…
Mas a História não acaba aqui
Romeu Cunha Reis (ensaio editado em 1991)
I
Falar do socialismo nos
dias de hoje é tarefa que tem princípio, mas não tem fim. As questões que com
ele se prendem são de tal modo vastas, que se estendem da filosofia à história,
à economia, à sociologia, às várias ciências, além da política.
Em «Reflexões sobre a
Perestroica», livro publicado dois anos atrás, analisaram-se diversos problemas
do socialismo no tempo presente.
Foi o princípio de um trabalho
que é preciso prosseguir. Nele foi preocupação divulgar elementos fundamentais
para a análise da situação política internacional, com especial incidência no
processo de reestruturação em curso na União Soviética.
Escrevemos então que não
podiam confundir-se com a perestroica
certos processos de regressão que já então ocorriam em países da Europa
Oriental, nomeadamente na Polónia e na Hungria.
De então para cá,
processos involutivos semelhantes verificaram-se noutros países do Pacto de
Varsóvia.
O fenómeno, assim
avolumado, forneceu um farto pretexto aos órgãos de comunicação social do mundo
ocidental para sentenciarem a morte definitiva do socialismo (o fim da utopia –
como acham distinto dizer). E este veredicto é agora meticulosamente repetido,
quer por aqueles meios de comunicação, quer por todos os servis e acríticos
repetidores de ideias feitas, mais mercenários uns, mais ingénuos outros.
A barragem de propaganda
é tão intensa, tão peremptória, tão coactiva e inibidora do acto de pensar, que
qualquer homem ou mulher de mediano bom senso não pode deixar de reconhecer a
necessidade de lhe contrapor uma atitude inteligente, o estudo atento, a
ponderação.
As considerações que se
seguem são justamente uma contribuição individual para uma tarefa que é de todos
quantos acreditam no socialismo, seja como forma de resolução dos seus
problemas materiais, seja como realização dos seus preceitos morais, seja,
enfim, como etapa histórica que necessariamente um dia se iniciará.
«
Será o socialismo uma
utopia? Serão os acontecimentos na Europa Oriental os factos que só por si
revelem o seu carácter utópico, a sua inviabilidade prática e a perenidade do
capitalismo?
Para que se possa dar uma
resposta clara a estas interrogações, é preciso começar por esclarecer que o
socialismo não é, nem foi, entendido de igual modo por todos os pensadores e em
todos os tempos.
A idealização de uma
sociedade igualitária, não só no que se refere à identidade dos direitos de
cada um, mas também à das suas condições de vida, surgiu com visível expressão
nos princípios do século XIX.
Foi resultado do
desencanto em relação à sociedade onde o capitalismo despontava (nomeadamente a
francesa) à sombra de uma ideologia que proclamava o triunfo da razão, a
liberdade a igualdade e a fraternidade.
«…Quando a revolução
francesa pôs em obra esta sociedade racional e este estado da razão, resultou
que as instituições, por mais racionais que fossem em comparação com as
antigas, distavam bastante da razão absoluta» (in Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, F. Engels).
«A libertação da
propriedade das peias feudais, que agora se transformava em realidade,
resultava ser, para o pequeno burguês e o pequeno camponês, a liberdade de
vender a esses mesmos senhores poderosos a sua pequena propriedade, aproveitada
pela desenvolta competência do grande capital e da grande propriedade
terratenente; com que se convertia na «libertação» do pequeno burguês e do
pequeno camponês de toda a propriedade… A indústria sobre bases capitalistas
converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da
sociedade» (ibidem).
A realidade era, pois,
muito distante dos ideais proclamados pelos teorizadores da revolução e
caracterizava-se por fortes injustiças sociais.
Em tais circunstâncias,
era pouco convincente falarem de fraternidade entre exploradores e explorados,
de igualdade entre pobres e ricos.
Neste contexto surgiram os
primeiros destacados teorizadores de uma nova forma de sociedade – a socialista
– que, essa sim, teria por suprema norma a igualdade real, não só de direitos,
mas de condições para a sua realização. Foram eles, entre outros, Saint-Simon,
Fourier, Robert Owen.
As suas ideias são o
reflexo das contradições que o sistema capitalista de produção começou a
revelar logo à nascença. Porém, estes pensadores não estavam em condições de
compreender que só o desenvolvimento acentuado das forças produtivas poderia
criar as condições para a passagem a um novo tipo de sociedade.
Nessa altura a ciência
histórica não tinha ainda atingido o desenvolvimento suficiente que lhes
permitisse compreender que os sistemas de produção correspondentes às diversas
fases da evolução das sociedades não podem impor-se por livre opção e vontade,
estando, muito ao contrário, dependentes do grau de desenvolvimento das forças
produtivas.
Os primeiros socialistas
acreditavam ser possível criar sociedades socialistas desde que se convencessem
os homens a optar por essa solução.
As condições materiais
necessárias a essa criação, bem como à mobilização de vontades capaz de a
proporcionar, eram questões que escapavam à sua análise.
«As suas teorias
incipientes não fazem mais do que reflectir o estado incipiente da produção
capitalista, a incipiente condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a
solução dos problemas sociais, latente todavia nas condições económicas pouco
desenvolvidas da época…»
«…Tratava-se, por isso,
de descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social, para implantá-lo a
partir de fora, por meio da propaganda e, se possível, com o exemplo, mediante
experiências que servissem de modelo. Estes novos sistemas sociais nasciam
condenados a mover-se no reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos
foram, mais tinham que degenerar em puras fantasias» (F. Engels, obra citada).
Particularmente
ilustrativos desta atitude são os esforços frustrados de Robert Owen para o
estabelecimento e propagação das suas colónias comunitárias, autênticas bolsas
socialistas incrustadas na dominante sociedade burguesa, e a sua crença de que
poderia convencer os governantes de então a aceitarem os seus projectos de organização
social.
Quanto a estas
elaborações teóricas dos pioneiros do socialismo, não restam hoje dúvidas do
seu carácter erróneo, conclusão esta reforçada pelo facto de as soluções
apontadas pretenderem ter começo imediato de aplicação.
O seu irrealismo, porém,
foi notado ainda no século passado pelos clássicos do marxismo, entre eles
Engels, de quem citámos diversos passos.
Hoje, porém, a rede da
informação dominante aponta como utópicos os próprios marxistas e como utópico,
também, o socialismo, para agora e para todo o sempre, erigindo o capitalismo
em sistema óptimo e eterno.
Apreciaremos de seguida a
validade dos seus argumentos.
II
Nestes dias de
predominante comunicação audiovisual em que vivemos, mais do que de argumentos,
a propaganda nutre-se sobretudo de imagens impressivas.
O espectáculo de grandes
movimentos de massas, nos países que viveram décadas em «democracia popular»,
exorcizando os símbolos socialistas e comunistas, perseguindo ex-dirigentes do
Estado, pugnando, por vezes, por modelos «ocidentais» de viver, é de tal modo
sugestivo que dificilmente pode ser contrabalançado por qualquer isenta
interpretação da realidade. Então não se está mesmo a ver que o socialismo não
conseguiu dar às pessoas uma vida feliz? Não se está mesmo a ver que não havia
liberdade? Não se está mesmo a ver que não havia progresso económico
suficiente? Não se está mesmo a ver que o socialismo marxista também é uma
utopia, tal como aqueles idealizados modelos de socialismo mais incipientes que
o precederam?
Serão as coisas assim
inequívocas, como as imagens nos querem mostrar?
Já que parece estarmos em
tempos de exorcismos, antes de mais, esconjuremos os fantasmas.
O socialismo é uma
utopia? E uma utopia, que é que isso é?
Se nos quiséssemos
contentar com uma simples definição de dicionário, teríamos que utopia é uma
«concepção impossível de realizar-se», uma «fantasia».
Para o que nos importa,
que são os projectos de modelos de sociedade, utópicos seriam aqueles projectos
que não se poderiam aplicar na prática, nem mesmo de forma aproximada.
Se se projecta
concretizar um modelo de sociedade, é porque ele não existe ainda; é porque
queremos mudar o modelo existente; e é porque é possível mudá-lo.
De momento,
contentemo-nos com esta certeza que, parecendo um muito modesto ganho de causa,
tem, no entanto, um alcance não negligenciável.
Nos primórdios da vida do
Homem em sociedade, em que formas de organização como a comunitária, por
exemplo, se mantinham inalteradas ao longo de milhares de anos e em que não
existia a História como ciência para permitir ao Homem compreender a
transitoriedade das formações sociais, era impossível a um ser humano conceber
a hipótese de mudança para uma sociedade diferente.
Ser-lhe-ia impossível
imaginar que poderia vir a existir uma sociedade como a medieval, com grandes
senhores terratenentes e seus servos, com enormes castelos, grandes barcas,
cavaleiros vestidos de armaduras, moinhos, teares manuais.
Por sua vez, o homem
medieval estava condicionado do mesmo modo. O desenvolvimento das forças
produtivas era lento, o sistema manteve-se praticamente inalterado por vários
séculos. A ciência histórica continuava praticamente inexistente. Não só ficava
por uma atitude narrativa, sobretudo dos feitos de certas personagens, como não
dispunha de suficiente informação em relação a épocas anteriores à própria
Idade Média que possibilitassem a consciência da diferença e das mudanças
ocorridas.
O condicionamento mental
assim criado igualmente induzia a convicção da inalterabilidade do sistema.
Seria então imaginável
que viesse a existir uma sociedade como a capitalista actualmente dominante?
É evidente que não.
Isto significa que o modo
feudal era impensável para o homem da comunidade primitiva, como o era o modelo
capitalista para o homem feudal. Mas não quer dizer só isto; quer dizer também
que, se o modelo feudal e o capitalista eram impensáveis para cada um deles,
estavam mais longe da consciência humana do que a própria utopia, porque esta é,
pelo menos, imaginável.
… E, entretanto, quer o
sistema feudal quer o capitalista, cada um a seu tempo, tornaram-se pensáveis
e, mais do que isso, transformaram-se em realidades.
Com as considerações
precedentes ficamos a compreender o carácter mistificador do conceito de utopia
por aí vendido a preço de promoção, só compreensível para uma realidade
impossível, que parasse no tempo, e julgamos ter evidenciado o seu carácter
relativo, contraditório, histórico.
Como é evidente, não se
pretende dizer com isto que não seja possível a utopia absoluta. Claro que quem
quer pode dedica-se a exercícios de fantasia, à divagação sem limites e criar o
imaginário de uma sociedade de ficção.
Mas, se pretendermos
produzir considerações úteis sobre a sociedade em que vivemos e as suas
perspectivas e prognósticos de evolução, necessariamente teremos de convir em
deixar tais formas de utopia para os domínios do literário, por extravasarem a
economia do discurso político.
A partir da análise
histórico-política, as únicas qualificações legítimas para qualquer elaboração
teórica que preveja a evolução futura da sociedade humana são as de certa ou
errada, possível ou impossível, provável ou improvável.
Qualificar o eventual
erro como utopia, poderá convir a alguns como exercício de propaganda que
subentende imputações de ingenuidade e impotência teórica, mas é atitude
reprovável em quem se proponha um estudo isento da realidade.
Todas estas considerações
foram suscitadas pela questão de saber se se poderão considerar utópicas também
as teses marxistas, à semelhança das dos teóricos do socialismo que
historicamente as precederam.
Comecemos por recordar
que o marxismo se reclama de uma atitude científica na análise dos fenómenos
sociais, como na de toda a realidade e no próprio processo de conhecimento.
No que se refere à
evolução futura da sociedade humana, a sua produção teórica só foi possível em
resultado da própria ascensão da História à categoria de ciência. As suas
conclusões derivam directamente da análise das forças que, no passado como no
presente, têm determinado e determinam as mudanças nos sistemas
económico-políticos.
Isto força-nos desde logo
à conclusão de que o método que defende, na era científica em que vivemos, é
sem dúvida, o mais correcto e avançado para quem se propõe a busca do
conhecimento.
Não basta, no entanto,
adoptar um método correcto de investigação; é preciso utiliza-lo correctamente.
…E mesmo assim…
É que, no âmbito das
áreas de conhecimento classicamente autonomizadas, há ciências também
classicamente taxadas de exactas e outras de não exactas.
Será que esta distinção é
assim tão linear?
Devemos concluir que as
ciências não exactas não permitem fazer previsão de fenómenos?
III
O ensino tradicional
habituou-nos a dividir as ciências em dois compartimentos estanques: dum lado
as ciências não exactas, do outro as exactas.
No primeiro lote,
incluíam-se aquelas em que não era possível a experimentação (por exemplo a
História, que, para o caso, nos interessa); no segundo, aquelas em que as
hipóteses formuladas podem ser testadas por experiências.
Entendia-se que, nestas
últimas, uma vez passada a prova da experiência, podiam-se formular leis
definitivas que nos assegurariam que as coisas sempre se passariam do mesmo
modo no futuro.
Inversamente, nas
ciências não exactas, impossível que seria experimentar, ou demonstrar, as
hipóteses formuladas, sempre seria impossível também descobrir as leis que
regem os fenómenos em análise. Mais do que isso, nesses domínios de procura do
conhecimento, tais leis nem sempre existiriam (como a da causalidade, por
exemplo), pelo que nos era vedada qualquer previsão do desencadear dos
fenómenos.
Este modo de ver as
coisas era, sem dúvida, influenciado pelo estado de desenvolvimento da ciência
em geral no momento em que começou a ser formulado.
Ressente-se, por outro
lado, do facto de as ciências como a economia, a história, a sociologia, a
linguística, não terem entrado ainda na sua etapa moderna. No caso da História,
mal se teria ultrapassado a sua concepção meramente narrativa, e aqueles poucos
que já o haviam feito, ficavam-se por análises interpretativas carregadas de
subjectivismo, fosse por darem importância exagerada ao papel das grandes
personalidades políticas, ou às características rácicas dos povos no desenrolar
dos acontecimentos, fosse por considerarem a História como «o desenvolvimento
do espírito universal no tempo» - como acontecia com Hegel.
Mas, este entendimento
ressente-se igualmente do facto de, então, em ciências como a física, ou a
química se propender a acreditar na infalibilidade das suas leis. Quem se
atreveria a pôr em causa o princípio de que «nada se perde, nada se cria, tudo
se transforma», estabelecido por Lavoisier? Quem ousaria fazê-lo em relação às
leis de Newton no domínio da gravitação? Quem pensaria contestar que uma
experiência científica pode sempre ser repetida em condições idênticas e
conduzir sempre aos mesmos resultados?
As convicções reinantes
faziam com que, de facto, houvesse a propensão para colocar os dois grupos de
ciências a que nos temos referido em campos extremados, e não nos surpreende a
inclinação para os dividir em áreas de estudo distintas.
O tempo, porém,
encarregou-se de os aproximar progressivamente.
Enquanto a economia se
enriquecia com contributos da matemática, da estatística e de outras ciências e
estabelecia também as suas leis; enquanto a história encontrava em si mesma o
seu «laboratório» e, valendo-se também de outras ciências, como a economia, a
sociologia, etc., ousava prever o futuro com maior ou menor margem de falibilidade;
a física moderna mostrava que partículas e antipartículas se podem criar em
simultâneo, ou neutralizar (e, portanto, algo se cria, algo se perde e nem tudo
se transforma); Einstein formulava a teoria da relatividade, estranhava a
trajectória do planeta Mercúrio e, com base nas conclusões da sua teoria,
corrigia as leis de Newton; a teoria quântica concluía que as leis da física
não exprimem certezas, mas sim altos graus de probabilidade e que o progresso
da ciência lhes vai introduzindo correcções e ajustamentos[1].
Hoje em dia, mercê da
interpenetração dos métodos de análise científica, as ciências tradicionais
deixaram de ser compartimentos estanques e funcionam de modo instrumental umas
em relação às outras. A história da economia ajuda a compreender as mudanças na
área económica, mas o desenvolvimento da economia permite-nos compreender a
evolução histórica; a história pode evidenciar aos físicos a falibilidade de
leis da física tidas como indiscutíveis no passado, mas o método do carbono 14
possibilita aos historiadores, por exemplo, demonstrar a fraude do sudário de
Turim e, de um modo geral, datar correctamente os monumentos e documentos do
passado. Os estudos de Darwin sobre a evolução das espécies fornecem, afinal,
conclusões fundamentais sobre a história do Homem.
Nesta época em que
vivemos, supomos não haver já quem, de mente formada, ouse negar à História a
sua qualidade de ciência. E, aceitá-la com tal estatuto implica que se
reconheça que nesta área de pesquisa do conhecimento é possível, não só
colecionar informações, como, a partir delas, formular hipóteses, teorias,
conclusões, que nos conduzem a formas de apreensão da realidade mais profundas
e mais perfeitas. Implica também que se admita a possibilidade de se chegar à
formulação de leis do desenvolvimento histórico.
