Karl Marx e o fim do capitalismo *
Romeu Cunha Reis
Não
me inclino a registar efemérides, acontecimentos passados que já não podem, de
modo nenhum, influenciar a vida social actual, limitando-se a despertar em nós
um sentimento de nostalgia.
Se
venho a público escrever sobre Karl Marx no bicentenário do seu nascimento, não
é apenas para fazer coro com os que o idolatram, porque, por natureza e
princípio, não idolatro ninguém, nem com os que desesperam por “comprovar” o
erro total dos seus textos teóricos, sejam analíticos, sejam de antevisão da
evolução do mundo, aí compreendida a prognose do futuro do capitalismo. É antes
porque a sua obra é muito vasta, englobando desde a velha e crucial questão
filosófica que emerge do confronto entre a perspectiva idealista e a
materialista, até à teoria do conhecimento científico, à análise profunda da
lógica de funcionamento do sistema capitalista e da evolução histórica que
sucessivamente o vai desfigurando, e também à previsão da forma por que
ocorrerá a sua transformação e superação. Daí que seja uma visão imatura das
coisas pretender ignorá-la de vez e na sua totalidade, como que com um passe de
mágica.
Repare-se,
desde logo, na posição de princípio de Marx: a de seguir uma metodologia
científica na sua investigação.
De
facto, antes de Marx e Engels, muitos outros tinham defendido a criação de
regimes socialistas. Acreditavam, porém, que para isso bastava que os homens se
unissem e se organizassem, independentemente do contexto histórico em que isso
ocorresse.
Marx
e Engels, entendiam que não era assim que lá se chegava; era preciso estudar
cientificamente a forma de conseguir tal objectivo. E foi isso o que procuraram
fazer.
Ora,
a metodologia científica, usada em qualquer ciência, nunca produz teorias
acabadas, isso é contraditório com a ideia de ciência e da sua contínua
investigação e avanços cognitivos.
Significa
isto que, nesta parte, o princípio estabelecido por Marx e Engels coincide com
o princípio inerente à generalidade das ciências. Negar-lhes razão nesta opção
pela metodologia científica é negá-la em simultâneo a todos os que investigam
na área das ciências em geral. Mas significa também, óbvia e implicitamente,
que as próprias conclusões a que chegaram, tal como na ciência em geral, têm
que ser sucessivamente ajustadas em função da contínua investigação e dos
aperfeiçoamentos e correcções que se forem impondo; tanto mais que a realidade
social em análise se vai alterando. E vai alterando precisamente como resultado
da evolução inevitável do sistema económico e das relações de produção que lhe
são inerentes.
«
Entretanto,
a par da utilização da metodologia da
investigação do conhecimento científico num âmbito multidisciplinar abrangendo
as ciências vulgarmente designadas como exactas e as não exactas, e em
coerência com isso, Marx rejeita o idealismo filosófico absolutamente
contraditório com os pressupostos gnoseológicos inerentes ao postulado
implícito na ideia de ciência de que é possível progredir na consecução de
conhecimentos da realidade que nos cerca.
No
que a esta sustentação filosófica diz respeito, pode dizer-se que, muito ao
contrário dos anseios de quem teima em declará-lo ultrapassado, na era da
ciência em que agora nos encontramos, ela é cada vez mais aceite como
indiscutível. Só abencerragens como os criacionistas e outros místicos e visionários
alheios aos ensinamentos da ciência e da sua prática pregam o contrário. Uns,
por ignorância do que as ciências em geral nos ensinam, outros, porque, sendo
conhecedores desses ensinamentos, têm consciência de que eles tendem a derrubar
toda a sorte de crendices e superstições que alimentam nas suas mentes.
II
No
primeiro texto publicado com este título, concluímos que Marx adoptou o
princípio de que a teoria do socialismo e do comunismo tinha que ser estudada
como se estuda qualquer ciência, sendo um processo continuado, com sucessivas
novas descobertas a imporem ajustamentos, correcções e reconfigurações dos
conhecimentos já obtidos.
De
igual modo, assumiu este pensador que, no processo de pesquisa do conhecimento
nesta área, são a prática, a experiência que põem à prova as hipóteses teóricas
formuladas – o que igualmente implica que nenhuma teoria é dada como certa e
definitiva à partida.
É
um facto que muitos seguidores de Marx tenderam a apresentar o marxismo como
uma doutrina, e, mais do que isso, como uma teoria definitivamente perfeita,
que dispensa qualquer investigação sistemática complementar. Mas uma avaliação
intelectualmente honesta das coisas impõem-nos a conclusão de que Marx e o
marxismo não têm culpa desse procedimento anómalo.
Se
a prática e a experiência são os únicos critérios de verdade científica, isto
tem implícito que o marxismo, enquanto não foram instaurados regimes
socialistas – o que só veio a acontecer no séc. XX, e Marx morreu muito antes
disso – que finalmente o sujeitaram à prova da experiência prática, não podia
considerar-se uma teoria acabada, sob pena de grave contradição.
É
verdade que a Comuna de Paris, em 1871, já foi uma tentativa de instauração do
socialismo, e Marx já aproveitou tal experiência para tirar algumas conclusões
a partir dos seus sucessos e insucessos, mas a sua duração foi escassa e o
contexto histórico absolutamente desfavorável – o que não lhe permitiu ir mais
além.
A
questão do contexto histórico, especialmente no aspecto do desenvolvimento
económico, é de importância crucial, segundo Marx, para a viabilidade de uma
revolução socialista. Com efeito, sustenta que uma tal experiência só tem
condições para vingar quando o capitalismo está já num patamar de
desenvolvimento muito avançado.
Esta
tese subentende, portanto, que qualquer revolução projectadamente socialista
que ocorra em países que ainda se arrastem em fases de economia
predominantemente rural ou de capitalismo incipiente ou medianamente
desenvolvido não está em condições de nos possibilitar aferir correctamente o
acerto, ou não, da teoria marxista.
Entretanto,
as duas maiores revoluções que se assumiram como socialistas foram a russa e a
chinesa, tanto uma como outra concretizadas em países que, embora tivessem uma
indústria a despontar, eram maioritariamente de economia quase feudal. Não
preenchiam, por isso, uma das condições mais importantes para a transição para
o socialismo.
Foram,
deste ponto de vista, revoluções precoces.
Perguntar-se-á,
por isso, porque é que os seus dirigentes, conhecedores da teoria marxista,
decidiram pô-las em prática.
