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