Efectivamente, no actual
estado de progresso do saber, alguém terá dúvidas em aceitar, por exemplo, que
os sistemas económico-políticos nem permanecem imutáveis, nem sequer subsistem
no tempo indefinidamente?
Ora, como é evidente,
esta é uma lei que é proporcionada pela ciência histórica e que nos permite
prever o futuro, ao menos pela negativa – o que não é nada pouco porque, entre
outras coisas, nos dá a certeza do termo, a maior ou menor prazo, do sistema
capitalista actualmente dominante.
Achámos oportuno produzir
estas considerações porque, entre os que hoje se esforçam por demonstrar a
falência do socialismo, abundam os que argumentam com a impossibilidade de
prever o futuro a partir dos dados fornecidos pela História.
Não têm razão.
Nesta, como em todas as
ciências, do que se trata é tão só de verificar, caso a caso, até que ponto
cada lei foi ou não correctamente formulada, em que medida os dados da
experiência e o estudo da realidade presente e passada autorizam a aceitá-la
como verdadeira.
Exemplificando, supomos
que ninguém se lembrará de negar carácter científico à meteorologia, apenas
porque os seus profissionais nos anunciam Sol para dois dias depois e no dia em
causa somos surpreendidos por vento frio e aguaceiros. A previsão foi
cientificamente formulada, os cientistas estudaram antecipadamente a
localização e amplitude dos núcleos de altas e baixas pressões, das superfícies
frontais, da sua natureza e forma de deslocação, etc., e tiraram as suas
conclusões.
O que acontece é que em
ciências como a meteorologia, e outras, a realidade que se pretende estudar é
composta por múltiplos factores que se interinfluenciam, sendo impossível a sua
quantificação tão precisa quanto a que se consegue em tantos domínios da química
e da física. Mesmo quando as principais “forças” em presença podem ser
identificadas e avaliadas, o vector, a resultante da sua interacção, pode ser
afectada na sua direcção por outras das muitas “forças” intervenientes menores.
A falta de coincidência
entre o rumo dos acontecimentos previsto e o que na realidade se concretiza,
desenha-se no tempo como duas linhas que entre si formam um ângulo de desacerto
e que, partindo de um ponto comum, se vão progressivamente afastando.
A curto prazo, a
distância entre elas é pequena; a médio, será maior; a longo, pode ser enorme.
Uma atitude científica
correcta permite, porém, obstar à progressão do desvio, através da actualização
da análise e do prognóstico.
Se é assim nessas
ciências, porquê negar cientificidade às previsões no domínio da história, na
qual a estabilidade no tempo dos factores económicos que predominantemente lhe
imprimem o sentido lhes retira esse carácter tão contingente?
IV
Temos insistido na
possibilidade de fazer previsões no domínio da história.
Tal não significa, porém,
que se possa antever qual vai ser a actuação em pormenor de um ou outro homem público
nacional ou internacional sobre um dado problema concreto, ou mesmo qual vai
ser, na prática, a reacção dos próprios povos em tais ou tais circunstâncias.
No domínio da História, a
previsibilidade tem a sua própria história, a sua prática, e as conclusões que
esta nos permite situam-se no domínio da sucessão dos sistemas de produção,
motivada pelo desenvolvimento das forças produtivas.
Constata-se efectivamente
que, à medida que as forças produtivas se modernizam e desenvolvem, o tipo de
relações económicas e sociais que se estabelecem entre os homens tende a modificar-se.
Dizia Marx que «na
produção social da sua existência, os homens entram em relações determinadas,
necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que
correspondem a um dado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas
materiais», acrescentando que «o conjunto destas relações de produção constitui
a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura
jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência
social».
A modernização das forças
produtivas tem sido constante e na época actual regista uma aceleração
espantosa resultante da aplicação prática de sempre novas descobertas
científicas.
Este facto permite-nos
prever mudanças nas relações de produção a produzirem-se no futuro. Impossível,
porém, é dizer a que prazo.
Sobre esta questão vulgarizou-se
a convicção de que a morte do capitalismo como sistema mundialmente dominante
podia prognosticar-se para momento próximo.
É bem verdade que, ao
longo deste século, o sistema revelou muitas fraquezas e é compreensível a
ansiedade de todos quantos sofrem as suas iniquidades, por que se construa uma nova
sociedade, fundada numa nova moral. Mas, o que é certo, também, é que «uma
formação social só desaparece depois de se terem desenvolvido todas as forças
produtivas que ela pode conter» (Karl Marx).
No desenvolvimento desta
ideia, V. I. Ulianov considerou ser o imperialismo o estádio mais avançado (o
último) do capitalismo, afirmando nomeadamente:
«O imperialismo surgiu
como desenvolvimento e sequência directa das propriedades essenciais do
capitalismo em geral. Simplesmente, o capitalismo só se transformou no
imperialismo capitalista num dado momento, muito elevado, do seu
desenvolvimento, quando certas características fundamentais do capitalismo
começaram a transformar-se nos seu contrários, quando se formaram e se
revelaram plenamente os traços de uma época de transição do capitalismo para um
regime económico e social superior» (in Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo,
cap. VII, V. I. Ulianov) .
O autor citado escrevia
estas linhas na segunda década do século XX. De facto, nessa altura já a fase
da pequena empresa, da livre concorrência, tinha sido ultrapassada nos países
capitalistas desenvolvidos.
A nova fase no
desenvolvimento do capitalismo caracterizava-a assim:
«1) concentração da
produção e do capital atingindo um grau de desenvolvimento tão elevado que
origina os monopólios cujo papel é decisivo na vida económica;
«2) fusão do capital
bancário e do capital industrial, e criação, com base nesse «capital
financeiro», de uma oligarquia financeira;
«3) diferentemente da
exportação de mercadorias, a exportação de capitais assume uma importância
muito particular;
«4) formação de uniões
internacionais monopolistas de capitalistas que partilham o mundo entre si;
«5) termo de partilha
territorial do globo entre as maiores potências capitalistas» (V. I. Ulianov).
Como se vê, este autor
considerava esta nova fase do capitalismo como «de transição».
De transição porquê? De
transição para o quê?
Mesmo autores adversos às
ideias socialistas reconheciam já então que nas sociedades capitalistas
avançadas da época havia um certo «entrelaçamento» entre a banca e os
monopólios, uma quebra do isolamento em que vivia a empresa do período da
concorrência, dependente apenas do mercado, fosse o do crédito, o da mão-de-obra,
o das matérias-primas ou o dos produtos acabados. Admitiam também que os bancos
não tinham «um carácter estritamente privado» e escapavam «cada vez mais à
esfera da regulamentação económica estritamente privada».
A tal propósito escrevia
V.I. Ulianov: «Mas o que está por detrás deste entrelaçamento, o que constitui
a sua base são as relações sociais de produção e a sua perpétua mutação. Quando
uma grande empresa se torna uma empresa gigante e quando, tendo exactamente em
consideração uma multidão de informações, organiza metodicamente a canalização
de dois ou de três quartos das matérias-primas básicas necessárias a dezenas de
milhões de homens; quando ela organiza sistematicamente o transporte destas
matérias-primas até aos locais de produção mais apropriados que, por vezes, se
encontram a centenas e milhares de léguas; quando um único centro detém a
direcção principal de todas as fases sucessivas do tratamento de matérias-primas,
e até inclusivamente da fabricação de toda uma vasta gama de produtos acabados;
quando se distribuem estes produtos segundo um plano único entre dezenas e
centenas de milhões de consumidores…então, torna-se evidente que estamos em
presença de uma socialização da produção… e que as relações reveladoras de
economia privada e propriedade privada constituem um invólucro cuja medida diverge
da do seu contudo…» (V.I. Ulianov, ibidem).
Apesar de sete décadas
passadas, esta fase «de transição do capitalismo ainda não terminou, ainda não
nos conduziu a um sistema em que seja plenamente assumido o carácter social da
produção.
Contudo, os traços
caracterizadores com que a delineou este autor tornaram-se cada vez mais
marcados e inequívocos, ao mesmo tempo que outros se lhe juntaram reforçando a
ideia de que a produção, cada vez mais, tem natureza social, assim se
evidenciando mais e mais a ilegitimidade da apropriação privada dos seus
lucros.
Esta realidade é hoje
reconhecida mesmo por economistas não socialistas de renome mundial, como
veremos de seguida.
V
John Kenneth Galbraith é,
sem dúvida, um dos mais, ou mesmo o mais reputado economista dos Estados Unidos
da América da actualidade.
De entre os seus
trabalhos destaca-se o livro O Novo
Estado Industrial, publicado pela primeira vez em 1967, e reeditado em
1985, depois de revisto e actualizado.
É uma obra em que estuda
em pormenor o sistema capitalista tal como funciona no país onde atingiu a fase
mais adiantada – os próprios Estados Unidos.
É fácil de constatar que
as conclusões a que chega não só confirmam, como reforçam as de V. I. Ulianov a
que anteriormente fizemos referência.
Conclui nomeadamente que
no capitalismo mais avançado o mercado de cada produto ou serviço está
repartido habitualmente por um pequeno número de empresas (2,3,4) que, no
conjunto, detêm a totalidade da oferta, vigorando o regime de oligopólio, que
em tudo se assemelha, na prática, ao do monopólio, visto que as escassas
empresas em concorrência, num determinado ramo de produção, considerando os
enormes interesses mútuos em jogo, se abstêm sensatamente de guerrear-se
economicamente e preferem actuar de forma expressa ou tacitamente concertada.
Aliás – observa o mesmo
autor - nos Estados Unidos estas situações só não evoluem para o monopólio
propriamente dito, porque subsistem as leis «anti-trust», isto é, anti-monopólio,
instituídas há largas décadas a pretexto de evitar a degenerescência do regime
de livre concorrência (mas sem conseguirem) e que agora servem apenas para
dissimular as situações oligopolistas que de facto prevalecem nos mercados em
que se comercializam 70% dos bens e serviços produzidos no país.
Esta constatação tem
consequências profundas a que é preciso prestar atenção. É que, de acordo com
os ensinamentos unânimes da ciência económica, a empresa monopolista (ou um
escasso grupo de empresas agindo concertadamente em oligopólio) produz todos os
bens ou serviços de um certo tipo, é a única a oferecê-los para venda e, por
isso, pode fixar-lhes o preço que melhor lhe convier, sem correr o risco de que
outra empresa venha fornecê-los no mercado a preço mais baixo e desviar-lhe a
clientela.
Ao contrário, num regime
de concorrência perfeita, em que são muitos os vendedores de cada bem ou
serviço, os preços estabelecem-se espontaneamente, em função da quantidade
total dos produtos oferecidos para venda e do volume da procura que tiverem. Os
preços são, por isso, um dado assente, a cuja fixação o empresário do sector
concorrencial é alheio, nada podendo fazer para o influenciar.
No regime da
concorrência, quem conseguir produzir com custos suficientemente baixos, de tal
modo que o preço estabelecido pelo mercado seja lucrativo e compensador,
resiste e prossegue a actividade; quem não for capaz disso, soçobra. Quem tiver
a empresa bem organizada, sobrevive; quem a não tiver, é aniquilado pela
concorrência.
Já nos mercados dominados
pelo monopólio, ou o oligopólio, o risco de falência é diminuto, e, no cado dos
Estados Unidos, as estatísticas comprovam que assim é, registando um número
reduzido de colapsos económicos.
O sector oligopolista
deste país, como se disse, domina os mercados de 70% dos bens e serviços. John
K. Galbraith chama-lhe o «sector de planeamento» e demonstra com abundância de
pormenores e dados que em todas as empresas deste sector o planeamento é imprescindível. É-o em virtude das necessidades de
organização impostas pela dimensão das empresas, pelos prolongados trabalhos de
pesquisa exigidos nos domínios da alta tecnologia, que exigem a coordenação da
actividade de um extenso número de especialistas em áreas disciplinares
diversas, ao longo de anos, e um enorme investimento de capital, cuja
contrapartida – o lucro esperado – só virá a ser alcançada, por vezes, ao fim
de vários anos.
Aliás, o planeamento não
só é imprescindível, como é efectivamente praticado em todo o «sector de
planeamento» - como o autor citado demonstra também.
Este sector de
planeamento não só existe e prospera, como está apetrechado com o material
humano que lhe é inerente: os burocratas.
Será ou não verdade que
tudo isso nos confirma o carácter social da produção no capitalismo avançado?
Será ou não verdade que nesta fase do capitalismo a celebrada concorrência, com
o mítico poder de potenciar o que é bom e aniquilar o que é mau na economia
(para não falarmos na sua alegada capacidade de possibilitar o direito
individual à propriedade e organização de empresa própria) está definitivamente
ultrapassada como característica dominante do sistema?
Esta questão tem especial
pertinência no momento histórico por que agora passamos.
Os governos dos países do
capitalismo avançado, com especial destaque para o dos Estados Unidos,
pressionam os países do Leste da Europa que viveram experiências de regimes
socialistas (ou que ainda as vivem) a procederem a reformas económicas e a
adoptarem uma «economia de mercado».
Nos países socialista os
preços são habitualmente fixados pelos organismos estatais de controlo do
planeamento.
Ainda antes do início da perestroica, em 1985, já nalguns desses
países (com especial destaque para a Jugoslávia) os Estados tinham permitido às
empresas de alguns sectores da indústria que autonomamente fixassem os preços
dos produtos por elas fabricados.
A tal propósito escrevia
já Galbraith (recordamos que em livro editado em 1985):
«Este facto tem sido
largamente aplaudido como um retorno à economia de mercado por parte desses
países. Trata-se de uma miragem. Tal como no sistema americano, isto não
significa que a grande empresa socialista passe a ficar sujeita ao controlo dos
preços do mercado sem exercer sobre eles qualquer influência. Significa apenas
que pode passar a exercer uma forma de controlo mais flexível, que lhe permita
adaptar-se melhor às mudanças» (in O Novo Estado Industrial, Publicações
Europa-América, P. 168).
Se é verdade que as
reformas que se vão operando no funcionamento das empresas dos países
socialistas não constituirão, só por si, um regresso à livre concorrência que
os mentores do capitalismo endeusam, mas não praticam, não é menos verdade,
também, que o modo como funcionam as empresas do «sistema de planeamento»
norte-americano não é socialista. O que é certo, sim, é que este sistema, em
muitos dos seus aspectos essenciais, revela que esta fase do capitalismo é já
uma fase de transição para uma sociedade qualitativamente nova em que a
natureza social da produção não só será um dado directamente constatado, como
também assumido pelo Estado e as empresas com todas as suas lógicas
consequências.
Tal situação, porém, só
poderá ocorrer quando o Estado não for um órgão destinado a defender o poder
económico do capital privado, fundado nas empresas, e que com estas tem
interesses comuns, relações cruzadas e de interdependência.
Ora isso é que está longe de acontecer.
VI
Como
dissemos já, nos Estados Unidos o sector oligopolista da economia (o «sistema
de planeamento» - como lhe chama John K. Galbraith) está ligado ao Estado por
relações estreitas de interdependência, com todas as recíprocas influências que
daí resultam.
Ao
fazermos esta afirmação, não queremos referir-nos às clássicas medidas de
intervenção na economia inspiradas por Keynes, que puseram fim às velhas
concepções que defendiam que o Estado não devia interferir na vida económica,
mas apenas deixar funcionar as leis espontâneas do mercado. Não pretendemos
aludir, portanto, aos mecanismos financeiros tendentes a estimular ou fazer retrair
a procura, a oferta, o investimento, com os quais o estado capitalista vai
contribuindo para estimular ou fazer retrair a procura, a oferta, o
investimento, com os quais o Estado capitalista vai contribuindo para atenuar
as oscilações dos ciclos económicos e debelar as crises cíclicas do sistema.
As
relações Estado-empresas a que agora nos reportamos são muito mais directas e
profundas.
Desde
logo, o mercado para projectos de tecnologia avançada que melhor permite o
planeamento é o sector público. A este propósito, bastará lembrar toda a
produção de armas e meios bélicos sofisticados, como os modernos aviões
espiões, os sistemas de controlo do espaço englobados na designação de «guerra
das estrelas», ou também a construção de veículos espaciais.
Sobre isto, diz Galbraith:
«Quando
o investimento no desenvolvimento económico é elevado, qualquer erro técnico ou qualquer fracasso na
capacidade de persuadir os consumidores podem sair extremamente caros. O custo
e o risco correspondente podem ser consideravelmente reduzidos se o Estado
pagar esse desenvolvimento tecnológico ou garantir mercado para os produtos
tecnicamente mais avançados» - e acrescenta: «Pode encontrar-se facilmente uma
justificação adequada para esse tipo de acção estatal – defesa nacional,
prestígio nacional, necessidades públicas prementes, como acontece para o
estudo de alternativas para os produtos petrolíferos. Uma justificação isenta
automaticamente da acusação de socialismo esse tipo de actuação. E, assim, a
tecnologia moderna é cada vez mais uma função do Estado moderno». (in O Novo Estado Industrial, edição citada,
pág. 36).