Num
caso e noutro as forças pró-socialistas procuraram aproveitar-se de
particulares conjunturas históricas que favoreciam a tomada do poder. Porque,
mesmo num país de desenvolvimento económico avançado, nenhuma revolução pode
avançar sem condições político-sociais que favoreçam a mobilização das classes
desfavorecidas e o acesso ao poder. E estas condições não surgem com
frequência.
Certo
é que a conclusão de Marx de que só em países economicamente desenvolvidos
haveria condições para avançar para o socialismo veio em breve evidenciar, se
não que era absolutamente correcta, pelo menos, que a concretização das
revoluções Russa e Chinesa em situações de grande atraso do desenvolvimento do
capitalismo as deixou com enormes dificuldades económicas, que punham em causa
a concretização dos seus objectivos.
Curiosa
é a forma como em cada uma delas se procurou superar este défice de
desenvolvimento.
III
Concluímos
a parte II do texto com esta epígrafe afirmando que as revoluções socialistas
da Rússia e da China, ocorridas numa fase de desenvolvimento industrial
incipiente nesses países, deixou-os numa situação económica muito difícil. E um
país com uma economia insustentável é vulnerável em todos os aspectos, do
social, ao político e ao militar.
A
situação assim criada nestes dois países revelou com toda a evidência que uma
revolução socialista não devia ser encetada antes que se atingisse um estádio
muito avançado do desenvolvimento do capitalismo.
Os
dirigentes das forças revolucionárias tomaram rapidamente consciência deste
facto, e punha-se-lhes agora a questão: que fazer? A resposta a esta questão
poderá parecer fácil: se a revolução não devia ter sido feita nestas
circunstâncias, então desfazia-se, e voltava tudo ao princípio.
O
que não era fácil era convencer aqueles que tantos sacrifícios tinham feito
para tomarem o poder do Estado e pô-lo ao serviço do povo trabalhador a abrirem
mão de tão grande tesouro. Além do que, fazer ou reverter revoluções não são
meras experiências de laboratório que se concretizem sem vultuosas e dramáticas
consequências pessoais e sociais.
A
alternativa – concluíram então os dirigentes revolucionários – só podia ser a
de promover intensamente o desenvolvimento económico de que a revolução não
dispunha à partida.
No
caso da Rússia, cuja revolução se iniciou em 1917, e logo se alargou a outros
países e territórios, dando origem à União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas, esta ideia deu origem à NEP – Nova Política Económica – que foi
levada à prática a partir de 1921.
O
que sucedia então era que a guerra civil que se seguira à tomada do poder
arruinara ainda mais a economia do que acontecia em 1917. Isto é: o défice de
desenvolvimento económico, que condicionava a factibilidade da sociedade
socialista ansiada, agravara-se ainda mais. Se, nas condições de 1917, poderia
pôr-se como objectivo imediato e primeiro a industrialização, já em 1921 o
próprio sector agrícola, que se tinha arruinado, exigia igual atenção para
garantir a alimentação da população.
Logo
em 1921, Lenine, dirigente máximo da revolução, afirmava que a ideia de
promover a NEP – Nova Política Económica – “teve origem numa miséria extrema e
numa situação desesperada”, acrescentando, que “o socialismo só podia nascer
com base no desenvolvimento da grande indústria… …a nossa obrigação é entrar
para a escola do capitalismo de Estado”.
Interrogava-se
então Lenine: “– Mas devemos ter medo do capitalismo, nós que temos na mão as
fábricas, as oficinas, os transportes e o comércio externo? O capitalismo que
cresce deste modo é controlado, calculado, e o poder continua nas mãos da
classe operária e do Estado operário”.
Implantada
a NEP, a liberdade de comércio foi pouco a pouco restabelecida, primeiro para
os produtos agrícolas, depois para os industriais. A 7 de Julho de 1921, foi
autorizada a restituição aos seus proprietários de origem das fábricas com um
máximo de 10 operários, foi restabelecido o direito de sucessão hereditária até
ao valor de 10.000 rublos-ouro e possibilitado o estabelecimento de concessões
ao capital estrangeiro. Em Maio de 1922 foi permitida aos soviéticos a criação
de empresas comerciais e a posse de propriedades. A isto se juntavam as
empresas do capitalismo estatal e as empresas organizadas já em moldes
socialistas.
Em
resultado de todas estas medidas, foram alcançados êxitos apreciáveis, apesar
do pouco sucesso no que se refere a investimentos estrangeiros.
Entretanto,
como Lenine previra no início da NEP, esta permitiu o enriquecimento de uma
classe de comerciantes e industriais, assim como dos kulaks, grandes
proprietários rurais. Se Lenine previra que isso não punha em perigo a
revolução, visto que o Estado tinha todo o poder nas suas mãos, já depois da
sua morte, e com o avançar da NEP e o cada vez maior peso dessa classe, os
dirigentes que lhe sucederam passaram a recear cada vez mais que se
transformasse num travão da revolução.
Em
1929, Estaline manifestava já preocupação com a «resistência dos elementos
capitalistas da cidade e dos campos». A este medo, somava-se o resultante da
emergência dos fascismos na Europa e da previsão de que atacariam a U.R.S.S.
mais cedo ou mais tarde. E estes medos/pânicos levaram à liquidação total da
NEP. Dela, salvo os ganhos económicos conseguidos, nada restou. Em Abril de
1929, foi aprovado o plano de colectivização das terras; a propriedade privada
foi totalmente suprimida na indústria; em 1930, o comércio privado desapareceu
totalmente.
IV
Como
já antes dissemos, outra grande revolução com vista à instauração do socialismo
que foi concretizada quando o país estava ainda numa fase de desenvolvimento
histórico-económico de industrialização incipiente foi a chinesa.
A
tomada do poder ocorreu em 1949, trinta e dois anos depois do que aconteceu na
Rússia. Nessa altura, já a experiência da N.E.P. – Nova Economia Política – da
U.R.S.S. (1921 a 1929) tinha tido o seu termo, vinte anos antes. E tinha tido o
seu termo de forma abrupta, porque o poder soviético se alarmara com a
emergência de uma classe capitalista e latifundiária, no curto espaço de oito
anos, que se lhe afigurou capaz de actuar como força de bloqueio das reformas
necessárias à implantação do socialismo.
Muito
provavelmente, por isso, o poder revolucionário chinês, que não podia deixar de
estudar a história da revolução soviética e tirar dela as lições adequadas, não
obstante a prática estagnação da sua própria economia, não ousou enveredar por
pôr em prática uma qualquer N.E.P. Não ousou fazê-lo, esclareça-se, pelo menos,
ao longo de trinta anos.