Esta
teorização de J. K. Galbraith não é um exercício abstrato de reflexão.
Limita-se a constatar uma actuação típica na vigência do capitalismo
monopolista de Estado, a que já fizemos referência no livro Reflexões sobre a Perestroica – então, a
propósito da criação de incentivos ao investimento no domínio da indústria de
guerra em épocas de recessão económica.
O
autor que vimos citando dá-nos conta de que os órgãos federais, estaduais e
locais dos Estados Unidos garantem entre 20% e 25% de toda a actividade
económica do país. O que – acrescenta – não está longe do que se passava com a
Polónia ainda em 1985, quando ainda era considerada um país socialista.
Não
é difícil adivinhar que as relações entre as grandes empresas que vêem os seus
serviços solicitados pelo Estado e os próprios departamentos governamentais com
os quais se relacionam se desenvolvam e prosperem, gerando pontos de vista e
interesses comuns.
Ainda
antes da encomenda de um novo avião de combate, certamente que a empresa
candidata já terá apresentado aos peritos governamentais um antepojecto
revelando que é bem mais moderno e eficaz do que os anteriores, mais apto,
portando, a satisfazer as necessidades de defesa do Estado; os peritos
governamentais aceitá-lo-ão, porque lhes compete defender o Estado; e uns e
outros acreditarão e propalarão a eminência ou a probabilidade de um ataque
inimigo, porque só assim se justifica a actividade de ambos.
A
verdade, porém, é que é o interesse das empresas do «sistema de planeamento»,
dos grupos oligopolistas, que acaba por prevalecer. Se o desemprego diminui
entre os indivíduos com formação técnica, é porque o sistema tem mais
necessidade deles; se o desemprego aumenta entre os obreiros menos
qualificados, é porque as grandes empresas vão dispensando este tipo de
mão-de-obra; se prevalece a publicidade maciça com toda a capacidade que tem de
transformar a generalidade dos cidadãos em meros instrumentos de consumo
destinados a assegurar o escoamento da produção das grandes empresas, é porque
isso convém a tais empresas; se se incentivam os gastos na indústria da guerra
e se limitam as despesas com fins sociais, é para satisfazer a pretensão das
mesmas empresas.
De
acordo com a análise de J.K. Galbraith, na economia dos Estados Unidos existe,
pois, planeamento (embora não estatal, mas no âmbito das empresas, muitas delas
na dependência e sob quase total controlo do Estado), há intervenção e controlo
estatal, há apoios do Estado – tudo isto fenómenos típicos de uma sociedade
socialista e que, segundo o seu parecer, são impostos pela organização das
empresas em larga escala em todos os países industrializados, sejam socialistas
ou não.
Parece-nos
difícil confirmar de forma mais cabal e alicerçada em factos a previsão de
Lenine sobre o que seria o capitalismo avançado e sobre as características que
fazem dele um sistema económico com muitos traços de semelhança com o modo de
produção socialista, embora com um móbil produtivo diverso e alicerçado sobre
diferentes relações de produção.
A
coincidência de pontos de vista, porém, termina exactamente quanto à questão de
saber como vai ser o futuro das sociedades do capitalismo avançado. Galbraith
acredita que o sistema se manterá no futuro e que, entre outras coisas, até é
bom o incentivo da procura através da publicidade, visto que, ao criar
artificialmente novas necessidades aos cidadãos, mantém estes motivados para
trabalharem e produzirem eficazmente…assim esquecendo as necessidades reais e
primárias que estão por satisfazer!
Curiosa,
a tal respeito, é a afirmação de que «…o questionamento do futuro implicaria a
chamada de atenção para o ponto a que se chegou até agora» - à qual acrescenta:
«Entre as palavras menos encantadoras do léxico dos negócios, encontram-se as
de planeamento, controlo do governo, apoio estatal e socialismo. Considerar a
possibilidade destes fenómenos no futuro seria atrair a atenção para o modo
assustador como eles já se verificam hoje. E não se poderia ignorar que essas
coisas atrozes se tinham instalado, no mínimo, com o consentimento do próprio
sistema e, no máximo, em virtude das suas próprias exigências» (O Novo
Estado Industrial, edição citada, pág. 307).
Na
actualidade não é só nos Estados Unidos que o sistema económico se desenvolve
com as características que aí se podem observar e que, com o apoio da análise
de J.K. Galbaith, melhor se podem compreender. O mesmo se passa no Japão, na
Itália, na RFA, no Canadá, numa demonstração de que não estamos perante um
fenómeno peculiar típico da economia dos Estados Unidos, mas sim de uma
inevitável necessidade inerente à própria natureza do sistema.
Permitir-nos-á
isto concluir que os países mencionados estão à beira de transitar para o socialismo?
VII
Como
já antes dissemos, é possível prever a mudança de um dado sistema de produção
para outro. A História mostra-nos que o desenvolvimento das forças produtivas
vai sucessivamente dando origem à mudança do modo de produção, até que este
sofre alterações qualitativas que lhe transformam a própria natureza, o tipo de
relações produtivas em que se analisa.
Mas,
se é fácil esta análise em relação à evolução passada das sociedades e à
descrição do ritmo a que os factos históricos ocorreram, a verdade é que em
relação à época presente e ao futuro já as coisas não são assim.
No
passado, as tribos, as nações, acantonavam-se nas mais diversas partes do mundo
com um elevado grau de autonomia relativa, tanto no plano político, como no
económico. Tal fazia com que a evolução do seu sistema económico-político se
processasse sem grandes interferências estranhas. Quando, através da guerra,
pela via dos casamentos negociados entre casas reais, por motivos de grandes
migrações, diferentes países, nações, povos entravam em contacto, normalmente
daí não derivavam consequências sérias no plano da evolução das suas economias,
pelo facto de quase sempre estarmos em presença de povos vizinhos com sistemas
de produção e níveis de desenvolvimento idênticos.
Nos
últimos séculos esta situação alterou-se progressivamente.
As diversas colonizações que se seguiram à época das descobertas
produziram inúmeros casos de interferências de sistemas económico-políticos
diferentes que provocaram saltos em relação à evolução natural dos modos de
produção. Na América do Norte, por exemplo, o sistema comunitário primitivo das
tribos indígenas foi substituído por um sistema capitalista nascente. Não
passou por lá o feudalismo. Mas, pode recordar-se também o que aconteceu na
Austrália, na América Central, na do Sul, onde igualmente se implantaram modos
de produção que nada tinham de semelhante, nem representavam a sequência
natural dos que aí anteriormente vigoravam.
Na
época actual, porém, o quadro torna-se ainda mais complexo. O sistema
capitalista, que continua em posição de predominância a nível mundial, não se
contém dentro das fronteiras de qualquer país. Pelo contrário, quer o mercado
das matérias-primas, quer o dos produtos acabados, o do crédito, ou o do
trabalho, têm carácter internacional. Uma empresa pode ter sede na Inglaterra,
ser propriedade de franceses, recorrer ao crédito junto de bancos americanos,
fornecer-se de matérias- primas na África, ter fábricas na Coreia do Sul, com
trabalhadores deste país, e vender os seus produtos na África ou no Canadá.
Melhor dizendo, as grandes empresas transnacionais dominantes nos países
capitalistas funcionam efectivamente assim e a norma é terem as suas sedes nos
países ricos, fornecerem-se de matérias-primas e terem estabelecimentos para
explorar a mão-de-obra barata nos países pobres e procurarem vender os seus
produtos em qualquer parte do Mundo.
Esta
situação, que melhor pormenorizámos já em anteriores escritos, cria situações
de grande interdependência entre os diversos países e faz com que as previsões
sobre a possível evolução do sistema, dentro de um país determinado (
especialmente no que se refere à sua cronologia ) se tornem muito mais
falíveis. O que de facto acontece é que o enquadramento político dos Estados
deixou de corresponder ao âmbito em que se desenvolve a sua economia. Enquanto
outrora a organização económica e a superestrutura jurídico-política coincidiam
nos seus limites de implantação geográfica, hoje em dia tal não se verifica e,
na maioria dos casos, decisões de instâncias estrangeiras ou supranacionais, ou
ocorrências na economia de outros países, podem alterar a evolução económica de
um dado país, sem que os respectivos governantes tenham qualquer possibilidade
de evitar que isso aconteça. Isto pode suceder não só com pequenos países
dependentes da importação de maquinaria e tecnologia, do crédito externo, como
com grandes potências económicas carecidas de certas matérias-primas, como o
petróleo, por exemplo.
Se
é impossível calendarizar o fim do capitalismo, isso não significa que não nos
seja possível prever a sua evolução e o respectivo ritmo com um certo grau de
probabilidade.
A
este propósito não faltará quem seja propenso à descrença. Desde há mais de um
século que a mudança de sistema foi prevista pelos teóricos do socialismo, sem
que até ao presente se tenha tornado uma realidade dominante a nível mundial. A
par disto, recentemente alguns países que haviam optado pela construção do
socialismo reconverteram-se ao capitalismo e outros retomam agora algumas
relações de produção tradicionalmente tidas como capitalistas.
Ao
contrário dos sistemas que o precederam, o sistema capitalista de produção foi
analisado e o seu funcionamento foi compreendido praticamente desde o seu
início, assim como desde o seu início foi compreendida a sua transitoriedade.
Transitório, porém, não é o mesmo que breve, ou efémero. A transição implica o
desenvolvimento das forças produtivas de forma substancial e isso não acontece
no espaço de anos, ou mesmo de algumas décadas.
A
compreensão precoce da transitoriedade do sistema faz parecer mais lenta a
transição esperada. Quem, no início do feudalismo, tivesse sido capaz de prever
que esse sistema iria um dia mudar e o tivesse anunciado alto e em bom som,
teria certamente levado ao desespero gerações e gerações de servos que se
sucederam ao longo de muitas centenas de anos.
Não
desesperem, porém, os leitores, supondo que com isto queremos dizer que também
o capitalismo irá durar uns largos séculos.
A
capacidade de desenvolvimento das forças produtivas na era do capitalismo é
imensamente maior do que na era feudal. O desenvolvimento da ciência e da
técnica tem proporcionado progressos extraordinários na produtividade que os
dirigentes do capitalismo mundial não se cansam de apregoar como excepcionais
virtudes do sistema e sinal da sua capacidade de se reanimar e perpetuar no
tempo, ignorando que são precisamente as «revoluções» «industriais» e
«tecnológicas» que proporcionam a sucessiva e rápida reforma do sistema e que
fatalmente acarretarão um dia a sua substituição por um outro de diversa
natureza.
A
este propósito, parece-nos que as referências que anteriormente fizemos às
características actuais do sistema económico dos Estados Unidos da América são
por demais elucidativas.
No
entanto, não faltam também teóricos a anunciar a perenidade do sistema
capitalista, incluindo-se entre eles, curiosamente, até homens que se reclamam
de socialistas (!).
É
o caso do ex-secretário-geral do Partido Socialista, Vítor Constâncio.
Em
declarações à imprensa em 18/7/90, disse nomeadamente que o modo de produção
capitalista triunfou mas «continuará a transformar-se, sob a pressão do jogo
democrático» - acrescentando: «A perestroica do capitalismo não terá fim» (in
Diário Popular, de 19/7/90).
Estará
o capitalismo assim tão livre de crises e tão a salvo da fatalidade histórica?
VIII
Concluímos
o capítulo anterior com a questão de saber se o capitalismo será mesmo um
sistema para durar eternamente.
De
tudo quanto já se disse anteriormente já os leitores podem concluir que a
resposta é negativa.
Aliás,
não é difícil de prognosticar que um sistema que tenha uma reestruturação, uma
reforma contínua, com toda a probabilidade se transformará em algo diferente.
Claro
que, apesar de todas as transformações. Poderia o sistema manter-se fiel àquilo
que mais o tem caracterizado: a procura do lucro individual como móbil da
produção; o livre recurso à exploração do trabalho alheio, para atingir o
objectivo lucrativo.
Assim,
o inêxito de algumas experiências para-socialistas em países do Leste europeu
dever-se-ia à inexistência destas motivações para impelirem a iniciativa
económica.
Supomos
que será movido por estas considerações que Vítor Constâncio, também em
declarações à imprensa transcritas no jornal Diário Popular, afirma que se
verifica no Mundo «uma homogeneização cultural no sentido do individualismo
possessivo, do consumismo e da busca de status»
e que «as atitudes sociais tendem a universalizar-se».
Estamos
em presença de uma análise tipicamente idealista que inverte a ordem das
coisas.
Não
é esta «homogeneização cultural» que cria o sistema económico que temos; ao
contrário, é o sistema que cria esta mentalidade.
Cada
sistema económico-político tem a sua ideologia própria conforme ao modo de pensar
e aos interesses da classe que detém posição dominante na sociedade. A cultura
do individualismo possessivo, da procura da ascensão social, é a divulgada
pelas instâncias dominantes do capitalismo. Quem tiver dúvidas disso, bastará
prestar um pouco de atenção a esse fenómeno que cada vez mais invade o espaço
que nos cerca e o campo da consciência que é a publicidade na época actual,
sobretudo a difundida a toda a hora pelos meios de informação audio-visuais, e
analisar a ideologia, a mentalidade que lhe subjaz.
Toda
a publicidade é feita no sentido de convencer o cidadão, transformado em
consumidor, de que quem compra o automóvel, a máquina de lavar, o perfume
anunciado, é que é efectivamente um cidadão superior e de sucesso – o que
implicitamente é afirmar que ser superior e de sucesso, isto é, estar acima dos
outros, é que é uma coisa boa. Claro que a criação desta mentalidade torna os
homens mais egoístas, mais desejosos de se demarcarem dos seus iguais, e assim
os faz menos solidários e menos dispostos a lutarem com eles em defesa dos
interesses colectivos.
O
consumismo é questão que vem aturdindo muitos políticos, especialmente em
Portugal nos últimos tempos, pela simples razão de que só recentemente se
começaram a sentir no nosso país os seus efeitos de forma substancial na
cultura e no comportamento das pessoas.
No
entanto, já há muito que se manifestara como fenómeno gerado pelo capitalismo
avançado, nomeadamente nos Estados Unidos.
O
que surpreende é que Vítor Constâncio, economista de profissão, se esqueça de
que é o resultado directo dos procedimentos típicos (nomeadamente o
publicitário) a que recorrem os grupos monopolistas e oligopolistas para
incentivarem a procura dos seus produtos e assim fugirem às contingências do
mercado do consumo e poderem impor os seus preços, procedimentos estes que são
uma emanação e um recurso indispensável do sistema.
O
consumismo é uma consequência desta fase do capitalismo e não tem outra razão
de ser que não seja a de garantir maior procura de bens e serviços produzidos
pelas empresas que criam, para isso, necessidades fictícias através da
publicidade e de outros meios de afectação da vontade dos cidadãos.
Obviamente,
uma vez superada esta fase no plano das relações económicas, nada garante que a
«homogeneização cultural» (?) consumista possa persistir.
Aliás.
Vem a propósito dizer que, para que o consumismo exista, uma coisa se mostra
imprescindível: o poder de compra do consumidor. E este depende, como é
evidente, dos seus rendimentos, por um lado, e do preço dos bens, por outro.
Nos
países do capitalismo avançado esse poder de compra existe. Por um lado, a
percentagem do rendimento nacional distribuída em vencimentos aos trabalhadores
por conta de outrem é bem mais elevada do que em países como Portugal e outros
de médio ou médio-baixo desenvolvimento, e isso deve-se ao facto de as
transnacionais sediadas nos países ricos poderem pagá-los sem diminuírem as
suas volumosas taxas de lucro obtidas graças à sobre-exploração da mão-de-obra
barata a que procedem nos estabelecimentos que possuem nos países menos
desenvolvidos.
Esta
utilização de mão-de-obra estrangeira permite mesmo que tais empresas não
necessitem de contratar tantos trabalhadores não especializados nos países em
que se sediam, o que faz também com que, do total de assalariados existentes
nesses países, uma maior percentagem seja constituída por trabalhadores
qualificados e quadros técnicos que dispões de rendimentos superiores.
Mas,
como dizíamos, por outro lado, embora através da publicidade e do consequente
controlo da procura, as empresas possam impor os seus preços, a verdade é que
só o poderão fazer dentro de certos limites comportáveis pelos rendimentos
maiores ou menores dos cidadãos. Para isso, têm que procurar produzir a baixo
custo. Recorrem à mão-de-obra barata dos países menos desenvolvidos – como já
vimos – procuram técnicas de fabrico e de organização de empresa mais
desenvolvidas e impõem preços de miséria na aquisição de matérias-primas aos
países menos desenvolvidos.
Se
é certo que as novas técnicas dependem só dos progressos da ciência e do
engenho dos gabinetes técnicos das empresas para lhes darem aplicação prática,
a mão-de-obra e as matérias-primas estrangeiras não estão no seu controlo
directo.
Parece-nos
indiscutível que qualquer atitude dos Estados de onde provêm essas
matérias-primas ou que proporcionam essa mão-de-obra, no sentido de elevarem os
custos destes factores de produção, ou mesmo no de deixarem de os ter à
disposição das transnacionais, acarretará para os países a que estas pertencem
consequências económicas eventualmente catastróficas.
Perante
um quadro destes, Vítor Constâncio certamente ficaria imperturbável e diria:
«Deixá-lo.
O capitalismo resolve isso com uma perestroica».
No
entanto…
«BOLSA
INTERNACIONAL EM PÂNICO COM SUBIDA DO PREÇO DO CRUDE
( in Diário de Notícias de 7/8/90)
«Dólar
atinge mínimos» ( ibidem, 7/8/90)
Tudo
isto acontecia porque o Iraque invadiu o Kuwait, procurando passar a
influenciar os preços do petróleo no sentido da subida.
Os
países capitalistas desenvolvidos, necessitados de petróleo viram as suas
economias ameaçadas e correram ao golfo Pérsico com bombas e canhões.
Não
duvidamos de que Vítor Constâncio dirá lá com os seus botões:
«Que
tolos! Podiam ter resolvido isto com uma perestroica!».
IX
Qualquer
sistema é capaz de sofrer reestruturações.
Nenhum
permanecerá idêntico a si próprio. Bastará que as suas forças produtivas
evoluam em capacidade para que tendam a surgir modificações no sistema.
O
que é, sem dúvida, ousado, é afirmar-se que o sistema capitalista pode sofrer
contínuas reestruturações e permanecer ele mesmo, e francamente nos lembra a
requentada anedota do homem que afirmava que tinha uma faca muito antiga, muito
boa, que, apesar de estar há cem anos ao serviço da família, ainda só tinha
levado três lâminas e três cabos novos…
É
evidente que a faca já era outra.
Mas
esta ideia da perpétua reestruturação, aplicada ao capitalismo, tem também uma
função dissimuladora que é necessário evidenciar.
É
que a perestroica, à qual se
pretendem comparar as iniciativas de sobrevivência do capitalismo, cabe
efectivamente dentro do conceito de reestruturação de um Estado, de uma
economia; desdobra-se em iniciativas políticas e administrativas que se contêm
dentro dos poderes legítimos de um Estado.
Já
o mesmo não se passa com muitos dos meios de que se tem servido o capitalismo
para se transformar e sobreviver.
Poderíamos,
quando muito, qualificar de reestruturantes as medidas de intervenção na
economia destinadas a atenuar as oscilações dos ciclos económicos, de colocação
na dependência do Estado das empresas que desenvolvem tecnologias avançadas, ou
outras de idêntico âmbito e dimensão.
Mas,
a primeira grande medida para o desenvolvimento capitalista foi a colonização e
a pilhagem colonial; a isso se seguiram duas guerras mundiais com vista à
disputa de zonas de influência económica. Passado o período colonial,
seguiu-se-lhe o neo-colonial, com todo o rosário de intervenções violentas para
assegurar o controlo de posições económicas estratégicas por parte dos Estados
capitalistas avançados, em prejuízo dos menos desenvolvidos; o domínio
económico dos países menos desenvolvidos, mantidos em situação de dependência
em relação aos grandes bancos internacionais, às empresas fornecedoras de
maquinaria, tecnologia, produtos industriais.
Só
ingénuos poderão supor que as relações económicas entre os países
subdesenvolvidos e os países capitalistas desenvolvidos se processam em
conformidade com leis imanentes ou espontâneas da economia. É um erro também
pensar que, quer os países capitalistas avançados, quer os mais atrasados,
podem, cada um por si, ou todos em conjunto, desencadear processos de reestruturação do sistema.
Não
o pode fazer cada um por si, porque a sua economia está inexoravelmente ligada
às demais em relação de interdependência; não o fazem todos em conjunto, porque
esse quimérico corporativismo entre nações é rejeitado pela agressividade e
pela contradição de interesses nas relações interestaduais.
A
história e a prática actual ensinam-nos que, quando os países capitalistas mais
ricos, ou as sua empresas, estabelecem preços elevados para os seus produtos
industriais ou agrícolas, a sua maquinaria, as patentes das suas invenções, a
tecnologia dos seus modernos processos de fabrico, os empréstimos que fazem,
não restam outras soluções aos países subdesenvolvidos que não sejam as de
pagá-los, ou privarem-se deles e passarem por grandes dificuldades, mas, se, ao
contrário, forem estes países a aumentarem substancialmente os preços das
matérias-primas de que dispõem e que sejam essenciais para os países
desenvolvidos, é muito provável que o resultado seja uma acção militar destes,
para imporem àqueles os preços da sua conveniência.
A
oferta de petróleo ameaçou diminuir, o seu preço subiu em flecha e os exércitos
dos Estados Unidos e mais umas quantas potências ocidentais correram ao Golfo
Pérsico a garantirem a prevalência dos seus interesses.
Alguém
conceberá que os países pobres ameacem atacar a América do Norte se esta
aumentar os preços de exportação dos automóveis, das máquinas industriais, dos
cereais?
Claro
que havia o pretexto (há sempre, nem que seja inventado) de que o Iraque anexou
um principado árabe, em violação das leis internacionais. Mas quantas violações
idênticas (recorde-se Timor-Leste, Granada, Panamá, Palestina, etc. etc. etc.)
acontecem e passam sem despertarem um mínimo de frenesim nos líderes dos países
capitalistas avançados?
Em
boa verdade, tudo isto revela que o sistema capitalista mundial é cada vez mais
vulnerável; é um mito a crença de que todos os seus problemas se resolveram
desde que, na sequência da grande crise de 1929, o Estado capitalista passou a
intervir na economia através de medidas financeiras que atenuam a intensidade
das depressões e das escaladas inflacionistas.
Nem
os países capitalistas são Estados com sistemas económicos autónomos e estáveis
que espontaneamente funcionem e se auto-reproduzam, nem conseguem garantir a
sua sobrevivência com meras medidas políticas ou de administração.
Sendo
o capitalismo um sistema que historicamente está em vias de ser superado, os
seus dirigentes só com o recurso à força, em última instância, conseguem
garantir a sua sobrevivência, bem como a supremacia dos países que dentro do
sistema estão mais desenvolvidos sobre os subdesenvolvidos.
Quando
não enveredam pela via belicista, valem-se de outros recursos igualmente
ilegítimos e desumanos, nos quais avulta a manipulação das consciências, o
controlo do saber e da opinião. As agências de informação e os seus órgãos de
transmissão (rádio, televisão, jornais) são, na sua imensa maioria, pertença de
grandes empresas capitalistas; o ensino é cada vez mais tecnocrático e
subordinado às necessidades das empresas, ou do aparelho burocrático estatal; as
próprias conquistas científicas, expressão máxima do desenvolvimento actual do
Homem, são transformadas em mercadorias que tomam a forma de patentes de invenção,
processos de fabrico reservados em regime de exclusividade.
Por
estes processos, as sociedades capitalistas criaram a mais angustiante das
contradições da época actual. Ao mesmo tempo que um reduzido número de
especialistas é detentor de conhecimentos muito avançados sobre a história do
Mundo, do Homem, da vida, sobre fenómenos físicos, biológicos, psicológicos e
sociais, a esmagadora maioria das pessoas não dispõe do saber e da formação
humanística mais elementar, é fanatizada em função de objectivos supérfluos ou
retrógrados, como certas modalidades desportivas e actuações musicais, ou
formas supersticiosas e primárias de religião; é-lhes proporcionado um sistema
de ensino meramente profissionalizante.
A
par disto, são-lhes distribuídas notícias cozinhadas nas centrais
internacionais da informação, e a publicidade, que invade e emerge em todo o
sistema da comunicação social, vai criando a tal «homogeneização cultural» de
que fala Vítor Constâncio – ou seja, a anti-cultura consumista egocêntrica e
anti-solidária que convém aos propósitos lucrativos empresariais, com a qual,
ao contrário do que sustenta, não nos devemos conformar, tal como não devemos
entendê-la como uma fatalidade.
X
À
medida que a era científica da Humanidade foi avançando, a arte, a ficção foram
imaginando quadros de vida social em que o poder, munindo-se de meios técnicos
sofisticados, ficaria em posição de dominar os homens, através do controlo das
suas consciências e vontades.
A
narrativa pretende antecipar a situação dramática de massas humanas
despersonalizadas, escravizadas a uma vontade alheia, incapazes de se determinarem
por si, reduzidas a uma vida pouco mais que vegetativa.
O
que podemos dizer é que estas sociedades já existem, e, se os homens pouco
disso se apercebem, é precisamente porque o seu pensamento já é controlado para
o evitar.
Não
são uma coisa que tenha surgido de novo, repentinamente. Existem há muito. A
diferença é apenas no que respeita aos meios, e podemos mesmo dizer que já
existiam quando os autores dessas obras de ficção as imaginaram como vindouras.
De
facto, o que então não havia eram apenas os meios técnicos da era actual.
Quanto ao mais. As classes economicamente preponderantes sempre dispuseram de
meios suficientes para tornarem dominante a sua maneira de pensar – isto é, o
modo de pensar conforme aos seus interesses – e obrigarem os demais indivíduos
a submeterem-se a eles.
É
um facto, porém, que na actualidade o poder, político e económico, dispõe de
instrumentos especialmente poderosos para instituir a prevalência dos seus
artigos de fé ideológicos, ou para simplesmente captar a atenção das populações
para coisas supérfluas, marginais, ou secundárias, reduzindo-lhes ao máximo o
tempo disponível e a força anímica, a apetência pela informação e o saber sobre
as questões fulcrais da vida em sociedade.
O
poder, no entanto, não se preocupa com exibições de modernidade e serve-se
simultaneamente de meios de influência antigos e modernos. Das mais arcaicas
manipulações religiosas, às mensagens habilmente subentendidas da publicidade,
ou à sempre actual e tendenciosa orquestração informativa, tudo é bom, tudo
serve.
Reportando-nos
à informação, já desde há anos se estratificou uma situação cujos contornos são
perfeitamente discerníveis, tanto na estrutura como no funcionamento.
Quem
se disponha a ler diversos jornais num só dia e atentar no que dizem sobre
determinado acontecimento, rapidamente se aperceberá de que, com excepção dos
títulos, os textos das diversas notícias são total ou grandemente coincidentes,
linha a linha, palavra a palavra. Normalmente isso só não acontece com artigos
de opinião, ou trabalhos de reportagem do próprio jornal, que preenchem apenas
uma pequena parte do seu espaço útil.
Tal
sucede porque as fontes de informação de todos os jornais, e outros meios de
comunicação, são as mesmas – as grandes agências internacionais.
São
elas a UPI (United Press Internacional) e a AP (Associated Press) ambas
norte-americanas, a FP ( France Press) a Reuter, inglesa, e a ANSA, italiana, a
EFE, espanhola, e a TASS, soviética.
Só
à conta das quatro primeiras, já em 1975 cabiam 79% da informação mundial, de
acordo com um estudo do chileno Fernando Reyes Matta feito para o Instituto
Latino-Americano de estudos transnacionais, citado no Guia do Terceiro Mundo,
edição de 1983.
Lê-se nesta publicação que em 1978 o
secretário de Estado alemão-federal Alwin Bruck reconhecia que «90% das
notícias da imprensa, das emissões de rádio, dos filmes e dos programas de
televisão que circulam no Mundo são realizados nos Estados Unidos, no Japão ou
numa pequena quantidade de países europeus».
Calcula-se
também que «cerca de 99 por cento da população mundial conhece o que se passa
no mundo por intermédio das cinco poderosas agências mundiais: Associated Press
(AP), United Press International (UPI), Reuter, Agência France Press (AFP) e
Telegrafnoie Agentstvo Sovietskogo Soiuzas (Tass)» (in Iniciação ao Jornalismo, de Vítor Silva Lopes).
O
autor citado escreve também: «As agências mundiais exercem o seu mercado
informativo nas zonas da influência política e económica dos países a que
pertencem», acrescentando que «a geopolítica informativa universal não é um
problema novo. Já em 1870 as principais agências combinaram repartir o mundo em
zonas de implantação, consoante os interesses territoriais de cada país que
representavam».
Esta
constatação tem muita importância.
É
que as grandes agências noticiosas mundiais (salvo a TASS) são empresas
privadas. As notícias são para elas mercadorias que vendem para obterem lucros.
Estão, por isso, submetidas à lógica lucrativa de qualquer grande empresa
capitalista e funcionam em regime de oligopólio, ou seja, um monopólio
compartilhado por um grupo escasso de empresas que, tal como já referimos a
propósito dos oligopólios existente noutros domínios da economia, não entram em
guerras de concorrência, não arriscam a sua situação perante o mercado,
preferindo a concertação de interesses, neste caso através da repartição
amigável de zonas de influência.
Funcionando
com esta lógica, logicamente também se identificam com o sistema capitalista
dos países em que têm a sua sede e agem de acordo com os interesses de domínio
informativo do sistema e dos respectivos governos.
No
plano interno, sobrevalorizam os interesses empresariais, em detrimento das
populações exploradas e desfavorecidas; no internacional, divulgam os pontos de
vista dos países capitalistas desenvolvidos e esquecem os legítimos interesses
dos povos do Terceiro Mundo.
A
este respeito, escreve um outro autor:
«Nos
dias de hoje, a comunicação social processa-se sobretudo por um sistema de
imposição vertical de mensagens, bem distinto da comunicação no seu sentido
interindividual e bidireccional. À escala do globo a «livre circulação»
tornou-se no direito de meia dúzia de capitais imporem a sua verdade
informativa e cultural à esmagadora maioria da população» (in «A Imprensa», de
Nuno Crato).
Na
recente crise do Iraque, hora a hora, as agências mundialmente dominantes
repetiram telexes, afirmando que Sadan Hussein era perigoso, que possuía armas
químicas, que provavelmente as tinha nucleares, Com tudo isso se quis preparar
a opinião pública contra o Iraque.
O
público não tinha tempo para lembrar-se de que os Estados Unidos também
produzem armas químicas e têm um potencial nuclear capaz de aniquilar toda a
vida na Terra e o próprio planeta; que foram o único país até hoje a empregar
bombas atómicas; que o seu grau de perigosidade é grande, visto que invadem com
frequência outros países.
Para
as agências, não havia dúvidas: perigoso era apenas o Iraque, fora-da-lei tão
só Hussein – e o estribilho era repetido em todos os noticiários.
Como não havia o público de convencer-se disso
mesmo, sem fontes alternativas de informação que fornecessem um quadro completo
da realidade?
No
já citado Guia do Terceiro Mundo,
alude-se a um exemplo típico de manipulação informativa no que toca às relações
entre países capitalistas desenvolvidos e países subdesenvolvidos, ocorrido
quando da primeira «crise do petróleo», em 1974, constituído pelo seguinte
telegrama:
«Nova
Iorque, 27 (UPI) – Existe uma compreensível preocupação em Washington por uma
reunião de vários países produtores de bauxite, programada em princípio para
cinco de Março em Conakry (Guiné). Alguns peritos consideram que a conferência
poderia ser o começo da criação de uma série de cartéis internacionais que
controlariam as matérias-primas essenciais para as nações industrializadas, o
que poderia fazer retroceder a economia norte-americana em mais de 40 anos».
A
notícia foi difundida por todo o mundo, incluído o subdesenvolvido, produtor de
matérias-primas. No entanto, foi redigida numa agência norte-americana, a
partir de Nova Iorque, e nem sequer refere os interesses dos pobres produtores
de matérias-primas que estão em causa, o facto de os países industrializados
lhes imporem preços de miséria. Limita-se a criar a ideia de que a «preocupação
em Washington «é compreensível» - o que é o mesmo que dizer que o que é de
salvaguardar são os interesses dos mais ricos na fixação dos preços das
matérias-primas, o que, além do mais, legitimará quaisquer represálias destes à
realização da reunião de Conacry ou às decisões que nela se tomarem contra
esses interesses.
O
que se passa com a informação escrita verifica-se também com a radiofónica e
igualmente com a televisiva, hoje em dia especialmente influente, sendo os
filmes de reportagem produzidos também por um reduzido número de transnacionais
que os vendem às estações de televisão local.
XI
Ao
longo da História, não há notícia de que uma qualquer situação de eficiente
domínio ideológico dos sectores sociais preponderantes lhes tenha garantido a
perpetuação, a inalterabilidade do sistema político-económico que lhes
proporcionava o poder.