E
o resultado foram três décadas de estagnação económica – o que não era de
surpreender. O processo histórico ensina-nos que a economia não pode queimar
etapas na sua evolução progressiva, não pode progredir por saltos, de forma
voluntarista.
No
entanto, fosse por terem uma ideia diferente a este respeito, fosse porque
acharam por bem convencer as massas populares de que tal era possível para as
mobilizarem para participarem nas grandes batalhas do progresso económico, os dirigentes
chineses, em 1958-1959, com vista a ultrapassarem o estado atrasado do
desenvolvimento económico, fixaram como palavra de ordem para todo o povo um Grande Salto em Frente.
Esta
grande mobilização, como se depreende do que já dissemos, não incluiu qualquer
abertura a relações de produção e comércio de tipo capitalista, como aconteceu
com a N.E.P. russa. Muito pelo contrário, a sua medida mais destacada foi
precisamente a criação de comunas populares no campo com vista a industrializar
a agricultura, actividade ainda esmagadoramente dominante no país.
Isto
quer dizer que o poder revolucionário presumiu poder saltar de uma economia
predominantemente agrária para uma economia socialista sem qualquer etapa
intermédia com relações de produção capitalistas, ainda que enquadradas num
sistema tendencialmente socialista.
E
o resultado foi exactamente o contrário do esperado: a produção caiu e a fome
flagelou o povo chinês. Daí resultaram milhões de mortos.
Mesmo
assim, o poder revolucionário continuou a não equacionar sequer a hipótese de
abrir a economia, ainda que de forma muito limitada, a relações de produção de
natureza capitalista. E a estagnação económica prosseguiu.
A
situação económica, com a miséria que lhe era consequência, não podia deixar de
gerar descontentamento popular. Se soluções não apareciam para a economia,
havia que encontrá-las, ao menos, para o descontentamento.
Em
1965 foi proclamada a Grande Revolução
Cultural Proletária.
Mais
uma vez, a revolução tomava um rumo claramente contraditório com uma tese axial
do marxismo: a ideologia dominante é
sempre a ideologia da classe dominante. E fazia-o não obstante se proclamar
seguidora do marxismo-leninismo-estalinismo-maoismo.
Porque,
entenda-se, o que Marx queria significar com esta sua tese é que as ideologias
dominantes se geram infalivelmente como resultado e como exigência da natureza
de cada sistema económico; sistema esse que, aliás, não teria condições de sustentação
se não fosse cimentado pela ideologia que lhe é própria, e lhe permite o seu
domínio.
Assim
sendo, como se pode conceber uma revolução cultural proletária, ou seja, uma
revolução com vista a implantar a ideologia, a cultura do proletariado num país
em que os proletários, os operários, constituíam uma magra percentagem da
população activa, e não eram, portanto, a classe dominante, muito longe disso?!
Esta
visão das coisas, se tomada a sério, viola igualmente a perspectiva
filosoficamente materialista da teoria marxista, visto que pressupõe a
possibilidade de ultrapassar os condicionamentos materiais ao desenvolvimento
histórico, por simples iniciativa e vontade humana que os ignore.
E
daí que não espante ninguém que a concretização prática desta revolução
cultural não tenha conseguido qualquer mudança real em matéria de ideologia,
tendo-se antes consubstanciado numa forma de desencorajar reacções populares
aos maus resultados da economia, transferindo a cólera popular para bodes
expiatórios criteriosamente escolhidos, propalados como seus responsáveis e
expostos a execração pública.
Entre
os assim expostos, contava-se Deng Xiaoping, que viria mais tarde a empreender…
…será que lhe poderemos chamar uma N.E.P.?...
V
Concluímos
o último artigo interrogando-nos se as reformas económicas introduzidas na
China por Deng Xiaoping nos anos oitenta do século passado poderão ser
equiparadas à N.E.P. – Nova Economia Política implementada na U.R.S.S. na
década de trinta do mesmo século.
É
evidente que as duas experiências têm muito em comum. Em ambos os casos, países
a proporem-se construir o socialismo, mas com um sistema económico
maioritariamente agrário e uma indústria muito incipiente, com uma classe
operária muito minoritária, empreendem reformas económicas que introduzem no
sistema relações de produção capitalistas, com vista a atingir estádios de
desenvolvimento económicos mais avançados.
Numa
e noutra destas experiências, Estados que visam como meta última a abolição das
classes sociais, criam modos de produção que geram e tendem a multiplicar uma
classe capitalista que, com o poder que lhe é inerente, poderá tornar-se um
difícil obstáculo à posterior instauração de uma sociedade verdadeiramente
socialista.
Num
e noutro caso, este expediente apresentou-se como o único recurso para
ultrapassar o impasse criado pelo facto de a tomada do poder pelas forças
pró-socialistas não ter ocorrido em países de capitalismo avançado, condição
que Marx considerava ser imprescindível para possibilitar o avanço imediato
para a edificação de uma sociedade socialista.
Em
ambos os casos, estamos perante edifícios que começaram a ser construídos pelo
telhado – o que levou os construtores a partirem para a empreitada, e com toda
a razão, com extremos de medo e apreensão de perigos de derrocada.
Como
já vimos, no caso da União Soviética, esses medo e apreensão levaram a que o
poder pusesse fim à N.E.P. logo ao fim de oito anos. Os seus resultados foram
positivos no aspecto económico, mas as relações económicas de tipo capitalista
já tinham gerado, no campo e na cidade, uma classe de grandes proprietários e
de homens de negócios que se temia vir a ter um poder avassalador.
Voltando-nos,
porém, para as reformas operadas na China inspiradas por Deng Xiaoping e postas
em prática a partir de 1984, vemos que a sua dimensão, na sua abrangência e no
tempo, é de muito maior expressão.
Logo
no seu início, incluíram a liberalização de mais de metade dos preços dos bens,
a autonomia da gestão das empresas industriais e comerciais, a descoletivização
das terras, a possibilidade de diversas cidades costeiras receberem
investimentos estrangeiros, a criação de zonas com estatuto económico
liberalizado em Guangdong e Fujian, medidas substituindo o crédito bancário às
subvenções estatais como forma de financiamento das empresas.
Todas
estas transformações se inspiravam no conceito de «economia de mercado
socialista», de Deng Xiaoping, com vista à qual eram imprescindíveis, segundo
este, quatro modernizações: a da indústria, a da agricultura, a das forças
armadas e a da ciência e tecnologia.