Nenhuma
séria análise da história da economia consegue desdizer este facto irrefutável,
constatado por Marx: a evolução económica é inespartilhável por qualquer colete
de forças ideológico; segue o seu curso imparável. Se a ideologia, as
iniciativas governativas ou empresariais se lhe colocam no caminho, procurando
barrar-lhe a passagem, ou contorna habilmente esses obstáculos, ou pura e simplesmente
os estilhaça, mas prossegue o seu curso.
Não
é difícil escolher exemplos para demonstrar isto. As leis anti-trust (anti-monopólio)
de que já antes falámos, decretadas nos Estados Unidos com o intuito de
garantir a soberania do mercado, a predominância da pequena empresa e a
apregoada livre concorrência, não evitaram que actualmente 70% da produção do
país tenha origem numas escassas centenas de empresas; que, em cada sector de
produção, 3, 4 ou 5 empresas dominem o respectivo mercado em regime de oligopólio.
A Contra-Reforma e o seu fanático e cruel domínio ideológico-religioso não
garantiram a sobrevivência do domínio dos terratenentes feudais, nem impediram
que o comércio e a indústria prosperassem e gerassem o sistema capitalista.
Pese
embora a diversidade dos meios, não é fácil divisar, entre o domínio ideológico
da época da Contra-Reforma e o da era actual, uma diversidade de eficiência em
matéria de condicionamento mental, manipulação informativa, castração cultural,
modelação de comportamentos dos sofredores desses domínios.
Neste,
como noutros casos, a diferença está sobretudo no observador. A Contra-Reforma
é um fenómeno político-ideológico do passado, que é alheio à nossa experiência
individual, e que podemos observar de fora e compreender melhor, porque lhe
conhecemos o início e o fim, a sua génese, a sua evolução. Quase somos tentados
a julgar ridículo o convencimento dos homens de Estado de então de que poderiam
assegurar pelos séculos fora a manutenção do statu quo.
No
entanto, não temos dúvidas de que aqueles que viveram esse período histórico,
quer como governantes, quer como governados, não tinham a mesma visão das
coisas. O sistema em que viveram durou muitos séculos; a história não estava
então suficientemente desenvolvida, nem tinha assumido ainda carácter
científico, de forma a possibilitar a consciência da transitoriedade dessa fase
histórica; a experiência individual, de duração muito inferior à da vigência do
sistema, não permitia de modo nenhum abarcar toda a sua história nem constatar
a sua lenta e larvar evolução. À escala da experiência de uma vida, o sistema
apresentava-se efectivamente como inalterável.
De
modo semelhante se passam as coisas nos dias de hoje, para quem analisa o
sistema a partir apenas da sua experiência pessoal.
Objectar-se-á
que actualmente a análise da história permite aos homens terem uma visão mais
completa da realidade.
Efectivamente
assim é. Na prática, porém, as coisas passam-se de outro modo.
O
poder político e económico, detentor dos meios de informação e de difusão da cultura
de massas, divulga ao público apenas a ideologia conforme aos seus interesses.
Para os cidadãos em geral, a análise histórica e as conclusões que permite são
coisas desconhecidas. Também nesta área se verifica a mais dramática das
contradições da época em que vivemos e a que já nos referimos: enquanto a
ciência, de descoberta em descoberta, atinge expoentes que obrigam a uma
compreensão do Mundo completamente nova, os povos continuam mantidos alheios a
tudo isso e com um grau de cultura deplorável, feito de mensagens repetidas,
sem profundidade, que são impelidos a aceitar de forma acrítica – as mensagens
que convêm ao poder.
O
domínio ideológico é, portanto, semelhante. Se quisermos fazer uma comparação
rigorosa, chegamos até à conclusão de que, apesar dos meios técnicos evoluídos
utilizados pelo poder capitalista para assegurar esse domínio nos nossos dias,
os seus intentos não são conseguidos de forma tão global como em certas épocas
passadas.
De
facto, o conhecimento do que ocorre noutros países ( que é agora mais fácil do
que outrora ) permite inclusive conhecer experiências de superação do sistema,
umas mais, outras menos conseguidas, embora a maioria da informação sobre tais
experiências também chegue aos seus destinatários «tratada» através das
agências de informação ocidentais mundialmente dominantes.
O
que mais tende a fazer com que alguns sobrevalorizem a capacidade de
predominância ideológica do poder actual é, por um lado, o anseio de verem
transformada esta sociedade em que vivemos e, por outro, a constatação de que o
capitalismo ainda tem fôlegos para sobreviver provavelmente para além das suas
vidas.
Sejam
quais tenham sido os factores que levaram a que certas experiências do
socialismo degenerassem e conduzissem ao colapso, ou a medidas de
reestruturação dos regimes (aspecto a que nos referimos em Reflecções sobre a Perestroica), as centrais dominantes na
informação e na formação da opinião, de um modo geral, não perdem a
oportunidade de apontar tais inêxitos como evidenciadores de que o socialismo
teria deixado de ser uma alternativa ao capitalismo e de que não poderíamos
futurar ou aspirar a que se venha a tornar o sistema capaz de lhe suceder na
cadeia do processo histórico – o que é o mesmo que dizer que não existiria
alternativa conhecida, ou deduzida por qualquer projecção, para o sistema
capitalista predominantemente vigente.
Esta
ideia não tem qualquer base científica, como já anteriormente dissemos, mas a
aparente «recuperação do fôlego do capitalismo» a que assistimos presentemente,
numa época em que quantos anseiam pela mudança esperavam assistir ao seu
declínio, é, sem dúvida, propiciadora de grande perplexidade nos menos atentos
aos fenómenos sociais, e esta perplexidade é campo fértil para gerar a confusão.
Ao
contrário do que alguns poderão pensar ou sugerir, a transição de uns sistemas
para outros não se faz necessariamente em linha recta, antes registando avanços
e recuos. Isto é ainda mais verdadeiro na nossa era, em que os contactos e
interferências, resultantes da coexistência de sistemas diferentes em
diferentes países, são mais directos e intensos do que outrora.
Voltando
à Contra-Reforma, por exemplo, não nos esqueçamos de que se seguiu à Reforma e
à intenção de ultrapassagem do sistema feudal a que estava associada, mas,
apesar do domínio ideológico que exerceu, nem por isso impediu que esta
acontecesse, antes se transformou no canto do cisne de tal sistema.
Em
suma: a evolução do sistema capitalista não é susceptível de ser registada num
gráfico em função de coordenadas absolutas de tempo e grau de desenvolvimento.
Não obstante, tal não impede que se tirem conclusões sobre a sua evolução
relativa ao longo dos anos, assim como não nos tolhe a certeza de que um dia
será superado.
Fatalmente
um dia virá em que o sistema mudará. Nessa hora, não restará outra saída aos
meios de divulgação da ideologia que não seja adoptar os princípios conformes
aos novos objectivos sociais da produção, então claramente assumidos. Quando o
poder mudar de mãos, a natureza da informação e das mensagens também se
modificará.
XII
É
conhecida a afirmação de que, quando o Homem começa a ter consciência de um
problema que o afecta, é porque já está em vias de ter possibilidade de o
resolver.
Trata-se
de uma asserção baseada na experiência, mas que, no entanto, tem um fundo de
verdade.
A
cultura, a ideologia que preponderam numa dada sociedade são sempre as
perfilhadas pelos sectores sociais que detêm o poder económico e político.
Este
ponto de vista tem que ser entendido de forma não esquemática; caso contrário,
teríamos que concluir que o domínio de uma dada ideologia seria irremovível, e
que inalterável seria também o ascendente social das classes que ocupassem o
poder. Isto é: os sistemas político-económicos seriam insusceptíveis de
perecerem e darem lugar ao aparecimento de outros.
Sabido
que é que o processo histórico se analisa numa sucessão de sistemas, fatalmente
surgem períodos em que se prenuncia a transição para uma nova estrutura
económico-social em que novas forças sociais ascenderão ao poder.
Se
a grande vaga de fundo do evoluir histórico é constituída pela força insubjugável
dos factores económicos, são, porém, os homens quem opera as transformações na
estrutura do poder político.
Só
o farão, porém, se previamente ganhar corpo e um bom grau de generalização, a
ideia de transformar o sistema em vigor.
Tal
acontece quando se propaga a convicção de que novas forças sociais passaram a
ter a possibilidade de ascender ao poder e é bom e razoável que o façam.
A
ideologia anteriormente dominante vê-se, assim, posta em causa, num processo
gradual que conduz à sua perda de domínio.
Por
isso, neste âmbito é correcto dizer-se que quando os homens começam a colocar a
si próprios o problema da mudança de sistema, é porque já estão criados, ou a
criar-se, os pressupostos para que isso possa acontecer.
O
Homem vive em sociedade. Também noutras espécies animais os indivíduos vivem
agregados e mantêm relações de interdependência.
Se
outros espécimenes agregam e coordenam funções e actividades de interesse comum
por instinto, o Homem fá-lo igualmente por instinto, mas também de forma
consciente e gradualmente sempre mais organizada, desde que ultrapassou o seu
estádio de ser irracional.
A
vida em sociedade exige regras, estabelecimento de valores que por todos têm
que ser respeitados e proscrição de procedimentos que atinjam esses valores;
exige, em suma, uma moral.
Ao
contrário do que uma concepção idealista possa sustentar, esta moral não é, nem
nunca foi, um rol de princípios imutáveis ao longo dos milénios. A História, e
o próprio estudo comparado da vida social das diferentes civilizações nos
nossos dias, mostram-nos que os princípios e valores morais assumem natureza
diferente, sobretudo em função da sucessão dos sistemas económico-políticos no
processo histórico, mas também em diferentes fases de um mesmo sistema.
A
moral, como produto da cultura que é, e condicionada pela ideologia como está,
move-se também dentro dos limites impostos pela infra-estrutura económica.
No
entanto, também ela, ou sobretudo ela, se antecipa aos sistemas vindouros,
espelhando a rejeição de valores de justiça caducos e a adopção de novos
valores correspondentes à ideologia e aos interesses económicos e sociais das
classes em ascensão.
Assim
como em cada sociedade existe uma ideologia dominante, também existe uma moral
dominante, conforme a essa ideologia e conforme também aos interesses dos
sectores sociais que detêm o poder no sistema económico.
Esta
constatação implica, porém, que existe outra moral (ou mais do que uma) que não
disfruta de um acatamento maioritário e que tende a identificar-se com a
ideologia e os interesses dos sectores sociais economicamente subjugados. Isto
é: em qualquer sociedade em que os homens estejam agrupados em faixas sociais
com interesses económicos opostos, ou mesmo contraditórios, fatalmente surgirão
ideologias e opções morais que igualmente se confrontarão.
Ultrapassadas
as formas primitivas de vida comunitária, chegados os homens às sociedades
divididas em classes sociais, nenhum sistema de moral e nenhum sistema jurídico
que nele se inspire têm um valor universal correspondente aos interesses e modo
de pensar de todos os indivíduos. As normas de direito, público ou privado, os
decálogos morais ou religiosos, por mais que pretendam simulá-lo, não resolvem,
nem podem resolver, as contradições de interesses e valores que se enfrentam no
palco social.
Passando
ao concreto das sociedades capitalistas dos nossos dias, de um lado, está a
moral dominante que aceita e defende que são legítimas as desigualdades
sociais, que uns homens construam o seu ascendente social em detrimento ou
mesmo explorando outros, que o saber e a cultura sejam transformados em
mercadorias e que a sua propriedade ou difusão possam ser um exclusivo de
entidades estaduais, ou de grandes empresas privadas; do outro, está a moral
humanista igualitária, para a qual o princípio da igualdade na consideração dos
interesses, na satisfação das necessidades, no respeito pela personalidade de
cada indivíduo, é uma regra de ouro da vida em sociedade, é o fundamento
irrecusável de toda a ética social, sob pena de vivermos segundo as normas de
um contrato social hipócrita e paradoxal que institui uma sociedade de
insociáveis.
Esta
contradição de teses e valores morais não é uma simples contraposição de pontos
de vista de diferentes pensadores; não é o resultado de simples processos de
pensar a realidade. Reflecte antes uma realidade que é ela mesma contraditória;
uma realidade social em que os interesses de diferentes classes e sectores se
contrapõem.
Por
isso mesmo, por mais que poderosos meios de influência da opinião pretendam
impor como moral universal a moral das classes dominantes, nunca lograrão o seu
objectivo.
Para
conseguirem impor uma moral universal, seria preciso que suprimissem antes a
existência de classes sociais, mas, quando tal acontecesse, seria a própria
ideologia da desigualdade a perder razão de ser.
Perseguida,
caluniada está a moral socialista em todo o mundo ocidental.
É
a moral da esperança na construção de uma sociedade de homens livres, fraternos
e com igual estatuto económico, político e social; é o mais belo acervo de
princípios humanistas que os homens conseguiram elaborar.
No
momento que passa, os meios de informação dominantes empenham-se em fazer crer
que é uma moral em crise e sem futuro.
Porém,
mais do que a consciência do problema que é para os homens a persistência de
uma sociedade desumana, esta moral encerra já os valores que orientarão as
sociedades igualitárias do futuro.
XIII
Quando
se fala de moral, convém arredar concepções simplistas da forma como ela se
manifesta nos indivíduos, assim como dos processos por que é divulgada.
Claro
que é possível produzir um sistema de normas de moral social, alinhar um
conjunto de regras fundamentais, assim como se elabora um código jurídico,
Porém, salvo no âmbito da religião (e mesmo aí em termos limitados), não é
usual que tal aconteça. Os próprios Estados, ou os partidos políticos, não
organizam ou programam códigos morais.
Isto
acontece, porque, nas sociedades actuais, a primazia na disciplina das relações
sociais está atribuída às leis, ao direito.
Todavia,
a moral está implícita nas regras de direito, assim como nas opções
ideológicas, nos programas políticos, nas tradições, nos comportamentos gerados
pelo mimetismo social.
Esta realidade traz fartos «benefícios» aos
Estados.
Sendo
o direito, as leis, apresentados como regras pretensamente objectivas e
neutrais, apenas destinadas a regular de forma igual as relações de todos os
homens, a moral, a avaliação da justiça intrínseca das soluções legais fica
esquecida, é marginalizada do processo de formação das soluções jurídicas e
políticas.
No
entanto, só a moral, a par da ciência, nos permite avaliar a justeza de tais
soluções.
A
moral (condicionada pela ideologia) não está só implícita no direito, está-o
também, na generalidade dos comportamentos sociais.
Enquanto
a religião e a política do Estado se mantiveram interligadas – o que, na Europa
Ocidental, atingiu o expoente máximo no período da Inquisição, mas se
prolongou, nalguns países, pelo século XX dentro – a Igreja, conseguindo impor
às comunidades civis o domínio de uma moral conforme aos interesses dos
senhores feudais, ou das classes que se lhes associaram ou substituíram no
poder, tornava presente na consciência de cada um, de forma constante, a
fronteira entre o que alegadamente era moralmente bom e moralmente mau.
O
autojulgamento das atitudes de cada um era imposto não só pelo sentimento de
culpa incutido por uma autoridade moral cruel e implacável, como pelo receio da
censura colectiva da comunidade que, no seu conjunto, tendo interiorizado
também os comandos do mesmo código moral, agia sobre os seus transgressores,
marginalizando-os da vida social ou classificando-os como de nível moral
inferior.
Hoje
em dia, o Estado pode prescindir da tarefa de elaborar e fazer cumprir um
conjunto de regras morais claramente definidas e expressas. É-lhe até mais útil
e eficaz pescar nas águas turvas da pretensa amoralidade.
A
ideia-imagem agora mais divulgada, quer pelas multinacionais da comunicação
social, quer pelas da publicidade, quer, ainda, pelos governantes e partidos
dominantes dos países capitalistas, é a de que a liberdade de cada um acaba
onde começa a liberdade dos outros. Trata-se de um regresso ao mito
individualista dos primórdios do liberalismo que, revisto e aprimorado, serve
também à perfeição para a criação do novo mito da soberania do cidadão
consumidor perante o mercado e da sua independência perante os monopólios que
lhe procuram vender os seus produtos (além de o explorarem como mão-de-obra ).
Esta
ideia de liberdade é especialmente sedutora e potenciadora do individualismo e
do egoísmo que há dentro de cada um, acena com uma bandeira de falsa esperança
à insegurança dos homens solitários das sociedades de hoje, convence-os,
falsamente, de que podem almejar viver seguros num círculo ideal de liberdade e
de que é essa vida isolada que lhes proporciona a felicidade e a realização como
seres humanos.
No
mirífico círculo individual de liberdade, demarcado do dos outros indivíduos,
cria-se o sonho de uma vida sem regras constringentes, sem assédios moralistas
da comunidade… sem responsabilidades políticas e sociais…
Toma
corpo a ilusão de que a moral se tornou obsoleta e incómoda. Pois não é ela um
código de conduta eminentemente social?
Qual
o seu préstimo na ilha que seria o espaço de liberdade reservado ao uso
exclusivo de cada um?
Não
é por acaso que a política de Estado e as fontes de domínio ideológico dos
países do capitalismo avançado optam agora pela criação destes novos mitos.
Pelo
contrário, trata-se de procurar assegurar o seu domínio, em consequência da sua
crise moral e ideológica.
A
moral socialista que se foi desenvolvendo, particularmente no nosso século,
denunciou à evidência o carácter falso e hipócrita da moral burguesa, baseada
na exploração do próximo e na desigualdade.
Ao
contrário do sem fim de inutilidades que os monopólios nos persuadem a comprar
à força de doses maciças de publicidade, a moral burguesa, desde que claramente
divulgados os seus fundamentos desumanos, não tem quem a compre, nem a preço de
promoção.
No
entanto, o poder já entendeu que, mais do que enfileirar os cidadãos a recitar
preceitos de conduta e ladainhas, interessa sim que os seus comportamentos
sejam os mais convenientes ao sistema e aos seus interesses.
O
cidadão, senhorialmente instalado no seu círculo de liberdade é, para o poder,
um moldável boneco de papel. Débil – porque isolado dos outros; sem resistência
ideológica – por desacompanhado de conselho ou contraponto crítico; limitado na
sua capacidade de análise das questões sociais – por excessiva dependência da
informação uníssona e concertada da comunicação social dominante. Mais do que
isso, o cidadão e senhor, cada vez mais, em vez de encontrar na realidade
social os comportamentos que tende a imitar, fá-lo no mundo de ficção que lhe é
servido pelos media, mundo esse
cuidadosamente fabricado por estes e no qual o valor supremo é a ascensão
social através da acumulação de bens materiais. Nesse mundo imaginário não
existem valores morais de justiça colectiva, de equilíbrio na repartição dos
resultados da produção, que é eminentemente social.
Mais
do que isso, na sua imagem estão pura e simplesmente ausentes quaisquer
considerações morais. O objectivo é precisamente o de desinibir o consumidor,
de o desprender dos conceitos morais que necessariamente assimilou, ou
assimila, no mundo real e que estão implícitos no relacionamento e nos
comportamentos sociais.
Quem
quer pode sentir-se económica e humanamente igual a um seu vizinho e com ele se
relacionar num plano de igualdade. Mas a ideologia dominantemente propagada
procura convencê-lo de que no seu círculo imaginário de liberdade, cada um faz
o que quer (operando assim o desbloqueamento moral), e a publicidade, tirando
proveito dela e complementando-a, procura persuadi-lo de que, se comprar o
automóvel X, será, sem dúvida, superior ao seu vizinho, pertencerá a um estrato
social superior.
Além
da imoralidade implícita na ideia divulgada, trata-se, também, de uma hábil
trapaça. É que não é a maior ou menor acumulação de bens de consumo que
estabelece as decisivas diferenças no estatuto social das pessoas, mas sim a
acumulação de bens de produção – e essa, só a fazem as classes dominantes, ou
seja, precisamente aquelas que fabricam os falsos sonhos de promoção social,
para conseguirem a sua própria ascensão, acumulando lucros, esses sim, bem mais
reais e verdadeiros.
Na
época em que vivemos, a grande maioria dos cidadãos é presa do sistema de
reprodução ideológica e de representação da realidade constituído sobretudo
pelos meios de comunicação social, com especial destaque para os audio-visuais.
Por eles imita os seus comportamentos, comportamentos que lhe são representados
como «normais», comuns a toda a gente. Da moral que têm implícita, não chega a
ter consciência. Os produtores das imagens e mensagens sabem bem a forma de o
impedir.
…Mas
não o conseguirão eternamente.
XIV
Já
há muito que o socialismo deixou de ser apenas uma concepção da vida social.
De
1917 até aos nossos dias, foram-se implantando em muitos países regimes
políticos que se propuseram organizar sociedades segundo as opções políticas,
económicas e morais socialistas.
O final dos anos 80 registou o reconhecimento
de situações de crise dos sistemas vigentes em diversos desses países e mesmo a
ruína de alguns deles.
A
comunicação social dominante decretou já a falência do socialismo para todo o
sempre.
O
cidadão sensato não poderá, porém, deixar de interrogar-se: seria possível um
equívoco de tão grandes dimensões?
Se
a fluência e a lógica do devir histórico fossem necessariamente outras, seria
possível contrariá-las em tais proporções de forma, prolongamento no tempo e
extensão territorial e demográfica?
Entre
as mensagens agora mais repetidas pelas centrais da comunicação, está a de que
o momento actual se caracteriza pela queda das ditaduras.
Se
realmente a questão fosse apenas a relativa à superestrutura política, à forma
de organização dos Estados, não seria difícil aceitar uma tal tese, ainda assim
com muitas reservas e reparos.
De
facto, a análise da História permite-nos concluir que tanto o Estado
capitalista, como o socialista, podem estar organizados quer de forma
ditatorial quer de forma democrática (embora estas noções requeiram outras
precisões). Por conseguinte, uma mudança da ditadura para a democracia, dentro
de um destes sistemas, pode operar-se com alguma facilidade; uma temporária
situação de ditadura é comportável pelo sistema.
Poderá
ser, ou não, a forma de organização do Estado que no momento mais favorece a
manutenção ou o natural desenvolvimento do sistema económico vigente, mas, em
todo o caso, não colide com ele; não constitui a sua negação.
Será,
quando muito, a negação de uma forma de organização democrática – o que é
diferente.
Ora,
bem se vê que, quando se fala da existência de sistemas socialistas implantados
no mundo, da sua longa história, da sua influência na história deste século, do
seu peso na balança das relações mundiais, a realidade que figuramos não se
encerra na tacanhez de uma análise que não vai além da mera distinção
superestrutural entre regimes ditatoriais e não ditatoriais (mesmo esta
bastante primária).
Do
que se trata é de uma diferença de fundo, é da diversidade de sistemas
económico-sociais, sistemas que, na cadeia do processo histórico, correspondem
a etapas diferentes da história da humanidade.
A
questão é a de saber: a ser verdade que o capitalismo estaria aí para durar
como sistema dominante; a ser verdade, portanto, que a infraestrutura
económica, o desenvolvimento das forças produtivas não permitiriam veleidades
de implantação de um sistema socialista no mundo, ainda que sob forma
incipiente, sujeito a erros e despistes; a ser verdade, ainda, que a dinâmica
da produção não poderia ter outro fundamento que não fosse a iniciativa
individual e a mira do lucro; seria possível implantar sistemas socialistas com
as proporções que são conhecidas? Seria viável a criação de um sistema
antagónico em relação ao dominante e sem condições materiais para existir, apenas
por obra da vontade humana (aliás, também ela, então, sem razões materiais para
se formar e manifestar)?
É
evidente que não.
Só
uma mente doentiamente idealista, totalmente alheia à realidade material, ou a
mais pragmática propaganda o poderão sustentar.
A
experiência socialista, com a dimensão que alcançou, só foi e é possível, por
estarmos numa fase histórica de transição de sistemas.
Se
recuarmos na História, poderemos constatar, por exemplo, que também na era
feudal o capitalismo só conseguiu atingir expressão de proporções idênticas,
quando já estava em vias de substituir o feudalismo como sistema dominante.
O
que é preciso ter em conta e reter, além do mais, é que, se é certo que o
socialismo já tem pressupostos e determinantes materiais para existir, certo é
também que não é ainda o sistema dominante e está longe de atingir a
sua maturidade.
À
escala da História, 70 anos são pouco tempo como fase de transição de um
sistema económico-social dominante no mundo para um outro.
Não
podemos esquecer-nos, designadamente, de que o nível de desenvolvimento
económico é muito diferente de uns países para outros; de que a grande maioria
da população mundial vive em países de fraco desenvolvimento; de que o
socialismo, além de outras condições de que necessita para atingir a
maturidade, pressupõe uma imprescindível: a de poder dispor de uma situação de
grande desenvolvimento das forças produtivas.
Hoje em dia tornou-se claro, mesmo para os
mais confiantes nas experiências socialistas até agora existentes, que estas
são ainda concretizações incipientes dos ideais de organização social que têm
por meta.
Tais
experiências não são em si voluntaristas, não são, nem podiam ser, resultado de
um qualquer arroubo idealista, não se produziram à revelia do processo
histórico. Mas as condições em que decorreram, nomeadamente o cerco capitalista
que permanentemente sofreram, o insuficiente desenvolvimento económico com que
contaram fizeram com que o voluntarismo despontasse aqui e ali em muitas das
soluções e estratégias políticas concretamente adoptadas (o que é bem
diferente!); conduziram também a que fossem tomadas muitas decisões que, à
distância, nos parecem espantosamente erradas, por ausência absoluta de
alternativas. Tudo isto, para além de todos os erros inevitáveis sempre que o
Homem se propõe fazer pela primeira vez uma obra de tão grande envergadura.
O
esforço de análise que fizemos em Reflexões
sobre a Perestroica dirigiu-se especialmente à compreensão das
condicionantes concretas de uma das mais vultuosas experiências de socialismo.
Recusámo-nos, com efeito, a dar por boas as críticas que procuram julgar
sumariamente a experiência socialista a partir dos resultados que foram ou não
obtidos.
A
intenção não é a de desculpabilizar ninguém de erros e excessos cometidos, mas
a de reconduzir a análise das situações geradas a um plano de objectividade e
rigor que rejeite as explicações subjectivistas e pessoalistas em relação a
todos os desvios, eros e despistes registados na história dos países que
experimentaram ou ainda experimentam, o socialismo.
Tais
explicações, na sua versão pró-capitalista, pretendem sugerir que o socialismo
é apenas produto da imaginação ou da perversidade de alguns, que não é uma
etapa histórica que fatalmente se percorrerá e que, por consequência, as
tentativas da sua concretização serão sempre goradas, sendo possível a sua
reabsorção pelo capitalismo dominante.
Na
sua versão pró-socialista, são um expediente simplista que pretende fazer
incidir sobre os ex-dirigentes socialistas do Leste da Europa todo o odioso do
que houve de mau nos seus regimes e tende a omitir, ou esquecer, a análise da
história destes e do contexto histórico mundial em que decorreu, análise que é
absolutamente imprescindível à actualização teórica do socialismo.
Tão
importante como julgar os autores dos erros, é descobrir o meio de não os
cometer no futuro, através de uma rigorosa análise dos procedimentos e acontecimentos
passados à luz das suas condicionantes históricas.
A
moral socialista é também isto, e o método científico assim o impõe.
XV
A
ausência de compreensão do sentido da História tem estado na origem de muitas
teorias artificiosas e construídas sobre a possível evolução da situação
mundial, muitas delas produto de um manifesto ecletismo.
Na
sua base está a ideia de que, se, por um lado, o regime de livre iniciativa e
livre mercado, tendo-se revelado como de graves consequências sociais e violador
dos princípios humanistas mais elementares, sofreu já uma transformação ao
longo dos tempos, quer pela intervenção do Estado no domínio da economia, quer
pela assunção, por este, de um vasto conjunto de responsabilidades sociais; se,
por outro, os países socialistas, tendo-se proposto como tarefa prioritária a
satisfação de necessidades colectivas, estariam hoje impossibilitados de
atingir este objectivo por inviabilidade do seu sistema económico; então a
solução seria a que é proporcionada pelos países do capitalismo avançado, cuja
economia é de mercado, mas sem os inconvenientes do capitalismo selvagem, e cujo
Estado proporcionaria aos cidadãos em geral um bom número de regalias.
Entre
muitas outras manifestações desta ideia, podemos citar, como mero exemplo, um
artigo de Ivan Pedro Martins intitulado «J. K. Galbraith e as Mudanças do Leste
Europeu», publicado no Diário Popular de 20 de Janeiro de 1990.
Nele
se escreve nomeadamente: «O capitalismo do séc. XX, principalmente depois da
revolução russa de 1917, incorporou direitos sociais ao seu funcionamento. O
salário mínimo, a limitação das horas de trabalho semanais, as férias
remuneradas, a assistência médica, a protecção da infância e da velhice, a
organização do ensino em escala universal, as aposentações, a escolha dos
homens do Governo pelo voto livre dos cidadãos, tudo isso e muito mais que
seria subversivo no séc. XIX e no princípio do séc. XX, é pacífica tese de
todos os partidos políticos».
Em
reforço do seu ponto de vista o articulista cita J. K. Galbraith: «O facto mais
importante que devemos ter em mente é o seguinte: há um mundo de experiência na
transição do puro capitalismo para o sistema misto que hoje prevalece no Oeste e nas ilhas do Pacífico. Não há
qualquer experiência digna de nota em recuar do socialismo puro para o tipo
ocidental de economia mista» (sublinhados
nossos).
Segundo
esta tese, portanto, o sistema que vigoraria nos países ocidentais seria
«misto».
Em
primeiro lugar inquirimos: misto entre quê e quê?
De
facto, se o que se pretende dizer é que o sistema tem tanto de capitalista como
de socialista, se é essa a sua mistura, porque lhe chamará o autor do artigo «o
capitalismo do séc. XX» e não, por exemplo, o socialismo do séc. XX ou outro
nome próprio para designar esta realidade que já não se identificaria com
qualquer destes dois conceitos?
Desde
que a dialéctica chegou ao mundo do pensamento na sua forma materialista,
registam-se com frequência exercícios de interpretação da evolução histórica
que sugerem ser dialécticos, mas que disso nada têm.
Isso
acontece também no caso que estamos a analisar. O capitalismo avançado é
caracterizado como se fosse a síntese final, definitiva, das experiências
contraditórias do socialismo e do capitalismo primitivo.
Esta
tese levar-nos-ia a concluir que esta sociedade-síntese assumiria uma feição
estática, visto que as conquistas sociais seriam irreversíveis; não existiriam
contradições internas; o capital e o trabalho viveriam para sempre em boa
harmonia, como sonhavam desde há mais de um século religiosos pseudo-empenhados
na resolução dos problemas sociais, corporativistas e inúmeros pequenos
burgueses; e a História, enquanto registo da sucessão dos sistemas
económico-sociais, ficaria sem futuro, teria atingido a última (embora
eventualmente eterna) das etapas.
Este
modo de ver as coisas terá muito de metafísico, mas tem pouco de realista.
Para
começar, reparemos em que o mundo não são só os países ocidentais ricos. A
riqueza destes e as magras benesses que as grandes transnacionais neles
sediadas concedem aos trabalhadores e outras classes desfavorecidas são obtidas
à custa da exploração da mão-de-obra e das matérias-primas dos países
subdesenvolvidos. Assim como dos lucros da venda a estes países de produtos
industriais. Sonhar com um mundo em que todos os países fossem como os do
capitalismo mais avançado é o mesmo que acreditar na possibilidade de se
organizar uma sociedade em que todos sejam capitalistas e não haja
trabalhadores. Poder-se-ia imaginar que Moçambique, Cabo Verde, O Brasil, ou
mesmo Portugal, já apelidado de país industrializado, poderiam adoptar, por
simples decisão sua, a forma de organização económica, o estilo e o padrão de
vida dos países capitalistas avançados? Poderiam fazê-lo à uma todos os países subdesenvolvidos
e mais aqueles países socialistas cujo grau de desenvolvimento das forças
produtivas é ainda inferior ao dos do capitalismo avançado? Que mão-de-obra
barata lhes sobraria para explorar? A quem iriam emprestar a juros? Quem teriam
de si dependente para o fornecimento de bens de produção, tecnologia, produtos
industriais? A quem iriam comprar matérias-primas a preço baixo? Que recursos
naturais alheios lhes sobrariam para explorar?
Em
todo o caso, vejamos: diz-se que o capitalismo do séc. XX incorporou direitos
sociais principalmente «depois da revolução russa de 1917».
Seja-nos
permitido concluir que, se se faz referência à revolução russa, é porque se lhe
atribui influência na «incorporação de direitos sociais» pelo capitalismo.
Já
agora, interroguemo-nos: porque é que teve essa influência?
É
evidente que não foi porque os Estados capitalistas tivessem todo o gosto em
seguir o exemplo dos revolucionários russos. O que tiveram foi a consciência de
que, se não optassem pela concessão de regalias sociais, as classes
desfavorecidas poderiam seguir o exemplo das suas congéneres russas (como
efectivamente aconteceu em vários países), operando a mudança de sistema e
pondo termo ao domínio e à própria existência da classe capitalista.
Mesmo
assim, se o fizeram, não foi por iniciativa espontânea, ditada apenas pela
consciência deste «perigo», mas sempre forçados por lutas sociais empreendidas
pelas classes espoliadas, muitas delas inspiradas não só na revolução russa,
como noutras experiências socialistas.