Mas
também num outro aspecto, o processo de reformas chinês se aparta muito da
N.E.P. soviética: é que, à medida que os anos passavam, as reformas foram-se
alargando a muito mais áreas da economia.
Em
1997, ano da morte de Deng Xiaoping, o XV Congresso do Partido Comunista Chinês
deliberou a passagem à economia de mercado das empresas estatais, com o que se
operou uma larga privatização.
Nas
últimas duas décadas, o crescimento da economia chinesa continuou a
intensificar-se com taxas anuais de aumento do produto interno bruto muito
elevadas, chegando a atingir os 10%. E com isto foi crescendo proporcionalmente
uma classe capitalista cada vez maior e mais poderosa.
Mais
de trinta anos depois do início das reformas, este processo continua a
intensificar-se, e, ao contrário do que aconteceu com a N.E.P. soviética,
extinta logo ao fim de oito anos, com receios de que a incipiente classe
capitalista que gerara sapasse a construção do socialismo, o Estado chinês,
continuando a ser dirigido por um partido que se autodenomina comunista, parece
alheio a quaisquer receios de desvirtuação do projecto de construção do
socialismo.
E
isto provoca em muitos analistas sérias interrogações quanto ao futuro.
VI
No
capítulo V, dizemos que, sendo a realidade chinesa actual algo contraditória,
onde coexistem um sistema económico com relações de produção de natureza
assumidamente capitalistas e com tão grande abrangência e um poder político que
afirma e se presume ter em vista a construção de uma sociedade socialista, isto
provoca sérias interrogações quanto ao futuro a muitos analistas, que não
descortinam como poderá ser superada esta contradição.
Se
o sistema económico é, actualmente, essencialmente capitalista, de acordo com a teoria marxista, a superestrutura
estadual correspondente só poderia ser também de natureza capitalista. E,
portanto, o actual poder do Estado chinês seria uma superestrutura
contra-natura, e, por isso, condenada a desaparecer. E, prosseguindo nesta via
de raciocínio, constatando-se que o Estado chinês parece manter-se sólido,
porventura devêssemos concluir que então isso significaria que já não é
propriamente um Estado obediente a um projecto socialista, tendo-se antes
transformado num Estado capitalista.
Não
devemos, porém, deixar-nos seduzir por explicações tão lineares da realidade,
porque contra-natura foi a própria revolução chinesa logo no seu início, pela
sua precocidade histórica; e o próprio Marx não chegou a ter oportunidade de
conhecer estas realidades híbridas de revoluções ditas proletárias em países em
que mal existia ainda uma classe operária.
Isto
não significa que se deva subvalorizar a hipótese de uma deriva da China para
um sistema de capitalismo integral.
O
capitalismo tem hoje absolutas interdependências no plano internacional. Aquilo
que pode actuar de forma a provocar essa deriva não é só a existência de uma
próspera, rica e muito vasta classe de capitalistas internos; é também a sua
íntima conexão com os grandes centros do poder económico e financeiro
capitalista em todo o mundo.
Uma
questão que a realidade chinesa nos leva a colocar é o que é que o poder do
Estado chinês considerou serem riscos das reformas. No limite, talvez nos
atrevamos a questionar, ao menos para efeitos especulativos, se os dirigentes
chineses consideraram a hipótese de uma deriva para o capitalismo como um
risco, ou como um resultado absolutamente indesejado. Não terão porventura
considerado que, mesmo no caso de perderem o controlo do processo reformista,
desde que conseguissem propulsar um grande avanço no desenvolvimento económico,
isso seria só por si um considerável progresso para o país e um enorme
benefício para o povo?
A
esta questão, arriscámos responder que Deng Xiaoping e os demais pioneiros na
promoção das reformas provavelmente não terão admitido um tal resultado como
bom; o seu passado e a sua arraigada ideologia pensamos que não lhes
consentiriam a admissão dele. Mas que se poderá dizer dos actuais dirigentes?
Em
todo o caso, é um facto que, se a China se transformasse num país capitalista,
com o enorme desenvolvimento económico de que agora dispõe, teria condições
para que nela se desenvolvesse um sistema de produção socialista. Condições que
não tinha quando do início da revolução.
Nas
suas obras fucrais, Marx diz e repete que, no processo histórico-económico, o
capitalismo foi e é um poderosíssimo factor de desenvolvimento; é explorador,
sim, mas tem capacidade para fazer crescer a economia.
O
que não é, é eterno. À medida que a taxa média de lucro for diminuindo, irá
esgotando as suas virtualidades, ao mesmo tempo que a economia se irá
socializando, até que terá que dar lugar a um novo sistema que integre todos os
cidadãos numa nova organização produtiva com novas relações de produção.
A
China chegou a níveis de desenvolvimento tais que tem já a maior economia do
mundo, sendo certo, contudo, que, tendo em conta a sua enorme população, o seu
rendimento per capita é ainda
bastante inferior ao de outros países desenvolvidos.
Do
ponto de vista de quem anseia por um socialismo real, é evidente que seria
doloroso vê-la diluir-se na paranóia consumista que tanto agrada aos mercados,
esquecendo os valores da libertação e da realização pessoal de todos e cada um.
Está
a China em condições de controlar o processo político e económico em curso?
Disporá o poder político dos meios necessários a esse fim?
VII
Já
dissemos e insistimos que, de acordo com a teoria marxista, não era possível
fazer uma revolução socialista num país com uma economia maioritariamente
agrária, com uma indústria meramente incipiente.
Mas
o problema não seria só o do atraso económico em si, mas a própria natureza das
relações de classe existentes num país atrasado.
Porque
o que Marx sustenta é que quem tem condições para isso e deve dirigir uma
revolução socialista é o operariado, a classe oprimida e explorada que
constitui a maioria da população activa de uma sociedade capitalista; mas só
numa sociedade de capitalismo desenvolvido é que a classe operária atinge uma
dimensão e uma aprendizagem ideológica e de luta política, bem como um grau de
organização, que lhe conferem a força que lhe permite desempenhar esse papel de
condutora social e política.
Como
vimos já, os receios dos dirigentes soviéticos quando puseram em prática a sua
N.E.P. – Nova Economia Política - era o de que esta gerasse uma classe
capitalista poderosa, contrária à revolução. Porém, quer a N.E.P. quer o
processo de reformas da economia chinesa actual não criam apenas capitalistas,
criam, em simultâneo, grandes massas de operários, porque não há capitalismo
sem trabalhadores.
Trabalhadores
que são os actores imprescindíveis na instauração do socialismo, de acordo com
a teoria marxista.