Não
se pense que as regalias alcançadas são irreversíveis.
Ainda
antes das situações de crise que se geraram nos países da Europa de Leste que
haviam adoptado projectos socialistas, já nos E.U.A., com Reagan, e na
Grã-Bretanha, com Tatcher, foram empreendidas políticas designadas por
liberais, cuja nota comum era a de reduzirem os compromissos sociais do Estado.
O mesmo se passa actualmente em Portugal e novamente nos E.U.A., agora com George
Bush e a pretexto de reequilibrar a economia.
Salários
mínimos, pensões de reforma, subsídios de desemprego são coisas que só são
importantes se os seus valores forem suficientes; os seus montantes são
discutidos periodicamente por representantes de patrões e trabalhadores. Assim
como há épocas em que o poder reivindicativo dos beneficiários impõe a fixação
de valores elevados, outras há em que uma menor pressão social permite a
degradação dos seus valores reais.
Serviços sociais de saúde, sabemos
como se desorganizaram ou desmantelaram na Grã-Bretanha ou em Portugal.
Só
o ensino geral e pouco mais escapam a esta realidade, mas pela particular razão
de a sua existência ser necessária para habilitar trabalhadores a satisfazerem
as necessidades do sistema de produção. Mas sempre se poderá observar que, dos
programas de ensino, está cada vez mais arredada a preocupação de fornecer uma
cultura humanista, ou mesmo uma simples «cultura geral», precisamente por só
haver a preocupação de abastecer de meios humanos qualificados o sistema
produtivo e o aparelho burocrático empresarial e estatal.
Queremos
com isto dizer que, assim como as revoluções socialistas e a luta dos mais
desfavorecidos determinaram a adopção de políticas sociais nos países do
capitalismo avançado, se essas «forças de pressão» fossem susceptíveis de
desaparecer, a tendência real seria, obviamente, de sentido inverso, de
recuperação pelas classes dominantes, das concessões feitas.
Um
quadro da vida mundial como o que o autor que vimos citando nos sugere está
longe de se tornar realizável: nele estão por pintar o Terceiro Mundo, as
contradições entre classes e entre Estados, os países socialistas que não se
converterão ao «capitalismo do séc. XX» e todas as forças sociais que não podem
deixar de defender as regalias indispensáveis à sua sobrevivência e bem-estar.
Aliás,
mesmo que pintados estivessem, ainda assim o quadro estaria incompleto.
Faltar-lhe-ia
a característica fundamental da História: a dinâmica, o movimento, em suma: a
dimensão tempo.
XVI
Ao
longo das considerações que fomos fazendo, referimo-nos frequentemente a
contradições existentes no seio das sociedades nacionais, no da sociedade
mundial, no interior dos sistemas de produção. Falámos da contradição entre o
socialismo e o capitalismo, da que opõe capitalistas e trabalhadores, do
confronto entre a natureza cada vez mais social da produção no capitalismo
avançado e a apropriação privada dos lucros dela. Aludimos também à influência
da existência do socialismo na forma como se desenvolveu o capitalismo, e ao
condicionamento que este, como sistema dominante, criou ao desenvolvimento do
sistema socialista.
De
facto, só tendo em conta todas estas interacções e influências recíprocas se
pode compreender o real no seu movimento de contínua transformação.
«Os
processos históricos reais não são um mero desenrolar automático de
contradições imutáveis, inicialmente estatuídas e, por fim, um belo dia
reveladas no recôndito dos seus segredos.
«As
próprias contradições reconfiguram-se no interior do processo de
desenvolvimento, adquirem um novo viso.
«No
quadro estrutural e estruturante da unidade dos contrários em luta, decorrem
constitutivamente processos de acção recíproca que determinam o aparecimento e
a evolução de novas formas, de novos conteúdos, de percursos e de ritmos de
fluxão alterados. Não há apenas uma história das contradições; cada contradição
tem também a sua história». (José Barata Moura, in E o Marxismo Científico?).
Quer
isto dizer, entre outras coisas, que, se neste texto se procurou caracterizar
com algum pormenor o estádio actual do capitalismo, confrontando a sua forma
com a que assumia em estádios anteriores da sua evolução, é igualmente
importante analisar o processo evolutivo do socialismo, desde que começou a
implantar-se em 1917 até ao momento actual.
Foi
o que fizemos, em boa medida, em Reflexões
sobre a Perestroica.
Procurámos
então demonstrar que a construção do socialismo inicialmente num só país e
depois num número restrito deles, que nem sequer eram os industrialmente mais
avançados; o facto de ser um novo sistema, em flagrante contradição com o
dominante; a corrida aos armamentos e o impasse estratégico-militar e político
resultante da detenção de armas nucleares altamente destrutivas, que tornou
impossível uma guerra entre as grandes potências; a manutenção de um clima de
guerra fria, obrigando à conservação de uma organização estatal altamente
militarizada por parte dos países socialistas, com menor peso na correlação de
forças mundial, foram razões decisivas para que a organização das sociedades socialistas
assumissem formas muito diferentes das inicialmente idealizadas.
Sendo
certo que a teoria leninista do Estado previa na fase inicial da revolução um
sistema de ditadura do proletariado, certo era também que o considerava como
uma fase transitória, destinada a manter-se apenas até que deixassem de existir
as classes anteriormente dominantes na sociedade capitalista.
Passada
essa fase, estariam criadas as condições para a existência de uma democracia de
base, uma democracia de cidadãos iguais, não divididos em classes, e também
para se entregar ao controlo e à iniciativa popular toda a gestão da produção e
dos assuntos de interesse colectivo. Previa-se mesmo que, finda essa fase
transitória de ditadura do proletariado, o Estado deixaria de ter razão de
existir e pura e simplesmente se extinguiria.
Constata-se
hoje que, por motivo das condições em que o socialismo se desenvolveu, a
evolução, no que se refere ao Estado, foi mesmo, até ao presente, de sentido
inverso ao previsto.
Efectivamente,
a fase inicial da ditadura do proletariado, porque se caracterizou por uma
ligação permanente e directa entre o partido dirigente e as organizações
populares, conseguiu registar uma ampla participação dos cidadãos na vida
política, não em posição seguidista, ou conduzida, mas na própria tomada de
decisões e protagonizando iniciativas.
Pelo
contrário, quando as classes anteriormente dominantes estavam já arredadas
definitivamente do poder económico e político, quando tinham já desaparecido
como classes, o Estado, em vez de se extinguir, distanciou-se dos cidadãos,
armou-se ainda mais, burocratizou-se, ampliou-se mesmo, e acentuou as suas
características de poder especial de repressão – como o definia Lenine.
No
mesmo sentido há quem conclua:
«O
poder revolucionário na União Soviética transformou-se gradualmente em poder de
situações deixando-se de ouvir, pouco a pouco, a voz da diferença e dos
contrários» - (Ulpiano Nascimento, em «As Grandes Alternativas: Socialismo e
Capitalismo», in Diário de Lisboa de 25/10/90).
Segundo
este autor, depois de um período inicial em que se registaram e somaram «êxitos
sucessivos em todas as áreas», «no delírio das realizações participadas e
revolucionárias», logo a seguir, por exigência nacional e de gestão partidária,
pouco a pouco esse socialismo foi-se afunilando por via administrativa quando a
procedimentos e alvos do seu ideário, por crescente centralismo dos mecanismos
de decisão e de execução. Tal comportamento levou a administração soviética a
cercear as liberdades e a prática democrática, caindo no colectivismo
autoritário» (ibidem).
O
autor citado acrescenta, ainda, que o desenvolvimento do socialismo não podia
resistir a estes condicionalismos, assim como à falta de motivação
revolucionária das novas gerações, «pelo que a sua economia começou a perder
velocidade e a transmitir sinais de esgotamento, os quais se acentuaram com as
exigências armamentistas que a «guerra fria impunha, até cair, nos anos 80, na
estagnação».
Como
se vê, este autor conclui também pelo crescente distanciamento do Estado em
relação aos cidadãos.
No
entanto, se, aos menos atentos, o seu ponto de vista poderá parecer
inteiramente coincidente com o que sustentamos, uma análise cuidada registará,
por detrás de conclusões praticamente idênticas, significativas diferenças
quanto à sua explicação.
De
facto, segundo este autor, a primeira causa do desvirtuamento do sistema seria
o afunilamento do socialismo «por via administrativa quanto a procedimentos e
alvos do seu ideário», «por exigência nacional e de gestão partidária». Essa
opção teria conduzido ao «colectivismo autoritário». Este, associado à
sobrevinda «falta de motivação revolucionária das novas gerações», teria levado
à perda de velocidade da economia, com sinais de esgotamento. A «guerra fria» e
a corrida armamentista aparecem só por fim, como um mero acréscimo de
dificuldades criadas à economia, resultantes das despesas militares.
Este
modo de ver as coisas pende para o subjectivismo, atribuindo os desvios
primeiros e decisivos do projecto socialista a meras opções políticas erróneas,
sem ter em conta as condições reais em que tomaram corpo.
A
«guerra fria» não foi perniciosa somente por ter sido (e sê-lo ainda) um
sorvedouro de recursos. A «guerra fria» é apenas uma das feições que tomou o
confronto entre os sistemas, confronto esse que limitou drasticamente as
possibilidades de realização dos ideais do socialismo e condicionou o
desenvolvimento do sistema a ponto de o forçar a tomar uma forma aberrante.
Não
foram os dirigentes revolucionários que por sua vontade optaram por um Estado
militarizado, por uma gestão dos assuntos públicos entregue a um sector
burocrático instalado.
O
Estado assumiu essas características, melhor, o Estado manteve a sua existência
como poder especial de repressão, mesmo depois de abolidas internamente as classes que visava suprimir e cujo desaparecimento
teoricamente lhe retiraria a razão para continuar a existir, porque o modelo
teórico de Lenine contido em «O Estado e a Revolução» não teve na prática condições
para se concretizar. A sua concretização pressupunha que a revolução
socialista, logo de início, alastrasse rapidamente aos países mais
industrializados da época.
Se
tal acontecesse, é evidente que o sistema socialista não contaria com inimigos
externos que pudessem fazer-lhe frente com êxito. Por mais que o pretendessem,
por maiores que fossem, como poderiam os países menos desenvolvidos criar
problemas, afrontar, ou condicionar, o modo de ser de um sistema socialista que
integrasse todas as grandes potências desenvolvidas?
Mas
a História escreveu-se de outro modo.
Desde
o início até ao presente, por a experiência socialista ser pioneira, por
decorrer ainda numa fase inicial de transição de sistemas, por o socialismo
continuar a não ser o sistema dominante a nível mundial e se ter implantado em
países de fraco desenvolvimento económico, por o capitalismo, apesar de
restringido territorialmente, se ter mantido ao longo deste século (XX) numa
fase ascendente e de maturação das suas potencialidades de desenvolvimento das
forças produtivas, porque, em resultado de tudo isto, o capitalismo,
representando as classes e os interesses que as revoluções socialistas
derrubaram internamente, manteve uma situação constante de afrontamento
militar, económico e ideológico ao sistema socialista, o sonho da extinção do
Estado socialista, enquanto poder especial de repressão, não podia passar disso
mesmo – de um sonho.
Esta
situação de impasse reconduz-nos, afinal, à previsão teórica de Trostsky nos
primórdios da revolução quando escrevia: «A revolução socialista começa no
terreno nacional, mas não pode ficar-se por aí. A revolução proletária não pode
manter-se nos quadros nacionais a não ser sob a forma do regime provisório,
mesmo no caso de este ter uma assaz longa duração…Sempre que existe um ditadura
proletária isolada, as contradições internas e externas aumentam
inevitavelmente ao mesmo tempo que os êxitos» (in A Revolução Permanente).
É
isto mesmo que é preciso compreender: os regimes socialistas, até ao presente,
não passaram ainda de regimes provisórios (provisoriedade entendida à escala
macro-histórica da sucessão dos sistemas de produção); estão presos de
contradições internas e externas, as maiores das quais (que se interligam) são
o confronto com o sistema capitalista, que ainda é dominante, e a subsistência,
a destempo, motivada por esse confronto, de uma complexa e opressiva orgânica
estatual que flagrantemente nega as aspirações populares de emancipação civil,
o desenvolvimento económico acelerado e a promoção da qualidade de vida dos
cidadãos nos aspectos material e cultural.
XVII
Pela
mesma razão que discordámos das análises que consideram as despesas militares
originadas pela guerra fria como um mero factor de agravamento dos problemas
económicos dos países socialistas, não concordamos também com a propensão para,
de uma forma simplista, se atribuir a opções administrativas, à criação de um
vasto sector burocrático, ao desejo de defesa dos próprios interesses dos
burocratas instalados no poder todos os males, todos os desvios na organização
interna dos Estados socialistas, em relação ao modelo idealizado antes do seu
começo de concretização.
Constata-se
hoje que os países desenvolvidos registam o fenómeno de um crescendo do sector
burocrático, tanto nas empresas como no aparelho estatal. Isto acontece
(melhor, vem acontecendo) tanto nos países capitalistas como nos socialistas, e
é razão directa do crescente desenvolvimento da produção e das especializações
e necessidades de organização e planeamento que esta envolve.
No
livro (de título discutível) «Capitalismo
e Comunismo – as Perestroicas Necessárias»,
(Publicações Europa-América) transcrevem-se diálogos mantidos entre o reputado
economista soviético Stanislav Menshikov e o também célebre economista
norte-americano John K. Galbraith, por nós já citado neste trabalho
Nesse
livro, lê-se, a dado passo:
«…SM:
Penso que você colocou o dedo num dos muitos problemas da actualidade. É
verdade que ambos os nossos sistemas têm assistido a uma ascensão do poder da
burocracia…Tropeçaremos cada vez mais na burocracia, tanto nas esferas
económica e cultural como na militar e na política.
«JKG:
E na tendência para a centralização burocrática…
«SM:
Sim, um dia chegaremos ao problema da centralização burocrática.
«JKG:
Que, portanto, é uma das tendências fundamentais da nossa época?
«SM:
Exacto.»
A
existência de uma ampla classe burocrática, considerando as razões que a
determinam, sempre seria inevitável, fosse qual fosse a forma por que se
desenvolvessem os regimes socialistas, desque, pura e simplesmente, se
desenvolvessem.
Verdade
é, também, que os burocratas alcançaram um estatuto social que os distingue no
interior das sociedades socialistas que, como é evidente, têm tendência para
defender e gera cumplicidades «classistas».
Tudo
isto acontece, mas não por opção, boa ou má, dos dirigentes dos países que
conhecem um desenvolvimento avançado, pelo que é totalmente destituído de
razoabilidade argumentar com estas realidades com o propósito de os culpabilizar,
assim como denota subjectivismo na forma de analisar e interpretar a
realidade.
A
verdadeira questão da burocracia que se coloca em relação aos países
socialistas não é a da existência ou não de uma «classe» burocrática de grande
amplitude, porque sempre teria que existir. O problema só começa a partir ai, e
consiste em saber se esse estrato económico-social da população se dotou ou não
de poderes excessivos dentro da sociedade; se extravasou das suas naturais
funções e se se substituiu à iniciativa popular; se invadiu a área de
influência dos partidos dirigentes; se, dentro deles, sofreou a democracia
interna; se instituiu um excessivo dirigismo na área económica; se, enfim, se
comportou como classe dirigente, com interesses distintos, com uma ideologia e
uma política próprias diferentes das da maioria da população.
A
história recente, com todas as revelações de procedimentos que proporcionou,
leva-nos a concluir que se registaram inúmeros desvios neste sentido, maiores
ou menores consoante os países.
Contudo,
o verdadeiro desafio que se nos apresenta não é o de simplesmente registar
estes factos, mas o de compreender porque é que tudo isso aconteceu, e, deste
ponto de vista, somos forçados a concluir que os desvios, os excessos
atribuíveis aos burocratas só foram e são possíveis porque o Estado, em
resultado do confronto que permaneceu com o sistema capitalista que se lhe
opõe, manteve as suas características de organização fortemente armada e
repressiva.
Atribui-se
a François Miterrand a afirmação de que todo o homem tem tendência a usar de
todo o poder de que dispõe.
Em
Portugal para exprimir este dado da experiência diz-se, mais simplesmente: se
queres fazer de um homem um vilão, mete-lhe um pau na mão.
A
verdade é que os burocratas tinham à sua disposição um enorme poder, que não
foi criado para defesa dos seus interesses, mas que, porque tais interesses
existiam e eram próprios e em parte distintos dos da demais população, seria (e
é) difícil que não o usassem também em seu proveito.
No
entanto, uma coisa é indiscutível: esse Estado altamente armado era
absolutamente indispensável à subsistência do regime e, só por si, era gerador
de uma imensa burocracia.