Daqui
se infere que também na China actual os operários têm um enorme potencial de
intervenção na vida política e nas decisões relativas aos rumos a seguir. A
questão maior é a de saber se têm condições para se enquadrarem, e se
efectivamente se enquadram, nas organizações que lhes são próprias, como sejam
os sindicatos, e bem assim, se têm meios para assegurar a fidelidade das forças
armadas ao regime, bem como para impedir a emergência de meios de informação
hostis, nacionais ou externos.
Para
que se possa calcular a probabilidade de a China, atingido que seja um nível de
desenvolvimento económico capaz de satisfazer todas as necessidades essenciais
da população, possa transitar das relações de produção próprias do capitalismo
para relações de produção socialistas, é imprescindível saber como se passam as
coisas no interior do próprio partido dirigente.
Um
partido comunista é, por natureza, um partido operário que tem por finalidade
assumida a defesa da causa operária. E, sendo assim, tem que ser composto
maioritariamente por trabalhadores por conta de outrem, porque ninguém será
capaz de defender os seus interesses melhor do que eles próprios.
Daí
que a questão que sobreleva na análise da situação chinesa actual e futura é a
de saber quem são actualmente os membros do partido: são trabalhadores? são
funcionários do próprio partido? são os dirigentes das grandes empresas? são
intelectuais? E, se existem militantes de todos estes sectores sociais, em que
proporção é que isso acontece?
Notícias
que nos chegam dão-nos conta de que a distribuição da riqueza na China é muito
desigual. A oferta de mão-de-obra é muito elevada, e isso provoca a existência
de salários muito baixos, enquanto as grandes empresas acumulam lucros
substanciais.
Vai-se
alargando, entretanto, uma camada social sem carências assinaláveis e com uma
propensão consumista, aparentemente alheia a preocupações ideológicas.
Há
quem garanta que actualmente a inscrição de um jovem no partido comunista, em
vez de ter motivação ideológica, tem finalidade económica, visa alcançar um
estatuto social (Il était une foi la
Chine, José Frèches, pág. 363). Será exactamente assim? Oportunistas há-os
em toda a parte; mas poder-se-á generalizar uma afirmação destas? Com base em
quê? Só dados estatísticos fiáveis nos poderiam ajudar a concluir.
Saliente-se,
porém, a tal propósito, que não basta que o partido dirigente conte entre os
seus militantes com uma sólida e generalizada assunção ideológica de índole
marxista. Importaria saber qual é a ideologia dominante na própria sociedade
chinesa.
Esta
matéria exige mais larga indagação, mas não é muita a informação que nos chega
sobre ela.
VIII
No
livro Il Était une Fois la Chine, de
José Frèches, publicado em 2004, já aqui citado, lê-se, na pág. 362, que a
situação na China é uma situação «única no seu género onde coexistem o
capitalismo selvagem e o comunismo de Estado. O papel deste parece limitado às
suas funções ordenadoras (justiça, polícia e defesa)».
Quanto
à existência de um capitalismo selvagem, é uma afirmação dificilmente
aceitável. O sector empresarial do Estado é ainda muito extenso; a China tem os
quatro bancos com mais activos do mundo; a concessão de crédito às empresas
privadas é controlada pelo Estado; existe planeamento centralizado; a
propriedade dos solos e dos subsolos é colectiva; as empresas dos sectores
fundamentais para a economia são públicas, tal como as infra-estruturas do
país; o controlo da moeda é também estatal (cf. A China é Capitalista? de Rémy Herrera e Zhiming Leong).
A
afirmação de que existe na China um “comunismo de Estado” é dificilmente
aceitável; antes de mais, porque esta expressão é contraditória nos seus
próprios termos. Para Marx e os seus continuadores, o comunismo é uma sociedade
sem Estado, ou, para que melhor se perceba, sem o Estado tal como os marxistas
o entendem. Na sua perspectiva, o Estado, tal como existe nos países
capitalistas, é sobretudo um poder dotado de meios de repressão (exército,
polícia e outras forças de segurança) que tem por função última impor o domínio
da classe capitalista sobre os trabalhadores. Daí que o comunismo só possa vir
um dia a implantar-se desde que previamente seja eliminado o Estado, podendo
então emergir uma sociedade sem classes.
Os
poderes que José Frèches atribui ao Estado na China (justiça, polícia e defesa)
são exactamente os que o Marxismo considera próprios do Estado capitalista, e
que serão previsivelmente inexistentes numa sociedade comunista.
Partindo
do mais elementar, no mundo existem partidos comunistas ou análogos, muitos
deles tendo dirigido já, ou estando a dirigir actualmente, alguns países. Tais
partidos têm como meta vir a implantar sociedades comunistas. Porém, na sua
perspectiva, uma sociedade comunista, capaz de satisfazer todas as necessidades
de todos os cidadãos, exige que se atinjam primeiro altos graus de
desenvolvimento económico, que hoje em dia ainda não foram atingidos em país
nenhum. O primeiro passo para aí se chegar é, na perspectiva desses partidos,
começar por instaurar sociedades socialistas, com relações de produção
socializadas, que serão já capazes de estabelecer direitos sociais igualitários
e, para que isso seja possível, retirar o poder e gradualmente fazer com que
deixe de existir uma classe capitalista.
No
mundo actual não há, portanto, países comunistas, ninguém se gabou, até ao
presente, de ter chegado a esse ponto; assim como não há Estados comunistas, porque o comunismo pressupõe a abolição do
Estado enquanto poder repressivo.
Quando
muito, há Estados socialistas. Isto, porque sustenta o marxismo que se, num
país capitalista, o Estado serve para subjugar os trabalhadores, então também
pode servir, num país socialista, para eliminar o poder e a própria existência
da classe capitalista, permitindo assim que se atinja uma sociedade sem classes
sociais; condição esta, como se disse, para atingir o comunismo.
Daqui
decorre que na China não existe um comunismo de Estado.
Será então a China um
país socialista?
Rémy Herrera e Zhiming
Leong afirmam que sim, afirmação que não é aceite por outros autores.
É evidente que, se, para
Marx, uma sociedade socialista será aquela que sucederá a uma sociedade capitalista
já superdesenvolvida, que terá uma classe operária numerosa e com grande
capacidade de acção, em que as relações de produção capitalistas já foram
ultrapassadas ou só delas restam resquícios sem expressão relevante na
economia, então a sociedade chinesa não encaixa perfeitamente neste modelo.
Só que isso em nada a
desmerece.
O “demérito”, se é que
assim se pode chamar, residiu apenas na eclosão da Revolução de forma tão
precoce em relação ao que pressupunha a teoria marxista.
Com a instauração do
poder revolucionário, quis-se pôr fim ao feudalismo, mas era impossível queimar
uma etapa capitalista e saltar de imediato para o socialismo.
Daí só poderia resultar
um sistema atípico situado algures entre a realidade que eram as forças
produtivas feudais que subsistiam e o ideal socialista a atingir. Atipicidade
esta de modo nenhum estática, mas antes dinâmica, sucessivamente reconfigurada,
ganhando progressivamente contornos socialistas na razão directa do crescimento
das forças produtivas, mas na qual, com as reformas impulsionadas mais tarde por
Deng Xiao Ping, foram também enxertadas relações de produção capitalistas.
Actualmente, o sistema
vigente na China já tem muito de socialista, mas ainda necessita também das
relações de produção próprias do capitalismo que nele permanecem para
desenvolver as forças produtivas.
Neste novo contexto, o sistema
poderá oscilar nos seus contornos capitalistas/socialistas em função dos
interesses e forças contrapostos dos capitalistas e dos trabalhadores. Ou seja,
da luta de classes.
Já
questionamos que poder efectivo terá exactamente a classe operária nos órgãos
dirigentes da China nos dias de hoje. Mas é evidente que é igualmente
necessário investigar que poder efectivo terá a classe capitalista nos mesmos
órgãos.
Não
esqueçamos, entretanto, que o mundo empresarial privado chinês conta com um
outro vector de força de enorme importância: a densa rede de relações com os
meios empresariais de todo o mundo.
IX
Quem
quer que se interesse e anseie por ver resolvidos os grandes problemas da
Humanidade não pode deixar de preocupar-se com o desenrolar da situação
chinesa. Essa preocupação e os anseios de cada um não podem, porém, interferir
ou sobrepor-se a uma análise serena e cuidada da realidade que tenha em conta
todos os factores perceptíveis a ter em conta, mas que não ignore que é muita a
informação que nos escapa.
A
imagem do Estado chinês é semelhante à de um Estado socialista, mas também o
era a do Estado soviético, que soçobrou estrondosamente.
Esta
lição da prática, grande critério de verdade, é rica de ensinamentos que os
dirigentes chineses podem assimilar, adoptando, em consequência, os antídotos
que julguem adequados para que o mesmo não aconteça na China; antídotos, porém,
cuja infalibilidade ninguém pode garantir.
As
técnicas de manipulação das massas populares atingem hoje em dia expoentes
temíveis. É espantosa e desesperante a facilidade com que se mobilizam
multidões para acções políticas radicalmente contrárias aos seus próprios
interesses. Os exemplos dos E.U.A., do Brasil, da Itália, demonstram-no copiosamente.
As
guerras comerciais, os bloqueios, as “sanções” económicas condicionam também,
por vezes drasticamente, a concretização das opções políticas e sociais dos
Estados por elas atingidos.
Já
neste texto dissemos que tanto a revolução russa de 1917, que esteve na origem
da União Soviética, como a chinesa, sofreram graves distorções devido ao facto
de terem ocorrido numa fase de desenvolvimento incipiente do capitalismo e não
num estádio de grande desenvolvimento do capitalismo nos respectivos Estados, como
Marx julgava oportuno.
Mas
não foi só neste aspecto crucial que estas revoluções não tiveram em conta as
teses marxistas.
Ainda
no séc. XIX, Marx participou activamente na criação e na actividade da
Associação Internacional dos Trabalhadores que pretendia congregar os
movimentos operários de todo o mundo, uni-los na luta contra o capitalismo.
Esta união afigurava-se, a ele e a todos os participantes, indispensável,
porque uma revolução num só país fatalmente ficaria à mercê das grandes
potências capitalistas, que a sitiariam, sabotá-la-iam, difamá-la-iam por todos
os meios ao seu alcance, e a esmagariam pela força, se tal se mostrasse
necessário – como, entretanto, a história veio a demonstrar.
Todavia,
tanto a dimensão da União Soviética como a da China, criaram a convicção nos
respectivos dirigentes revolucionários de que era possível erigir o socialismo
apenas nos seus países, até porque se previa que outros países viessem a
enveredar pelo socialismo. E isso teve graves consequências, e criou enormes
condicionamentos e entraves. Desde logo, implicou e implica um exponencial
investimento na área militar e dos serviços secretos e obstáculos sérios ao
comércio internacional, com as consequentes limitações ao crescimento
económico.
Numa
avaliação global, parece indiscutível que nos processos revolucionários que
vimos referindo, a análise científica em que Marx se empenhou foi ultrapassada
pelo empenho e pelo voluntarismo, pelo desespero de resgatar da miséria quanto
antes as classes exploradas.
Esta
afirmação não leva consigo nenhum subentendimento de que os revolucionários
foram culpados do que quer que seja, ou de que Marx é que tinha razão. Uma
análise isenta de subjectivismos tem que incidir sobre as causas materiais
desta dessincronia entre o auge da acção dos movimentos da classe operária e o
pico do desenvolvimento capitalista; análise que necessariamente se tem que
espraiar por inúmeras questões a resolver.
Desde
logo, sendo muito desigual o desenvolvimento económico no mundo, os picos de
desenvolvimento dos diferentes países não são, nem de longe, contemporâneos; e,
pela mesma razão, dificilmente haverá simultaneidade nos picos das
movimentações operárias em todos os países ou iguais ou similares graus da sua
organização e participação popular.
Entretanto,
voltando à China de hoje, convém salientar, que, para além do seu próprio
desenvolvimento, vem actuando consistentemente como promotora do
desenvolvimento de muitos países de economia mais débil, como acontece com os
africanos. Isso contribui substancialmente para a redução do desnível entre
países ricos e países pobres.
X
As
considerações que, sob este título, tenho vindo a fazer, já as desenvolvi, em
razoável medida, no pequeno livro …Mas a
história não acaba aqui, publicado em 1991 e no livro de ficção Relatório ao Comité Central, publicado
em 2013.
Num
artigo publicado no Diário de Notícias
de 5/5/2018, com o título Os Regressos de
Marx, o conhecido filósofo e comentador Viriato Soromenho Marques mostra-se
concordante com a análise que há muito sustento quanto à precocidade das
revoluções russa e chinesa quando confrontadas com a teoria marxista,
dizendo-nos que, para Marx, “a revolução socialista só poderia iniciar-se em
países de capitalismo avançado…” “…e essa revolução deveria ser internacional”.