Precise-se
ainda que, no contexto do confronto entre sistemas e da natureza que assume, as
armas de um tal Estado não são apenas as de tipo militar. O conflito
desdobra-se em acções de guerra, ou com vista à sua contensão, mas também na
actuação dos serviços secretos, na guerra económica, na propaganda, no combate
ao colaboracionismo que habitualmente lhe estão associados, e tudo isto se
exprime no concreto através da existência de uma vida política interna
excessivamente controlada, com todas as manifestações de discordância avaliadas
com excessivo rigor, em suma, com a democracia altamente limitada.
Perante
isto, nas últimas décadas não faltou quem interpretasse este estado de coisas
como revelador da existência de uma nova classe dominante nos países
socialistas – os burocratas. Alguns não hesitaram mesmo em chamar-lhe uma nova
«burguesia» (cf. i.a., «China e URSS: dois Modelos de Industrialização», de
Charles Bettelheim e Marco Maccio, Portucalense Editora).
Pelo
que já deixamos dito, não se afigura certo este modo de explicar a realidade.
Num
país socialista, a burocracia poderá gozar de posições e cargos mais
prestigiantes ou mais bem pagos, mas, do ponto de vista das relações de
produção, nada existe que torne os seus interesses antagónicos em relação aos
dos demais trabalhadores. Afinal, diferenças de remuneração e de posição social
também existem entre trabalhadores especializados e indiferenciados, sem que
tal implique a sua pertença a classes antagónicas, ou mesmo a classes
diferentes.
Se
os interesses dos burocratas, individualmente considerados ou como grupo
social, fossem antagónicos face aos das classes laboriosas, dando-se como certo
que aqueles tiveram o poder nas suas mãos ao longo de várias décadas, isso não
poderia ter deixado de reflectir-se em todas as importantes decisões políticas,
fazendo inflectir o processo político em sentido divergente, ou mesmo oposto,
ao dos interesses do socialismo.
A
história recente, porém, mostra-nos que isso não aconteceu; bem pelo contrário.
É
ou não verdade que os países socialistas mantiveram ao longo da sua história
uma política activa de solidariedade com os movimentos operários dos países
capitalistas, com os movimentos de libertação dos países colonizados, com os
movimentos anti-racistas e anti-sionistas de todo o mundo? É ou não verdade que
seguiram uma política internacional determinada inequivocamente
anti-capitalista? É ou não verdade que seguiram uma política internacional
determinada, inequivocamente anti-capitalista?
É
ou não verdade que o próprio Estado superarmado e vigilante que organizaram
para servir de suporte a essa política, por maiores proveitos que
proporcionasse e proporcione aos burocratas, por mais restrições que
acarretasse e acarrete à democracia socialista, foi criado, existiu em vários
países ainda existe, pela primeira e fundamental razão da defesa do sistema socialista?
A
resposta a estas questões é evidentemente afirmativa.
Parece-nos
forçoso concluir que, no quadro do expoente de violência que assumiu o
confronto entre os sistemas económico-políticos socialista e capitalista ao
longo deste século, não sobrava espaço de manobra a qualquer outra classe ou
sector social para fazer prevalecer os seus interesses sobre os das classes que
protagonizavam (e protagonizam) o conflito. Por mais que os burocratas do
socialismo pudessem influenciar as decisões, nunca poderiam fazê-lo ao ponto de
contrariarem os interesses fundamentais do sistema que serviam. Isso implicaria
o enfraquecimento ou a morte do sistema e o consequente colapso da estabilidade
carreirista, tão cara aos mesmos burocratas.
XVIII
No livro Reflexões sobre a Perestroica escrevemos:
«Só o iniciar de uma nova época
histórica sob o signo do desarmamento e da Paz permitirá uma substancial redução
do peso do Estado e do centralismo na sociedade soviética; só assim será
possível uma acentuada democratização interna e o reanimar da iniciativa e
participação populares na vida pública, social, cultural, económica». «Não quer
isto dizer que são impossíveis reformas internas antes de se conseguir o
desarmamento, mas apenas que, em tal caso, não conseguirão proporcionar
modificações substanciais e decisivas».
Esta afirmação ajusta-se também a
outros países socialistas.
Parece-nos, porém, oportuno
precisá-la melhor e desenvolvê-la.
O confronto entre os sistemas
socialista e capitalista não é meramente militar, como já dissemos, e perdurará
enquanto o socialismo continuar a ser digno desse nome e o capitalismo existir,
mesmo que se afastem as possibilidades ou reduzam as probabilidades de assumir
aspectos bélicos.
Se atentarmos na política
internacional no momento actual, facilmente nos apercebemos de que, do lado da
União Soviética, os esforços vão sobretudo
no
sentido de acelerar o processo de desarmamento e obter apoio económico urgente;
do lado dos Estados Unidos e outros países do capitalismo avançado, a preocupação
dominante é a de que a União Soviética institua um regime democrático de tipo
«ocidental» e uma economia «de mercado», mesmo antes de quaisquer concessões na
área militar ou de intensificação das relações económicas.
Estes dois procedimentos são de
fácil compreensão, se atentarmos nos problemas internos das potências que se
defrontam e na própria natureza do conflito que as opõe.
No campo socialista regista-se uma
das mais dramáticas contradições: no próprio momento em que é empreendida uma
política corajosa, determinada e com vários êxitos alcançados no sentido do
desarmamento e do fim da guerra fria; na altura em que a desmilitarização do
Estado e a desburocratização da gestão da coisa pública se apresentam como
passíveis de grandes progressos e, com elas, a diluição do conflito Povo/Estado
e a implantação de uma plena democracia socialista; as massas populares,
imersas na confusão ideológica gerada por longos anos de marginalização da vida
pública, aturdidas com a súbita descoberta do mundo fetichista e sedutor das
sociedades de consumo; movidas também pela raiva acumulada ao longo de anos
contra os excessos do poder; em vez de tomarem a iniciativa de apoiarem a
reestruturação da sociedade e do Estado, em vez de apoiarem a recondução do
sistema ao seu funcionamento democrático e socialista, pura e simplesmente
tendem a repudiar o regime como um todo sem conseguiram descortinar, por entre
as formas aberrantes que assumiu, as potencialidades criadoras, o projecto
libertador, a proposta de realização humana que lhe são inerentes, que
hibernaram no seu seio ao longo de décadas de guerra fria, mas que a Primavera
do desarmamento permite agora revivificar.
Esta realidade é fonte de inúmeros
perigos, porque o desarmamento ainda não é um facto consumado, ou irreversível.
Pelo contrário, é um processo lento
e susceptível de inflecções várias.
Se outras razões não houvesse par o
ser, bastariam os interesses das indústrias militares dos Estados Unidos e das
demais potências capitalistas na manutenção dos seus lucros para lhe emperrarem
a marcha.
…E também a vontade política dos
governos destas potências de criarem dificuldades às potências socialistas
rivais…
De facto, não é difícil compreender,
considerando o estado de espírito de grandes sectores da população dos países
socialistas, que, se se ampliarem as liberdades democráticas antes da
desmilitarização, do despoliciamento, da desburocratização do Estado e do
aparelho económico, então fatalmente essas liberdades transformar-se-ão de
imediato em instrumento de contestação do Estado que, permanecendo igual ao que
tem sido, simbolizará o regime tal como existiu e foi vivido e sofrido,
tendendo essa contestação a transformar-se na contestação do próprio sistema.
Pelo contrário, se o desarmamento seguir
adiante, permitindo que os dirigentes tomem a iniciativa da reestruturação
democrática dos órgãos do Estado, com a consequente promoção da participação
das populações na vida política, económica, social, cultural, estarão criadas
as condições para a reconciliação, e a própria identificação, das massas
populares com o poder e o regime, a instauração de uma verdadeira democracia
socialista e a dinamização da economia, com a contraposição de um controlo
democrático ao dirigismo burocrata, o estabelecimento de áreas de actividade
abertas à iniciativa privada, a criação do mercado como aferidor e potenciador
da capacidade produtiva das empresas, tanto no domínio da quantidade como no da
qualidade.
Porque a contradição e o confronto
entre os sistemas perdurará, o desanuviamento, em vez de se fazer segundo o
modo e o ritmo que lhe gostaria de imprimir qualquer das partes envolvidas, tem
tido e terá antes um desenvolvimento sinuoso e contraditório gerador de grandes
incertezas.
Não é espontaneamente e por opção
filosófica que os Estados Unidos têm aceitado tratados de redução de armas
nucleares ou convencionais. Forçou-os a isso a iniciativa soviética baseada nas
próprias forças acumuladas e a opinião pública mundial.
Porém, basta que a capacidade bélica
do bloco socialista se dilua para que nada impeça o rearmamento do lado do
capitalismo. Não faltam os pretextos para que isso aconteça; a recente corrida
dos norte-americanos ao Golfo Pérsico, fazendo deslocar para essa zona do globo
várias centenas de milhar de soldados e um megalómano rol de dispendiosos meios
militares, é um bom exemplo do que acabamos de dizer.
Quando afirmámos que sem o
desarmamento as reformas da perestroica não
poderiam ser substanciais e decisivas, falávamos, obviamente, de um desarmamento
bilateral. É claro, também, que um desarmamento unilateral por parte dos
Estados capitalistas permitiria as mais substanciais e decisivas de todas as
reformas no campo socialista. Esta, porém, é uma hipótese impensável no
imediato, porque equivaleria a que o sistema mundialmente ainda dominante
abdicasse espontaneamente do seu poder e, com isso, da sua própria
sobrevivência como sistema.
Mas, atentemos na hipótese inversa:
poderiam os países socialistas desarmar-se unilateralmente? Claro que também não.
Isso igualmente implicaria a sua destruição enquanto países do socialismo,
porque o sistema que lhes é antagónico de imediato aproveitaria esse
desequilíbrio de forças para fazer prevalecer o seu ascendente militar,
económico, ideológico, mediático de sistema dominante e com ele forçar a que as
reformas promovidas nesses países se orientassem no sentido do regresso às
relações capitalistas de produção no plano interno, e do enquadramento
adequado, correspondente ao seu grau de desenvolvimento, no sistema capitalista
mundial.
Significa isto que a perestroica ou outros processos
semelhantes de reestruturação terão uma ou outra sorte, isto é, poderão ser uma
reformulação do sistema no sentido do aprofundamento do socialismo, ou conduzir
à sua degenerescência ou destruição, conforme sigam ao ritmo, ou ultrapassem no
tempo, um processo de desarmamento equilibrado.
No entanto, o desarmamento está em marcha –
dir-se-á – e tem consistido numa redução de efectivos e meios de guerra de
ambos os lados que se crê que irá continuar.
A esperança de Paz que acalentamos
não deve criar-nos ilusões excessivas.
Se é certo que o conflito entre as
superpotências possibilitou a consciência do absurdo da contínua acumulação de
armamentos de ambas as partes e de que qualquer delas não poderia sair
vencedora de uma guerra entre ambas, nada nos consente supor que estejam na
disposição de abandonar a sua condição de superpotências ou de deixarem de
tomar medidas defensivas recíprocas. Sendo assim, isso implica, pelo menos, manterem
uma capacidade bélica capaz de garantir um ascendente sobre as potências
menores e de evitar um desequilíbrio militar em favor da grande potência rival.
No que toca ao campo socialista,
isto traduzir-se-á fatalmente na manutenção de um Estado armado, embora a
níveis substancialmente inferiores aos actuais e sem os ruinosos orçamentos
impostos pelo esforço de actualização militar.
É preciso reter que o desarmamento
em curso não é pensável nem realizável como um absoluto. Tem condicionantes
históricas que lhe determinam a natureza, o sentido e a medida.
A luta entre os sistemas não
terminou. O socialismo continua a ser o sistema de menor implantação que ainda
não alcançou posição dominante no plano mundial.
Na hora actual é impensável supor
que possa prescindir da força dos seus Estados organizados.
As reformas para aprofundamento do
socialismo não podem ignorar esta realidade.
O importante é que os níveis do novo
equilíbrio em vias de ser alcançado permitam libertar a iniciativa popular
devolvendo aos povos dos países socialistas a consciência do seu papel na
História e o poder para o desempenharem.
Se, no momento histórico em que
vivemos, não se pode aspirar a que as reestruturações em curso nos proporcionem
sociedades socialistas sem Estado e sem exércitos, e muito menos orgias
libertárias, pode, sem dúvida, prever-se a decisiva ascensão a uma nova fase da
história do socialismo, fase esta cuja característica fundamental é a inversão
da tendência para o armamentismo, a burocratização, o autocratismo e o
distanciamento das populações e dos seus interesses por parte do Estado que até
agora se verificava.
XIX
No início destas considerações
dissemos que o tema que nos propúnhamos analisar tem princípio, mas não tem
fim.
Assim é, de facto. Procurar
compreender o mundo actual, a sua fluência, as múltiplas feições do seu ser,
exige, antes do mais, a capacidade de problematizar todas as grandes questões
que se atravessam no percurso do conhecimento da realidade.
Foi a esta tarefa que pretendemos prestar
colaboração, revolvendo conceitos acomodados, investigando do lado de lá das
verdades feitas.
…MAS A HISTÓRIA NÃO ACABA AQUI –
demos por título a este trabalho. Com ele queremos evidenciar a inconsistência
das pseudo-explicações da actual evolução da situação mundial que vêem nela a
demonstração da excelência e perenidade do sistema capitalista de produção
mundialmente dominante, que seria insubstituível para todo o sempre.
É claro que a História pode acabar.
Bastaria, para isso, que os
desequilíbrios ecológicos se fossem progressivamente agravando até tornarem
impossível a sobrevivência do Homem. Isso não é impossível acontecer, e mais
fácil é que aconteça enquanto o capitalismo subsistir.
Na vigência deste sistema, as
agressões à natureza – que é de todos – são, ou não, feitas normalmente pelas
empresas privadas – que são de alguns – precisamente porque a avidez de lucros
lhes é protegida e acalentada como mola real e supremo bem da economia?
Claro que a História pode acabar.
Uma guerra nuclear pode eliminar a
vida humana no planeta.
Reduziram-se substancialmente os
armamentos? – Não se sabe até quando as coisas assim se manterão e os arsenais
remanescentes são ainda mais que suficientes para isso.
Conflitos latentes? Há-os aos
montes.
Claro que a História pode acabar.
Independentemente das agressões
praticadas pelo Homem, a Terra regista uma contínua evolução natural.
Assim como durante milhões de anos
não havia atmosfera, camada de ozono e outras condições da vida humana no
planeta, tal situação poderá voltar a ocorrer no futuro, mais ou menos
longínquo.
Mas, em qualquer dos casos
figurados, a História acabaria porque acabariam os homens.
Ao dizermos que a História não acaba
aqui, porém, pomos conscientemente de parte a eventualidade de tais
ocorrências.
Não o fazemos por uma questão de
esperança que não se adequaria a um propósito de isenção e rigor no processo de
conhecimento. Antes porque as teses concernentes à evolução histórica
(incluindo as que aqui particularmente repudiamos) pela sua própria natureza,
têm que partir deste pressuposto.
O que queremos dizer, enfim, é que,
prosseguido a História o seu curso, a sociedade humana acederá fatalmente a
novas formas de organização da sua economia, novas relações entre os homens,
novos princípios de moral, novos expoentes de cultura.
O progresso científico, o acelerado
aperfeiçoamento e inovação dos métodos de produção, o carácter cada vez mais
social que esta assume, fatalmente proporcionarão esse resultado.
Os países socialistas, sejam quais
forem as contradições, os recuos que registem, não poderão deixar de, a mais
breve ou longo prazo, participar neste movimento para diante. Cabe-lhes, aliás,
o papel de pioneiros nesta tarefa simultaneamente empolgante e árdua.
Empolgante, por decorrer no ambiente de tensão e expectativa que sempre
desperta a pesquisa de soluções inovadoras e de todo o saber; árdua, porque o
carácter momentoso e a extensão das situações em que vivem exigem respostas
urgentes, que a falta de experiências prévias torna fatalmente falíveis e
causadoras de pontuais insucessos e decepções.
A esta dificuldade acrescerá
certamente a resultante da dessincronia dos processos de reestruturação em
curso nos diversos países socialistas que gera contradições entre eles e tende
a transformá-los em ilhas dispersas, a destituí-los da força de que dispunham
enquanto elementos de um sistema socialista coeso.
Coesão não é necessariamente
monolitismo. Anti-monolitismo também não pode ser anti-coesão.
A ideia amadurecerá. As experiências
também.
Findo o espavento, dissipados o fumo
e a poeira que obnubilam intelectos facilmente excitáveis pela surpresa das
situações, todos, enfim, um dia hão de convir em que a História não acabava
aqui.
FIM
Vila
do Conde, 11/12/1990
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