Acrescenta,
porém, que o posterior recurso, tanto na U.R.S.S. como na China, ao retorno das
relações de produção capitalistas e à ‘teologia do mercado’ “não seria possível
sem o reconhecimento universal do trágico falhanço das tiranias de Estaline e
Mao Tsé-tung…”.
Esta
subjectivação da causa daquilo que aconteceu na China e na U.R.S.S. é que nos
parece desconforme com uma boa metodologia de análise e mesmo com o que o
próprio autor do artigo nele escreve. Pois, se afirma que as revoluções se
iniciaram em fases de capitalismo muito incipiente, e isso tornava impossível
instaurar o socialismo, então, ainda que Estaline e Mao Tsé-tung fossem o menos
tirânicos que imaginar se possa, as respectivas revoluções estariam sempre
confrontadas com obstáculos muito difíceis de ultrapassar. As causas dessas
dificuldades são muito claramente objectivas; o subjectivismo que as determinou
é anterior às “tiranias” a que se refere Viriato S. Marques, e ocorreu no acto
originário das revoluções; na decisão de as desencadear nas respectivas
circunstâncias temporais de estádio de desenvolvimento económico e de
isolamento internacional.
Viriato
S. Marques conclui o seu artigo afirmando, entre o mais, que “Marx e a sua obra
regressarão, certamente, ao plural e urgente debate sobre os futuros
possíveis”. Mostra-se, porém, desejoso de que não venha “ a ser invocado como
messiânico profeta insurrecional”.
Sobre
esta questão, porém, mais uma vez, é evidente que se impõe aos seguidores do
ideal socialista evitar voluntarismos e actuações precipitadas e ter sempre em
conta as condições materiais existentes e uma perspectiva geoestratégica
adequada. As revoluções passadas são experiências que têm que ser estudadas e
assimiladas, para bem se perceber o que correu bem, ou mal, e porquê,
possibilitando-se assim aperfeiçoar actuações futuras.
Quanto
àquilo que nos reserva o futuro, a nós ou aos vindouros, o que mais importa é
seguir de perto a evolução do capitalismo, e incluir nesse estudo atento a
previsão que Marx e outros nos apresentam a tal respeito.
Crucial
é saber o mais atempadamente possível para onde vai, e até onde vai, o
capitalismo.
Os
marxistas, mas não só, sintetizando os ensinamentos da História, concluem que
os sistemas político-económicos não são eternos. Não o foram o comunitarismo
primitivo, o esclavagismo, o feudalismo, e também não o será o capitalismo.
Capitalismo que, desde que emergiu no mundo, se tem metamorfoseado
sucessivamente, de forma tal que é hoje difícil identificá-lo com o que era na sua
origem. Muitos vêem nisto uma grande capacidade de se reinventar, o que o
capacitaria para uma vigência perene.
Mas
uma análise mais atenta e profunda a esta evolução revela que a sua sucessiva
reinvenção teve e tem como draconiana propulsora a ameaçadora diminuição da
margem média de lucro, tal como Marx há muito tempo previu. Esta realidade é
bem visível. Os bancos privados vivem já na dependência do Estado; os custos do
factor de produção mão-de-obra (formação escolar, alimentação, vestuário,
transportes, alojamento) na sua maioria não são suportados pela entidade
patronal, que paga salários cada vez mais baixos por funções cada vez mais
qualificadas. E, mesmo assim, as falências aumentam substancialmente. Em cada
crise económica, cerceiam-se inúmeras regalias laborais e sociais, e em cada
fase de prosperidade recupera-se uma meia dúzia delas. O défice daí resultante
vai-se acumulando.
Na ordem do dia do
patronato está a redução e a própria eliminação das contribuições para a
Segurança Social. Esta agonia vai ter necessariamente um fim, e mal andará
quem, por preconceito ideológico, incutido e repisado pelos beneficiários do
sistema, desleixar a procura, o estudo desde já de propostas para a
reorganização das sociedades humanas em novos moldes economicamente viáveis,
garantes da sua subsistência.
XI
Também
no Diário de Notícias, na edição de 11/5/2018, um outro artigo foi publicado a
propósito do bicentenário do nascimento de Marx. Neste caso, da autoria do Sr.
Peter Singer, professor de bioética, nos Estados Unidos, e com o título Será Marx ainda relevante?
Diz-nos
o autor, logo de entrada:
“…com o colapso do comunismo na União
Soviética e nos seus satélites a influência de Marx caiu a pique”. “…não é
despropositado sugerir que as suas previsões foram desmentidas, as suas teorias
desacreditadas e as suas ideias se tornaram obsoletas”. “Mas o comunismo entrou
em colapso em grande parte porque, tal como praticado no bloco soviético e na
China de Mao, não conseguiu proporcionar às pessoas um padrão de vida que
pudesse competir com o da maioria das pessoas nas economias capitalistas.”
O
problema da análise das teorias políticas é sempre o de que, às conclusões a
que nos leva o trabalho e a metodologia científicos, procura sempre sobrepor-se
uma versão oposta gerada pela contra-propaganda. Se a linguagem científica tem
que ser a do rigor numa preocupação de clara definição de conceitos, já a da
contra-propaganda tem o propósito bem contrário de desvirtuamento de concepções
e deturpação semântica, tudo com a finalidade de aparentar a inconsistência das
asserções científicas.
Falar
do “colapso do comunismo na União Soviética” não é admissível em quem se arvora
professor universitário para credibilizar o seu escrito. Até hoje, o comunismo
não foi alcançado em nenhum país do mundo. Nenhum país se intitulou, até hoje,
comunista. A União Soviética autodenominava-se União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas. Muitas vezes foi interpelado o governo do país sobre se já tinha
sido atingido um nível de produção que permitisse a passagem a uma sociedade
comunista; e a resposta foi sempre a de que ainda não havia condições, nem se
sabia quando tal aconteceria, para instaurar um regime comunista.
Mas
o problema não era só esse; um regime comunista não tem um Estado com poder
armado de um Estado capitalista, ou mesmo socialista; segundo Marx, um país
comunista não tem mesmo Estado nenhum; e o Estado soviético, socialista, não
comunista, não podia desarmar-se e dissolver-se enquanto continuasse assediado
pelas potências capitalistas.
Já
nesta série de textos salientámos que tanto a revolução russa como a revolução
chinesa foram prematuras quando confrontadas com a teoria marxista. E, por isso,
não foram experiências adequadas a testar essa teoria. Daí que a falência de
qualquer dessas experiências não possa servir para a desacreditar. Se um físico
teorizar que a água gela a zero graus, e alguém, para o demonstrar, puser água
num ambiente com a temperatura de dez graus, é evidente que a água não gela,
mas isso não significa que seja falso que a água gele a zero graus.
De
tudo o que se explanou nesta série de artigos, resulta que não se pode meter no
mesmo saco a União Soviética e a “China de Mao”, como lhe chama Peter Singer. A
China do tempo de Mao continuou um país sobretudo agrário com um grau de
desenvolvimento muito baixo; a União Soviética, depois de uma fase inicial
difícil, enveredou por uma forte industrialização tornando-se uma grande
potência económica que proporcionava condições de vida melhores do que a
maioria dos países capitalistas. E, já agora, os “satélites” – como Peter
Singer, em linguagem de “guerra fria”, designa os países socialistas da Europa
de Leste – também tinham níveis e qualidade de vida não inferiores aos da União
Soviética e melhores do que os da maioria dos países não socialistas.
Espantoso
é que este professor de bioética
afirme que “Marx pensava que não existia uma natureza humana inerente ou biológica”, acrescentando que, segundo
Marx, “as pessoas na nova sociedade (socialista) serão muito diferentes daquilo
que eram no capitalismo”. A primeira destas afirmações é absolutamente
infundada; e é desmentida pela segunda.
Claro
que a mudança de sistema político-económico modifica as pessoas, mas no aspecto
sociológico, ou antropológico, porque a natureza das relações sociais se
modifica; e é condicionados pelo novo contexto social que os indivíduos passam
a pensar e agir. Quanto à sua natureza biológica, permanecerá seguramente
intacta: não lhes crescerá um rabo de macaco ou um bico de papagaio.
Curiosamente,
conclui Peter Singer o seu artigo aceitando, generosamente, que “a sua (de
Marx) teoria materialista da história, numa forma atenuada, tornou-se parte da
nossa compreensão de forças que determinam a direcção da sociedade humana”.
Interessante
seria que concluísse o seu artigo alvitrando para onde entende que nos levam
essas forças, porque o maior anseio do Homem, neste momento e sempre, é prever
o que lhe reserva o futuro.
XII
(conclusão)
Aos
historiadores bastará o estudo retrospectivo da obra de Marx e das experiências
sociais, económicas e políticas nela inspiradas para cumprirem a sua função de
as descreverem e comentarem nos livros de História.
Enquanto
isso, cumpre a todos os que se propõem encontrar soluções para os problemas com
que se debatem as sociedades modernas não desprezarem todos os contributos
analíticos e teóricos marxistas que possam contribuir para esse fim. Do que se
trata não é de mitificar o pensamento marxista, mas de utilizá-lo criticamente,
e sem esquecer uma das suas bases fundamentais: a sua análise económica.
Já
nesta série de textos nos referimos à tese de Marx sobre a diminuição
tendencial da taxa média de lucro.
Se
percorrermos, porém, os artigos de jornal sobre a teoria de Marx que foram
sendo publicados nos diferentes órgãos de comunicação social, a propósito do
bi-centenário do seu nascimento, incluindo os dois que comentámos nos textos
com os nºs. X e XI, quase não se vê quem se refira a esta questão de particular
importância.
Ora,
é facilmente perceptível, e mesmo evidente, que, a confirmar-se esta tese de
Marx – e todos os indícios e dados estatísticos vão nesse sentido – a prazo,
extinguir-se-á a margem de lucro das empresas. E isto é o mesmo que dizer que a
mola real do funcionamento da sociedade capitalista desaparecerá; e, em
consequência, o sistema económico corresponde desmoronar-se-á.
Tendo
em conta a actual globalização da economia, isto pode corresponder a um colapso
generalizado do sistema.
Não
falta quem, erradamente, impute a Marx uma visão mecânica da evolução do
processo histórico, de tal forma que o desenvolvimento inevitável da luta de
classes conduziria infalivelmente à passagem do capitalismo ao socialismo.
Mas,
como bem se percebe, a dar-se o colapso do sistema económico e a sua
irremediabilidade, por lhe faltar o lucro que o estimula, mesmo que não haja
forças do trabalho suficientemente organizadas para tomarem o poder e
instituírem o socialismo, a verdade é que se imporá a toda a sociedade a
instauração de um novo sistema de produção; e tal sistema não poderá basear-se
nem contar com o élan dinamizador do
lucro. Isto é: será impossível instaurar um sistema económico em que seja
protagonista a iniciativa privada, e só restará a alternativa de uma economia
socializada.
Estas
reflexões parecem-nos de ter em conta nesta fase histórica em que as
organizações operárias aparentam ter menos capacidade de intervenção na luta
política.
Todavia,
não é de prever que este estado de coisas se mantenha. O definhamento do
capitalismo irá arrastar-se; as crises que o irão atingindo terão como vítimas
cada vez mais trabalhadores, que não terão outro recurso senão dinamizar-se.
A
ideia do socialismo não está tão esquecida como muitos supõem. Nos próprios
Estados Unidos da América, potência ainda muito forte, mas em indisfarçável
declínio, onde, a julgar pelas notícias que habitualmente nos chegam, só
haveria na cena política o Partido Democrata e o Partido Republicano, a própria
Casa Branca, sede do governo, publicou, em Novembro de 2018, um relatório sob a
epígrafe “O custo de oportunidade do socialismo”, no qual se lê que,
“coincidindo com o 200º aniversário do nascimento de Karl Marx, o socialismo
está a regressar ao discurso político. Propostas políticas auto-proclamadas
socialistas estão a ganhar apoio no Congresso e junto dos eleitores mais
jovens». Como se imagina, o resto do texto é a zurzir no socialismo.
Mas,
é um facto que um estudo da YouGov de Novembro de 2018 revelou que 51% dos
norte-americanos entre os 21 e os 29 anos preferiam viver numa sociedade
«socialista ou comunista».
Uma
outra sondagem, da Gallup, teve como conclusão que a percentagem de jovens com
boa opinião sobre o capitalismo, caiu de 68% em 2010, para 45% em 2018; e o
número de greves triplicou de 2017 para 2018.
Tudo
o que nesta série de textos escrevemos nos leva a concluir que a leitura das
obras de Marx, entre outras, continua a ser imprescindível para todos os que
procuram compreender os mecanismos, nomeadamente os de natureza económica, de
funcionamento da sociedade em que vivemos.
* Estas reflexões foram
publicadas sob a forma de doze artigos no jornal Terras do Ave por ocasião do bicentenário do nascimento de Karl
Marx, em 2018.
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